ALÉM


Um calor infernal. Quinze minutos caminhando ao sol, causou uma insolação terrível em Maria. Sua pele era tão branca, que qualquer coisa a maltratava. 

Sabia que o que estava prestes a fazer era em vão, sabia que sua ferida iria sangrar mais ainda, mas ela tinha que tentar. 

Subiu as escadas, que levavam ao apartamento de Jorge, de dois em dois degraus. Parou por um minuto para conferir quantas vezes havia tentado ligar antes de vir, e pensou em simplesmente voltar para casa e ler mais um romance melodramático da sua pilha de livros, que nunca diminuía.

Não conseguiu. 

O corredor continuava com cheiro de urina e pelo de cachorro sujo. Deu três batidas fortes na última porta e ficou esperando. Ela conseguia ouvir o som abafado de uma banda de rock progressivo e alguma coisa fritando – ou queimando – no fogão velho. 

Bateu mais três vezes e ouviu passos pesados no piso de madeira. 

– Eu te disse para não voltar aqui. O que quer? – pergunto, seco, assim que abriu a porta. O apartamento exalava um forte cheiro de pizza velha e desinfetante barato. 

– Eu só queria te entender, Jorge. Saber o por quê de não estarmos juntos nesse exato momento. Você simplesmente foi embora sem deixar nenhuma explicação concreta... 

– Você sabe muito bem que nós somos um caso perdido. Tem gente saindo quebrada dessa história, Maria, você sabe por quê. 

– Vai dizer que seu pai, que nem liga para você, é um motivo concreto? Você tem certeza? Ele sempre esteve ao seu lado mesmo? Que eu me lembre, quando Catarina morreu, você veio choramingar sua perda no meu colo! Onde estava seu pai naquela hora, Jorge? Onde? Diz! 

– Não envolva minha mãe nessa merda. E não me faça escolher entre minha família e você. Eu não tenho paciência para isso, e você não tem esse poder. 

– Tenho certeza que você já fez sua escolha – Maria se virou e saiu correndo, as lágrimas brotando nos cantos dos olhos castanhos meio mortos. 

Jorge a alcança a tempo de vê-la tropeçar em seu próprio vestido longo florido e rolar os três lances de escada, que ela havia subido com tanta ansiedade minutos antes. Ouviu-se um baque semelhante a um tiro de canhão quando a cabeça de Maria atingiu o chão e fez uma poça de sangue ao seu redor. Jorge pegou a menina e a abraçou enquanto a multidão se aglomerava. 

Ao longe, podia-se ouvir a sirene avisando a todos que aquele amor, antes tão bonito, tinha acabado. E dessa vez, não teria volta.

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Ana Clara

Nasci em uma cidade do interior de Minas Gerais, chamada São Domingos do Prata. Já rodei todos os cantos do estado, até que surgiu a oportunidade de eu vir estudar em Diamantina. Amante de livros desde pequena - devo agradecer à minha mãe por isso -, sonho em ter uma biblioteca pessoal.

18 COMENTÁRIOS

  1. Nossa Ana que lindo!
    Triste, profundo e reflexivo tbm...Essas escolhas erradas da vida, quem nunca né!
    Ameeeei!
    Bjs!

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  2. Ana vc se garante!!
    o texto está lindo!
    coitado do jorge e da maria, mas é bom para lembrar que as vezes tudo acaba em um piscar de olhos

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  3. Muito bom seu conto: rápido, mas com boa profundidade. Inspirado no cotidiano comum e reflexivo a respeito das escolha que fazemos. Parabéns!

    Ah, só uma dica. Quando você diz "Sabe o por quê", o certo seria "porquê", pois ele se torna substantivado devido ao artigo.

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  4. Gente que perfeito! Seus contos sempre arrasam aqui no blog! Tão pequeno e tão profundo <3

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  5. Olá.
    Um conto intenso, profundo e reflexivo. Parabéns, seus contos sempre muito bons. E que venham muitos outros. Beijos.

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  6. Oii Ana! Nossa que texto dramático,tão trágico o final, que fiquei até triste :/ mas é como as nossas vidas mesmo sempre tomando rumos que não podemos mudar!!

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  7. Que final triste! =(
    Contos assim deveriam virar livro por ser profundo e reflexivo.

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  8. Gostei, um conto de maneira rápida e leve (sim achei leve mesmo com a temática do último adeus não dado), senti um pouco de tristeza ao fim do texto e fiquei curiosa quanto aos personagens e sua trama anteriormente dessa cena.

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  9. Que conto triste, fiquei querendo mais.
    apesar de ser um conto rápido é muito profundo, amei.

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  10. Ana... Que conto maravilhoso <3 foi um dos melhores que já li ❤ nem chorei, só tremi.
    Cupcakeland

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  11. Nossa... Ana, que triste e reflexivo. Um dos melhores contos que eu já li.

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  12. Que conto lindo! Bem rápido, mas muito tocante, algo que nos faz parar para refletir. Adorei ☺

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  13. Uau! Triste mas mostra bem a realidade. Adorei!
    Estou amando o Blog!

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  14. Caramba, que triste! Tudo isso pra chegar no fim e cair da escada e pronto, acabou de vez? De onde veio essa inspiração tão mórbida?! Ai, que triste =/

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  15. Oi!
    Que final triste, fiquei doida para saber como iria acabar mas não estava esperando esse final, mas gostei muito dessa historia !!

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  16. Nossa, que final surpreendente, eu esperaria tudo menos isso. Gostei bastante do conto e você deveria se aprofundar nele, talvez um conto maior ou até mesmo um livro. Parabéns pela escrita.

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  17. Ai gente, credo, pq a menina teve que morrer? Fiquei me sentindo muito chateada :(

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