NUNCA SE SABE


Logan morava em um apartamento pequeno em New York – sala, cozinha, dois quartos e um banheiro não muito grande. Passava a maior parte do tempo entre àquelas quatro paredes, construindo um mundo só seu, um mundo onde nenhum outro jovem da sua idade gostaria de viver.

Um dos quartos – o menos frequentado –, possuía uma cama centralizada, de frente para a janela, uma escrivaninha e o guarda-roupa, que conseguira num leilão de móveis antigos. O outro possuía seus “instrumentos de trabalho”: pincéis, cavaletes, paletas com cores vivas, tintas espalhadas pelo chão e, mais do que quadros pintados, quadros em branco. CDs de bandas de rock dos anos oitenta e um som velho, que às vezes precisava de uns bons tapas na tampa para funcionar. 

Era todo velho aquele lugar. Apesar da pouca idade física, Logan tinha o espírito cansado. Não vivia, existia. Mas nada existia sem algum propósito, mesmo que fosse difícil acreditar que um homem, aparentemente anti-social, sem amigos, servia para alguma coisa. 

Acordou na manhã de domingo com o cheiro de pães frescos, vindos da padaria no andar de baixo. O sol batia fraco em seu rosto e nem aquilo o fez ter vontade de se levantar para fazer qualquer coisa que fosse. Então se lembrou da pintura que tinha que terminar antes de quarta-feira – o que parecia uma tarefa praticamente impossível, e aquela era sua única chance de mostrar que não era só o menino esquisito que ouvia “músicas de gente velha” e que gostava de exatas e comia Donuts açucarados no intervalo do Colégio. E ele era isso tudo e mais um pouco. Ele era o menino com o melhor gosto musical, o mais inteligente e o que não esperava nada que a vida não pudesse lhe oferecer, nem amor, nem paz, nem confiança. Eram doses que Logan não conseguia beber. E ele tinha razão. O mundo sempre soube ser cruel. 

Preparou o seu chá de todos os dias, aquele bem amargo, porque “não criava doces ilusões”, e foi pintar mais um episódio da sua vida naqueles quadros perfeitos. O único problema é que ninguém enxergava a dor por trás da névoa que compunham a paisagem do seu céu, que entrava no mar de esperança que não tinha. E foi só isso o que fez por dois dias inteiros: pintava por si e pelo gosto da admiração. 

Na quarta-feira, quase atrasado, chegou com a pintura totalmente molhada na sua primeira de muitas exposições – um fato que ele ainda demoraria a descobrir. Deu o seu melhor sorriso para o atendente e saiu do estabelecimento quando uma moça loira com olhos tão amargos quanto o seu chá entrava. 

Logan não olhou para Kim, não se virou para acompanhar seus passos, não reparou no vestido verde-água que usava e muito menos nos seus cabelos presos em um coque. Só voltou para sua decadência no apartamento sujo com cheiro de removedor de tinta a óleo. 

Kim não percebeu a presença Logan, o rangido de suas botas surradas, a cicatriz que ele tinha bem no queixo, muito menos no seu ar de solidão. Afinal, por que ela iria reparar naquele estranho que não faria a menor diferença em sua vida? Só continuou andando, à procura de algo que agradasse seu gosto refinado pela arte. 

Por coincidência, ou para quem acredita, destino, Kim se deixou levar por uma pintura recém colocada. O céu vermelho contrastando perfeitamente com um mar muito azul. Olhou para porta. Kim não tinha a menor ideia que Logan, o homem que ela resolveu não reparar, tinha pintado aquele quadro. Logan nem ao menos sonhava que a mulher de estatura baixa e vestido verde-água compraria sua arte. 

E foi assim mesmo que começou o amor. Por que amor de verdade não é só o contato, não é só o que os olhos podem ver. Tem toda aquela coisa de colocar o coração na mão e sangrar. Aquela coisa de olhar uma pintura e sentir a garganta apertada e não poder chorar. De querer colocar o quadro na sala só pra mergulhar naquele choro e cair num precipício. É amar.

