REALEJO


Era a terceira vez naquela semana que eu acordava no meio da noite, molhada de suor e completamente assustada. De repente, eu me vi tendo pesadelos todas as noites. Apalpei o colchão debaixo do meu travesseiro e peguei o celular para olhar as horas. Três e meia da manhã. Olhei para meu lado esquerdo e constatei que aquele lugar estava vazio. Era ainda mais comum eu acordar e não vê-lo deitado, dormindo.

Então, eu resolvi me levantar. Como estava frio, coloquei um casaco por cima do pijama, eu fui procurá-lo. Como previsto, ele estava deitado no sofá da sala de estar, assistindo seus programas favoritos da madrugada. Escorei na parede e sorri. Ele sempre fazia isso. Era como eu: se levantava no meio da noite, e para não atrapalhar meu sono, ia assistir televisão ou simplesmente sentava-se à mesa da cozinha para escrever um pouco. E eu adorava acordar um pouco depois para simplesmente ficar olhando para ele. 

– Oi... O barulho da TV está muito alto, querida? – Perguntou-me, com o tom preocupado. Eu adorava quando ele se preocupava comigo. Adorava quando me chamava de querida ou de “meu amor”. 

– Não, é que eu tive outro pesadelo... E não quero voltar a dormir agora. – Respondi, tentando não demonstrar o medo que eu realmente sentia. 

– Ah, meu bem, você quer me contar? – Na verdade, eu não gostava de ficar me lembrando sobre os pesadelos. Me dava um aperto no coração só em me lembrar de todo o sangue, de todas as pessoas mortas no chão do meu quarto. 

– Você pode só me abraçar, por favor? – Ele se levantou e eu percebi que ele estava com minha calça de pijama favorita, aquela toda preta, com um bolso na parte de traz. Segurou as minhas mãos e colou seu corpo junto ao meu, me abraçando forte. 

– Acalme-se, meu amor, vai ficar tudo bem, eu estou aqui com você... – Henry tinha o dom de me fazer sentir a garota mais especial do mundo. Ele conseguia tirar todas as angústias do meu pequeno coração, conseguia afastar todos os pensamentos ruins. Eu podia sentir o seu calor a metros de distância... Deus, como eu o amava. 

Como eu sentia que ainda teríamos toda uma vida pela frente. Como eu sentia que uma hora ou outra eu teria que contar-lhe meus segredos mais profundos: Aqueles que guardamos até de nós mesmos. Como eu dividiria minha vida com ele, como eu sonhava a nossa lua de mel, numa casa de praia, sob a luz do luar. Como eu esperava que nós dois nos amássemos pelo resto de nossas vidas. E nos amaríamos. 

– Eu tenho tanto medo, Henry, de um dia tudo isso desabar... Como antes... Tenho medo de olhar para o lado esquerdo da cama, ver que você não está lá, andar por toda casa te procurando e perceber que você não está me escrevendo um poema de amor na cozinha ou não te encontrar no sofá, assistindo televisão preocupand0-se em não me acordar... Tenho medo de não poder ir ao supermercado e escolher o seu iogurte favorito, e quando chegar em casa, descobri que trouxe o errado... Tenho medo de perder você, meu amor... Tenho tanto medo... 

Henry colocou as mãos na minha cintura, e olhou para mim. Só então eu percebi que minhas bochechas estavam encharcadas pelas minhas lágrimas. Eu odiava chorar na frente dele. 

– Julie, você se lembra do que eu te disse na nossa primeira conversa? “Quando a gente menos espera e mais precisa, aparece alguém na nossa vida.” Eu não esperava por você. Mas quer saber? Eu não precisava de você, eu ainda preciso. Lembra, quando começamos a ficar juntos, daquela promessa que eu te fiz? Que eu nunca iria te deixar? E não vou mesmo. Você não vai me perder, meu amor, não vai. 

– Promessas podem ser quebradas, e eu não suportaria... – Ele me interrompeu totalmente sério. Provavelmente, eu havia estragado tudo. 

– Me escuta! – Suspirou – Eu amo você, Julie. Eu não tenho motivos para te deixar. Que outra garota me acordaria com um beijo nas manhãs de domingo? Quem mais insistiria em trazer o iogurte errado para mim? Eu não preciso de mais ninguém, mi hermosa, você é tudo o que eu quero, preciso, tudo o que eu amo. Só o que eu amo. 

– Você é tudo o que eu amo, Henry. – E então, ele pousou seus lábios macios nos meus, e eu pude me esquecer dos pesadelos, das marcas de iogurte e dos programas de televisão. 

Para um amor, com amor.

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Ana Clara

Nasci em uma cidade do interior de Minas Gerais, chamada São Domingos do Prata. Já rodei todos os cantos do estado, até que surgiu a oportunidade de eu vir estudar em Diamantina. Amante de livros desde pequena - devo agradecer à minha mãe por isso -, sonho em ter uma biblioteca pessoal.

3 COMENTÁRIOS

  1. Oi Ana, oi Carlos!
    Que texto incrível! É simples, mas delicioso de ler e é difícil parar se não descobrir o final. E, bom, quem não quer um amor assim, né?
    Adorei!

    Beijos

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    Respostas
    1. Oi Ju!

      Ah, fico feliz que tenha gostado!
      Não sou muito de compartilhar os meus textos, rs.

      Beijo!

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