A SELEÇÃO


Kiera KASS
Editora SEGUINTE
2012
368 págs.

SINOPSE: Nem todas as garotas querem ser princesas. America Singer, por exemplo, tem uma vida perfeitamente razoável, e se pudesse mudar alguma coisa nela desejaria apenas ter um pouquinho mais de dinheiro e poder revelar seu namoro secreto. Um dia, America topa se inscrever na Seleção só para agradar a mãe, certa de que não será sorteada para participar da competição em que o príncipe escolherá sua futura esposa. Mas é claro que seu nome aparece na lista das Selecionadas, e depois disso sua vida nunca mais será a mesma...

Quando li a sinopse de A SELEÇÃO, a ideia que tive foi a de uma história fútil, previsível e machista. Conforme lia resenhas e opiniões de leitoras em grupos de Whatsapp, ou no Skoob, minha opinião se consolidava nesse sentido.

O que me deixava mais curioso, era como uma história assim poderia ter tantas fãs femininas, uma vez que a mulher era colocada como alguém que só se interessava por roupas, desfiles, joias e pelo príncipe. Ainda mais que essas mesmas garotas que liam o livro, eram as mesmas que defendiam a igualdade entre os sexos, a discriminação machista, etc. Não conseguia entender essa incoerência de ideais. Então, para descobrir, precisa ler.

Infelizmente, tudo o que pensava era pouco.

A história acontece em um país chamado Íllea (antigos Estados Unidos da América, que foram invadidos pela China em uma Quarta Guerra Mundial), onde a população é dividida em oito classes sociais diferentes, chamadas de castas. Quanto menor o número da casta, mais favorecidos são seus membros. Além das dificuldades normais políticas e econômicas, o país é assolado por ataques rebeldes de facções diferentes, que não concordam com a forma como o país é conduzido pela monarquia atual.

América, a personagem principal que narra a história, é uma jovem de 17 anos que pertence à casta cinco, formada por artistas e músicos. Ela é apaixonada por Aspen, um jovem de 19 anos da casta seis, e se encontram furtivamente em algumas noites para trocarem carícias e juras de amor, uma vez que a união entre pessoas de castas diferentes não é bem vista pelo governo e pela sociedade. E o sexo antes da maioridade também não. Tudo desanda quando América recebe um convite para participar da Seleção, uma espécie de concurso, onde 35 jovens, dos 16 aos 20 anos, de todas as castas, serão avaliadas pelo príncipe de Íllea, Maxon, de 18 anos, para uma delas se tornar sua esposa e, consequentemente, a princesa do país. América não deseja participar, porque é apaixonada por Aspen e tem seus próprios planos, mas acaba sendo convencida pelo próprio Aspen(!?) e pela necessidade de receber o dinheiro mensal que cada participante ganha, para ajudar sua família.

"Seus lábios, próximos do meu pescoço, começaram a me beijar. Minha respiração acelerou. Não pude evitar. Subiram pelo meu queixo até a minha boca, o único jeito de silenciar meus suspiros. Enrosquei-me no corpo dele, e a umidade da noite e nossos abraços apressados nos cobriram de suor."

Como disse no início da resenha, infelizmente, a história de A SELEÇÃO é extremamente fútil e fora de propósito. Embora se passe em um futuro distópico, com grandes cidades cheias de prédios, aviões, televisão e tudo o mais a que estamos acostumados, todo o resto é de 200 ou mais anos atrás, inclusive a forma machista de considerar o papel feminino na sociedade. As regras de cada casta são explicadas de forma confusa e intercaladas com os acontecimentos, dando a sensação de que a autora as criava de acordo com a necessidade das ações dos personagens. Como por exemplo, o fato de que todo o príncipe precisa se casar uma das 35 jovens para satisfazer a população, como se isso fosse suficiente para fazer esquecer a fome e a pobreza que a maioria passa. Sem falar que é explicado que quando nasce uma princesa, ela se casa com um príncipe. Mas se todo o príncipe se casa com uma jovem das castas, então com quais príncipes as princesas casam?

