07 novembro 2015

O VILAREJO


Raphael MONTES
Editora SUMA DAS LETRAS
2015
96 páginas

SINOPSE: Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome. As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.

Composto por 7 contos bem curtos, além de um prefácio e um posfácio, a obra de Raphael Montes é vendida através da opinião, impressa na capa e contracapa, de alguns autores conhecidos, como Fernanda Torres e André Vianco. Sempre suspeito desse tipo de incentivo para a leitura, uma vez que as frases usadas são retiradas do contexto e, muitas vezes, são ditas com base em pedidos ou amizades. Infelizmente, acertei e a obra não faz jus ao que é dito.

Fica claro, conforme se lê, que o objetivo é tentar surpreender o leitor com uma revelação ou uma reviravolta no fim de cada conto. A surpresa existe, mas sem muito impacto, uma vez que ela não é fundamentada em ações coerentes. Como em O Negro Caolho, onde uma personagem muda completamente de atitude e personalidade apenas para produzir um desfecho bizarro e cheio de violência. No conto final é dada uma explicação para todas as atitudes dos personagens, mas de forma forçada.


Existe uma ligação tênue entre os contos, além do fato de que se passam no mesmo vilarejo e com personagens que são citados diversas vezes. Essa ligação é tão sem interesse, que, da mesma forma que a surpresa, não empolga. Para tentar ser mais claro, basta o leitor imaginar um personagem com atitudes normais, que no meio do conto, ou no seu desfecho, são alteradas sem apresentar pistas ou explicações, com o intuito de tornar o fim inesperado.

"Vonda treme de medo. Ela não está morto. Ela corre para casa com uma imensa vontade de chorar. Sua mente procura uma solução. Não há solução. Ele a viu, sabe que ela é a responsável por tudo aquilo. Ela será presa. Odiada pela família. Repugnada pelo vilarejo. Por que sempre fazia tudo errado?"

Quando se pretende surpreender o leitor, como, por exemplo, no filme O Sexto Sentido, é necessário construir uma linha de acontecimentos corriqueiros e que combinam de forma lógica, sem o leitor, ou expectador, perceber. Ele só percebe o que realmente está acontecendo quando, no fim, é apresentado à solução do problema. Então, tudo o que leu, ou viu, ganha uma nova dimensão e ele se vê diante da incredulidade de que deixou passar tantas pistas.

Essa seria a intenção de O VILAREJO, somado a uma dose de terror, mas o que encontrei foi apenas personagens com atitudes grotescas que agem sem motivação e cujas ações são justificadas pela presença de uma entidade que também não explica nenhum objetivo.


No início do livro, existe a frase: “O caráter do homem é o seu demônio.”, e acredito que esse era o objetivo principal do autor. Mas não foi isso que consegui encontrar nas páginas seguintes, porque a explicação dada para o caráter dos personagens não reside neles próprios, mas na interferência dessa entidade. Inclusive, é dito que os contos podem ser lidos em qualquer ordem, mas não é correto. Se partir do último, terá revelado acontecimentos que são interrompidos no primeiro, além de conhecer a tal entidade que influencia os moradores do vilarejo.

Um outro descuido narrativo, é o fato dos contos serem traduções de cartas de um personagem desconhecido. Entretanto, muitos dos eventos narrados acontecem sem testemunhas, ou sem que os personagens que os vivem contem para alguém o que fizeram, tornando-se impossível conhecer as ações. Uma narrativa em terceira pessoa teria sido mais coerente.


De qualquer forma, a edição está muito caprichada. As páginas são de papel mais grosso e áspero, com pinturas de jatos de sangue em alguns cantos. Existem desenhos em todos os contos, todos muito bem feitos e bonitos, mas em estilo cartoon. Isso acaba não combinando com as histórias. Um traço mais realista teria mais sentido e ajudaria na atmosfera pesada das ações violentas dos personagens.

"Mobuto puxa os garfos de quatro dentes, deixando um rastro de sangue que escorre de seus pés. Arremete os garfos contra a sra. Helga. Ela é igual aos outros, ela também é culpada pelo sequestro de suas filhas. Rejubila-se em fúria enquanto desfere os garfos contra os olhos da mulher. Arranca-os."

A leitura é rápida e, embora tenha decepcionado na criatividade e construção dos contos, consegui ler sem qualquer dificuldade. Para quem não gosta do gênero terror, pode ler sem problema. Não existe nenhum susto, apenas muitas mortes com um toque de sadismo e gore. Como aqueles filmes onde não existe preocupação com a lógica do que acontece, apenas em como será a morte de cada personagem.
Carlos H. Barros

6 COMENTÁRIOS:

  1. Oi Carlos!
    Acho que a sua é a primeira resenha negativa que leio desse livro.
    Não tenho interesse em ler "O Vilarejo", pois li "Dias Perfeitos" e me decepcionei muito. Também era um livro que vinha sendo muito bem recomendado, mas achei os elogios infundados, pois tudo na trama foi forçado e previsível. Pelos seus comentários, vejo que "O Vilarejo" sofre dos mesmos problemas.
    Mas a edição está mesmo super caprichada.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Mariana!

      No Skoob existem várias resenhas com a mesma opinião que a minha. Foi o primeiro livro do autor e pretendo ler Dias Perfeitos para tentar desfazer a má impressão que tive. Ou piorar rssssssss

      Abs e obrigado pela visita!

      Excluir
  2. Raphael Montes é um dos melhores escritores.

    ResponderExcluir
  3. Vi várias pessoas dando opiniões negativas sobre esse livro. Apesar da edição estar lindíssima, depois de mais essa resenha negativa, a vontade de ler tá sumindo =/

    ResponderExcluir
  4. Detesto história previsível, acaba totalmente com a graça. Eu não conheço "O Vilarejo", mas pelo que eu vejo, muitas pessoas amam e lendo sua resenha, deu pra diminuir bem minhas expectativas com a história, isso é bom? hahaha. Parabéns por sua opinião tão bem colocada, vejo poucas críticas assim, que me passam a realidade.
    Beijos

    ResponderExcluir
  5. Oi Carlos, como pode o mesmo livro cativar alguns e ser uma decepção para outros né? Realmente não gosto de criar expectativas porque no final sempre é frustrante.

    A leitura pra mim foi ao contrário, gostei muito do livro, mas é sempre bom acompanhar outras opiniões, entendi completamente seu ponto.

    Adorei a resenha
    Bjos
    Blog Relíquias

    ResponderExcluir