UM DIA DESSES, NUM DESSES ENCONTROS CASUAIS


Uma vitrola, duas músicas na cabeça e uma dor de sangrar o coração. Era assim e de nenhuma outra forma que Alex existia depois que Tyler foi embora. Dançava valsa ao som de blues e bebia água com açúcar quando sentia que havia errado um passo. Tomava seu remédio com café quando imaginava que ele não voltaria. Punia a si mesma com ofensas sem nexo e depois ria de si mesma. Uma gargalhada dolorosa.

Às vezes, recostava-se a um canto sombrio da sala de estar, agora cada vez mais escuro, e dirigia uma cena imaginária, na qual os dois ainda eram pares de almas desencontradas, rindo vazios existenciais, enquanto a vitrola chiava. Todavia, fora-se o tempo de ser par, mesmo sendo avulsas criaturas de confusa existência. Em leitos de amor perfeito, só restavam lençóis brancos mal dobrados e surradas impressões de que por ali passara qualquer coisa que se parecia com calma, que se parecia com amor. 

A cozinha era a mesma de uma semana atrás: o molho de tomate seco incrustado no fogão, os pratos de macarronada sujos sobre a mesa e tudo que envolvia café por todo o cômodo. 

– Droga, o açúcar acabou – e Alex não queria sair de casa. Não queria enfrentar o mundo, nem a chuva de novembro, sozinha. Não queria se encontrar com estranhos na padaria da esquina. Queria esperar o mundo passar sozinho. 

Colocou seu casaco surrado de sempre e saiu na rajada de vento, tentando proteger a si mesma com os braços. Passou no banco, sacou o que seriam seus últimos reais até o fim do mês e andou sem rumo, procurando um lugar qualquer. 

– Aqui já está longe o bastante da vida, Alex – disse, baixo, só pra ela ouvir – Chega de correr, ninguém vai te abraçar aqui também. 

Alex abriu a porta da pequena padaria, esperando encontrar apenas seu pó de café e um pacote de açúcar, mas o que viu foi o gosto do perfume dele, o cheiro do ar que ele respirava e aqueles cabelos enormes, tão macios quanto alguém podia imaginar. 

Sua primeira reação foi tentar se esconder, depois, simplesmente, se virar, ir embora e esquecer que existia aquela coisa de viver. Mas algo também avisou aquele outro coração que havia mais sangue pulsando naquele lugar. 

– Me seguindo, Alex? 

– Você não vale toda essa atenção, moleque – respondeu ela, tentando ao máximo não olhar nos olhos dele. – Então, o que faz aqui? 

– Tentando sobreviver – levantou o copo cheio de cafeína. 

– Não quero que me desculpe, Tyler, mas foi você quem me deixou. Quem tem que sobreviver, sou eu. 

– Você não entende, não é? Eu tinha que salvar você. E quando eu digo que não tem jeito, que não dá certo, você nunca tem argumentos suficientes. Mas eu queria que você tivesse, viu? 

– Quer saber? Eu ainda te espero todos os dias. Aquela casa é sua. Minha vida é sua. Você suporta minha tristeza, amor. Como isso? – As lágrimas já saltavam dos olhos da pequena menina, tão frágil como qualquer outra. 

– Alex... 

– Por favor, silêncio, não me interrompa! – e ela continuou. –  Nós não podemos com a distância, meu amor, você sabe. A gente não aguenta o muro entre nossos corpos, o sopro em nossas almas, o vento frio que deixa nossos corpos vulneráveis... Então, volta anjo, me ensina a flutuar... 

– Eu não vou voltar, menina. Não posso. Por você, por mim, por nós dois. Há muita coisa oculta entre nossos olhos, pequena, você sabe. Cada batida do meu coração é uma nova dor, é uma nova ferida aberta, e sangra, sangra de saudade, de amor. 