Kiera Kass criou América usando os ingredientes clássicos para criar identificação rápida com as leitoras: uma jovem que se acha mais feia do que todas as que a rodeiam, desajeitada, sem muitas qualidades, insegura, ingênua, cheia de sonhos e que se julga apaixonada pelo cara que o leitor sabe, desde as primeiras páginas, que será trocado por outro. Entretanto, todos gostam dela, o resultado de suas decisões, por mais erradas e desastradas que sejam, acabam dando certo, sempre é considerada a mais bonita e simpática e, claro, conquista o príncipe por sua simplicidade e jeito diferente de agir. Não há como uma garota não se identificar com ela.

"Minha vista ficou embaçada. Nem reparei quando comecei a chorar. Não conseguia respirar. Estava tremendo. Pulei da cama e corri até a sacada. O pânico era tanto que demorei um pouco para abrir a trava, mas consegui. Pensei que o ar fresco me faria bem, mas não fez. Minha respiração continuava curta e fria."

Aspen é o personagem por quem América se diz apaixonada, mas que é totalmente abstraído do resultado da história, porque é evidente demais o que lhe espera na relação. Não por menos, ele é incoerente nas suas atitudes. Em um capítulo ele é capaz de fazer de tudo por América, para, logo em seguida, empurrá-la para um concurso onde ela poderá se casar com outro. Ele jura se afastar e deixá-la em paz, mas consegue uma forma de virar soldado dentro do palácio e procura a garota todas as noites.

Já Maxon, por quem todas as garotas que leram A SELEÇÃO são apaixonadas, realmente me surpreendeu. Não pela complexidade do personagem, mas porque a autora não o descreveu como um deus grego, como eu esperava, e, sim, como alguém totalmente normal, sem tantas qualidades físicas, sem ser muito bonito e, de certa forma, imaturo devido à vida confinada no palácio. E o fato dele se interessar imediatamente por América, uma vez que ela é a única das 35 garotas que não se interessa por ele e que o afronta em quase todas as decisões, é coerente e convincente.

Como pano de fundo para tudo isso, existe a descrição de uma disputa política e de uma guerra contra as facções rebeldes. Entretanto, tudo isso é relegado a quinto plano, como se não tivesse muita importância, ou fosse apenas um inconveniente no meio do concurso para escolher a princesa. E esse desinteresse é repetido sempre pela própria autora através de América, que prefere descrever com detalhes a vida dentro do palácio e sua insegurança quanto ao que sente por Maxon e Aspen, enquanto gasta poucos parágrafos para se preocupar com o que acontece no país ou procurar descobrir o motivo dos ataques rebeldes.

A escrita de Kiera Kass é bem simples e, por isso mesmo, contagiante. Ela consegue envolver o leitor a cada capítulo, mesmo com tanta futilidade e absurdos. Isso, claro, não é suficiente. No final, descobri que a forma correta de ler A SELEÇÃO, é trancar o ideal feminista no armário e ignorar o bom senso.

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

18 COMENTÁRIOS

  1. Felipe Nunes03 agosto, 2015

    Minha opinião é muito parecida com a sua. Parabéns pela resenha!

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  2. oii Carlos, ainda não tive a oportunidade de ler a coleção A seleção. Mas pela a sua resenha, sinceramente meu interesse caiu um pouco. Já ouvi comentários de alguns amigas e li algumas resenhas sobre o livro e realmente fiquei impressionada como as opiniões são voltadas apenas para a vida fútil. Pretendo ler o livro para tirar as minhas próprias conclusões. Parabéns pela resenha e mais uma vez você me surpreendeu.