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Ana Clara

Nasci em uma cidade do interior de Minas Gerais, chamada São Domingos do Prata. Já rodei todos os cantos do estado, até que surgiu a oportunidade de eu vir estudar em Diamantina. Amante de livros desde pequena - devo agradecer à minha mãe por isso -, sonho em ter uma biblioteca pessoal.

24 COMENTÁRIOS

  1. Ana, que texto lindo! <3 Adorei, acho que diz muito sem dizer, e é incrível quando um texto tão curto consegue envolver tanto. Parabéns.

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  2. É tão intenso cara, eu não conseguiria escrever algo como esse, é de arrancar lágrimas de mim, sou muito chorona hahah, você tem um baita talento, e tá de parabéns!

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  3. Você sabe bem quando mexer com os sentimentos hein, to até agora abalada aqui com essa coisa chamada intensidade :O

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  4. Que texto bonito e intenso, adorei.

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  5. Que texto lindo, Ana! Concordo com muitos aqui, intenso é a palavra certa para ele! Parabéns por conseguir me tocar com essas palavras.

    Um Amor de Livro

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  6. Oi Ana :)
    Seus contos são maravilhosos. Você já pensou em escrever um e participar da Coletânea "Mulher, agora que são elas"?
    Se você for maior de 18 anos, pode inscrever um desses seus contos lindos e pode ter ele publicado. A coletânea aceita textos, poesias, contos de autores amadores ou profissionais.
    Se você ficou interessada, pode acessar esse blog, que foi onde encontrei essa divulgação.
    --> http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/2016/01/divulgacao-cultural-01-coletanea-de.html

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  7. Mais um texto incrível, também escrevo alguns, mas não tão intenso como esse.
    Parabéns, continue escrevendo.

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  8. Já pensou em escrever um livro?!

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  9. Ana!
    Gostei muito do texto, primeiro porque é bem descritivo e gosto dos detalhes e depois por passar sua visão sobre o amor...
    Parabéns!
    “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.” (Cora Coralina)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Participe do TOP COMENTARISTA de Janeiro, são 4 livros e 3 ganhadores!

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  10. Oie,

    Que texto maravilhoso, Ana você daria uma ótima escritora sério. Seu texto é muito lindo, não sei nem o que falar e o mais legal é que eu li ele ouvindo minha musica favorita da Sia, e a voz dela junta ao texto fez uma combinação perfeita. Já pensou em escrever um livro de contos ou algo parecido? A dor do Logan é algo quase palpável, de tão real que é. <3 <3

    Bjs
    Mayla

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  11. Que texto lindo. Incrível como um texto tão curto pode passar tanto sentimento. Adorei, parabéns.

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  12. Muito bom, quanta intensidade e entrega! Tudo segue em um ritmo tão leve que você nem percebe o fim e fica com gostinho de " quero mais "! Parabéns e que venham muitos contos pela frente.

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  13. Ana que texto fofo e lindo! Adorei esse conto! quero mais!
    TOP COMENTARISTA

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  14. Ana !!! que texto lindo =)
    adorei a história do Logan, fiquei aqui imaginando ele chegando numa galeria com o quadro na mão.
    me apaixonei pelo conto quero mais!!
    bjs

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  15. Um dos melhores textos produzidos por você, se chorei? Um pouco!
    Você daria uma ótima escritora, e se algum dia realizar esse meu pedido, pode ter certeza que vou ser uma das primeiras a garantir o meu exemplar, não importa o gênero. Vou sempre apoiar você.

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  16. Que texto sensacional!!!
    Bem que poderia transformá-lo em livro não é mesmo?
    Parabéns pela bela escrita!!!

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  17. Caaraca, que texto incrível!! Meus parabéns, já pensou em escrever um livro?

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  18. Um texto perfeito <3 , você é uma ótima escritora, parabéns Ana!!

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  19. Amei o seu texto!! Está de parabéns.
    Foi bom conhecer a história de Logan.

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  20. Está de parabéns, é uma escritora maravilhosa. Já estou a espera do livro!

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  21. nao sei se sao voces mesmo que escrevem, mas sensacionais os contos. Tô gostando demais!
    Me identifiquei muito com esse tbm, o apartamento solitário, ser de exatas e gostar de arte mesmo assim. Meu Deus, Logan, venha se apresentar! :D

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