Ela tentou se aproximar. Tyler simplesmente abriu a porta e saiu com a expressão de "falta açúcar nesse café". Uma lufada de vento soprou os cabelos de Alex e ela deu um passo para frente.

Chorou.

Mas nem de todas as lágrimas ocultadas pelos dias e pelas dores se fazia o choro. Ela sempre soube, mesmo antes da porta se abrir.

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Ana Clara

Nasci em uma cidade do interior de Minas Gerais, chamada São Domingos do Prata. Já rodei todos os cantos do estado, até que surgiu a oportunidade de eu vir estudar em Diamantina. Amante de livros desde pequena - devo agradecer à minha mãe por isso -, sonho em ter uma biblioteca pessoal.

25 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, simplesmente amei! Que coisa linda! Beijos.

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  2. Amo contos! lindo, e profundo.

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  3. Lindo o conto! parabéns ^^ já pensou alguma vez em escrever um livro sobre crônicas e contos? você tem um grande talento para a escrita rsrs

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  4. Oiiii! Lindioooo! Gostei dmais! Adorei a forma que colocou as palavras...lindo!!! Bjs!

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  5. Adoro seus contos, eles sempre são cheio de emoções de sentimentos. Parabéns, você escreve muito bem.

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  6. Nossa que conto mais profundo,amei !! Quem já não passou por uma situação como essa não é mesmo?Parabéns pelo texto Ana, escreve demais !!

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  7. Nossa que conto mais profundo,amei !! Quem já não passou por uma situação como essa não é mesmo?Parabéns pelo texto Ana, escreve demais !!

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  8. Ai, que texto triste! Bateu uma melancolia aqui :/
    Muito bom, que belo conto esse! Cheio de sentimentos e passa uma sensação triste, mas é bonito.

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  9. Que lindo, amei demais! Adoro contos e esse é o primeiro seu que leio aqui no blog, gostei muito, bem emocionante também.

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  10. Adorei o seu conto!! Por meio dele, eu consegui me sentir "na pele" de Alex. Toda a tristeza da personagem no início, foi bem intensa para mim.
    Parabéns. :D :D

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  11. Que conto fascinante, ameeei. Parabéeeens!

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  12. Menina tomara que você publique seus contos. Divou!

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  13. O conto está muito bom, mas posso ser chata?

    Odeio quando a personagem fica com esse drama todo pelo fim de um relacionamento hahaha Quero dizer, a pessoa não morreu nem nada assim hahaha

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  14. Caramba, achei tudo muito profundo, desde o enredo até a linguagem. E este conto me pegou em uma fase da minha vida em que entendo a protagonista melhor do que ninguém, por isso me tocou fundo no peito. Parabéns pela escrita, e invista nela!

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  15. Oi!
    Gostei muito desse conta, simples, emocionante e bem profundo !
    Parabéns !!

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  16. Uhuuul!
    Ana Mulher, tu escreve pra caralho! (desculpa o palavrão.)
    Mas é! Adorei o teu estilo de escrita, a carga sentimental a maneira que tu brinca com as palavras. Me identifiquei, espero ter a oportunidade de ler mais disso aqui.
    Amei!!!
    P.S. Adoro a música que inspirou o título.
    Beijos!!!!

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  17. Minha gente *---*
    Adorei o texto! Parabéns, você sabe escrever muito bem :D
    P.S.: Só eu que quando li o título da postagem li cantando "Pra Ser Sincero" ? o.O

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  18. Texto lindo, lindo, lindo! Muito emocionante. O primeiro conto que leio vindo de você, parabéns e continue escrevendo mais e mais haha. Abraços :)

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  19. Muito bom o conto =)
    Você tem um grande talento, escreve muito bem. Parabéns.

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  20. Esses contos ❤ amo demais. Lindo e cheio de sentimentos.

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  21. Que conto sensacional! Extremamente tocante.

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  22. Adorei o conto! Ana, você escreve muito bem, parabéns.

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