    Bjs Bella

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  3. Oi, Carlos.
    Tenho que discordar de você.
    Eu adorei a leitura dessa série. Acho que a Kiera tem uma forma de escrever que prende o leitor até o fim. Senti falta sim do cenário político no qual os personagens estavam inseridos, ela criou um mundo distópico que facilmente renderia um livro inteiro somente sobre a política. E ela teria ganho muito mais com isso, a história seria muito mais enriquecedora! Mas de forma alguma acho incompreensível as atitudes dos personagens, pelo menos me colocando no lugar deles. No caso de Aspen, por exemplo: Se você ama mesmo uma pessoa, prefere ver ela passando fome com você ou vê-la feliz longe? Por conta desses pontos, de me colocar no lugar dele, é que eu posso compreender.
    Acho que esse livro dificilmente vá agradar o público masculino, é uma leitura completamente voltada para o público feminino. É a velha história de garota que se acha o patinho feio encontra o príncipe encantado. E funciona.
    Eu demorei horrores para ler essa série porque reluto contra modinhas literárias, rs. Mas no final das contas, valeu a pena.
    Mas ainda assim é bom ler a resenha de alguém com outro ponto de vista, principalmente masculino.
    Beijos!

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    1. Oi, Jess!
      O problema é esse mesmo, o que o livro poderia ser se fosse mais bem desenvolvido, mas não é. A América e o Aspen não passariam fome, ela tinha planos para eles construírem uma vida digna, com privações, mas feliz dentro do possível. Ele a ataca com um discurso machista de que ele é quem tem que cuidar dela e prover sua sobrevivência. E com isso a empurra para outro homem. Mas se ele queria isso, porque arrisca tudo ficando com ela escondido no palácio? Por que muda de ideia logo em seguida? Maxon é super gentil e compreensivo, mas sua ingenuidade é imensa. E na discussão que tem com América quando ela teima em contar da concorrente desleal, mostra que o personagem é arrogante. A própria América passa o livro inteiro sem saber o que quer. Ficar em casa, no concurso, com Aspen, com Maxon... nossa, são tantas coisas! kkkkkk Mas compreendo seu ponto de vista, que é o mesmo da maioria das garotas que leem o livro. Mas, mesmo assim, acho que a história poderia ser muito, muito melhor se fosse menos fútil e se os personagens fossem mais bem desenvolvidos. Mas só minha opinião, tá ;) Bjs!

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  4. Olá, eu adoro a série, mas após criar esse hábito lindo da leitura, ouso dizer que tem melhores,porém não consigo deixar de gostar desse livro.
    Ele é bom a sua forma, por mais que tenham outros considerados melhores,rs
    Abraço.

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    1. Jéssica, tudo bem?
      Entendo o que quer dizer rssssss
      Bjs

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  5. Sou completamente apaixonada por essa série. Minha favorita.
    colhendo-sonhos.blogspot.com.br

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  6. Carlos, estou louca para ler essa série. Parece que sou uma excluída. Todos que conheço já leram. Adoro distopias e espero que essa me surpreenda. Torcendo para o black friday chegar logo e eu poder fazer a festa. hahhaa

    Abração, querido.
    Luana
    http://psicoselliteraria.blogspot.com.br/

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    1. Luana, ele tá quase chegando, você vai comprar e vai ler! rssssss
      Bjs

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  7. Ótima resenha! Estou te seguindo, o meu blog é https://literarioetc.blogspot.com , da uma passadinha lá, quem sabe vc gosta!
    bjs

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  8. Eu vesti minha capinha de adolescente e li feliz! Amei!!!
    A seleção é ótima e uma das minhas histórias preferidas. Acho que a autora poderia ter explorado mais os personagens e a ótima premissa que ela tinha em mãos, o que parece que em A elite ela se perde um pouco e corre com a história em A escolha, mas no geral eu gostei!
    Bjs

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  9. Olá!
    Eu li esse livro. Gostei, mas não foi o suficiente para me fazer querer ler mais. A autora escreve muito bem mesmo, mas senti falta de algo. Ainda quero ler o restante da série. Adorei a resenha. Escreve muito bem mesmo!
    Abraço!

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  10. Uma das minhas histórias favoritas, devorei em dois dias e não me arrependo. Uma leitura incrível, uma pena que ainda não li o resto da série.

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  11. As sinopses que li desse livro sempre me soaram meio machistas, em contrapartida, é tanta gente lendo e falando bem, que, confesso, fiquei com vontade de ler também e tirar minhas próprias conclusões. Acho que sua resenha é a primeira que vejo que faz uma descrição sensata do livro.

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