MEU MISTÉRIO


Sempre fui o tipo de pessoa que adora mistérios e, francamente, você ainda é o maior mistério que encontrei. Depois que te conheci – pelo menos as partes que você me deixou conhecer – não consegui achar ninguém tão interessante. Desde que coloquei meus olhos em ti notei essa ânsia por ser visto e ouvido, mesmo quando não havia nada a ser dito.

Havia certo charme na maneira como era fácil falar sobre amenidades contigo como se essas coisas pudessem mudar o mundo. Eu poderia passar horas falando sobre como determinado estilo musical mexia comigo sem me preocupar se você estaria prestando atenção. Você sempre prestava. Quando o assunto era musica, comida, viagens, sexo... Ah, você era bom em falar sobre essas coisas, mas quando ouvia a palavra amor a história mudava.

Nunca soube se era amor que sentíamos um pelo outro. Nunca falamos sobre sentimentos. Você nunca dava ouvidos quando  eu tentava. Um dia, sem querer, parei de tentar. Nunca soube o que éramos, mas preferi deixar assim. Era melhor ser alguma coisa sem nome do que não ser nada. Pelo menos eu achei que era.

O problema começou quando caímos na rotina. O sexo não era mais sobre prazer e sim sobre obrigação. Comecei a falar sobre trabalho, fotografia e me envolver em projetos novos e você fingiu interesse. Eu notei, mas decidi ignorar. Não estava disposta a discutir naqueles dias. Nós daríamos um jeito de mudar a maré tediosa em que nos encontrávamos.

De repente te vi entrar em casa, de cara amarrada, olhos vermelhos e inchados, com uma carta nas mãos. Você disse que não podia mais continuar comigo e que precisava ficar sozinho. Seu destino era a solidão, enquanto o meu era ganhar o mundo. Lembro-me que usou essas palavras como argumento e eu chorei. Chorei como uma criança naquele dia enquanto você me abraçava e dizia que ficaríamos bem. Ainda éramos nós. Mas já não éramos nós. Éramos eu e você. Duas pessoas casualmente unidas por desejos em comum, separados por sua vontade de sei lá o que.

Quebrei metade dos pratos e copos do apartamento no segundo em que a porta se fechou atrás do seu corpo forte e cansado. Sua chave ficou comigo naquela ocasião e eu soube que você não voltaria. Sempre ouvi seus planos para o futuro e fui tola o suficiente para pensar que sua viagem para a Irlanda me incluía e que o casamento feito em um momento de embriagues em Las Vegas seria comigo. Nos meus planos sempre houve uma parte reservada aos nossos domingos jogados na cama, as nossas brigas sobre qual filme iríamos ver antes de pegarmos no sono... Faríamos isso durante os anos seguinte se você tivesse ficado. Mas você fez suas malas e foi embora antes que eu pudesse pedir que ficasse.

Muitas vezes, em meus momentos mais desesperados e embriagados, tentei ligar para você, mas sempre desliguei o telefone após discar seu número. Você decidiu partir e eu não sabia como te convencer a voltar. Queria que você voltasse por vontade própria e não por pressão. Mas você nunca tentou voltar.

Entendi tarde demais que desejos em comum não eram suficientes para te manterem interessados por muito tempo. Talvez você fosse aquele tipo de cara que não gosta de compromisso sério por muito tempo ou talvez só estivesse entediado da minha rotina monótona.

Se houvessem me falado que meu coração seria despedaçado por você, eu teria rido. Não me entenda mal, não há nada de errado com seu cabelo bagunçado, roupa amassada ou no seu gosto musical ultrapassado, você apenas não fazia meu tipo naquela época. Quem diria que hoje em dia você seria o único tipo de cara que eu iria querer na minha vida?

Em um dia ensolarado, três meses depois da sua partida, eu quase consegui superar nosso relacionamento fracassado. Já havia guardado os poucos pertences seus que me restavam em uma caixa e conseguia acreditar que havia luz no fim do túnel escuro e úmido em que me encontrava. Nesse mesmo dia te encontrei andando na rua, com o braço no pescoço de uma mulher. Meu coração se partiu ainda mais nesse dia e você nem se deu ao trabalho de sorrir para mim. Por que sorriria?

— Ela era bonita? — Uma amiga perguntou quando contei-lhe que havia encontrado o cara que partiu meu coração com outra mulher.

Sua nova namorada era bonita? Não prestei muita atenção nela. Sei que ela parecia mais velha que você, que tinha o cabelo loiro, liso e comprido, que era magra feito uma vareta e não sorria quando você contava piadas sem graça. Ao contrário dela, eu sempre ri dessas piadas, mesmo das mais estúpidas. Ela era bonita de um jeito que eu nunca fui, mas nunca admitiria isso.

Quase liguei para você naquela noite. Quis perguntar o que ela tinha de especial que eu não tinha. Eram as pernas longas e finas? Ou a falta de senso de humor? Eu era bem humorada, talvez ele preferisse mulheres sérias...

Um ano depois de ter meu coração arrancado do peito, esbarrei em você numa livraria no centro da cidade. Eu estava feliz naquela ocasião. Havia encontrado um cara que me amava o suficiente para querer se casar comigo. Esfreguei isso na sua cara algumas vezes durante uma conversa cheia de constrangimentos seus. Tentei ignorar as olheiras, o cabelo ralo e a perda de peso que agora faziam parte de você, mas não pude evitar perguntar o que havia acontecido com aquela sua namorada loira estonteante e mal-humorada.

Ao ouvir sua resposta quis sair correndo para longe dos seus olhos tristes. Para minha surpresa, a tal loira estonteante, era uma enfermeira. Sua enfermeira. Por que diabos você precisaria de uma enfermeira?!

Ficou obvio, então, o que estava acontecendo: você estava doente. Não perguntei qual era a doença, por medo da resposta. Não perguntei se já havia sarado por imaginar a resposta. Você sorriu, me pediu desculpas pela forma como tudo acabou entre nós e foi embora. Novamente você me deixou sozinha, cheia de dúvidas, com o coração na mão e lágrimas nos olhos. Desta vez, no entanto, não ouvi você falar que tudo ficaria bem, talvez por que você sabia que isso não aconteceria.

Você partiu meu coração três vezes em pouco menos de dois anos e ainda assim seria o único homem que conseguiria curar esse meu frágil coração despedaçado. Eu te amei todos os dias desde que sua risada fez meu coração inflar. Hoje seu riso é apenas uma lembrança e meu coração bate lenta e desajeitadamente sem você por perto. Você foi o meu mistério favorito, mesmo quando não queria ser e é por isso que eu jamais conseguirei deixá-lo partir. 

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

5 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns!!!

    Adorei o conto :)

    Beijokas da Quel ¬¬
    http://literaleitura2013.blogspot.com.br/

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  2. Oi Carlos, que lindo. Adorei o conto, parabéns, beijos

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  3. Ótimo conto, e como todos já disseram acima: Parabéns \ooo/

    http://www.decidindose.com/

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