JUSTIÇA COMO ELA É


Aquela não era uma noite de sexta-feira qualquer. Era a primeira noite em que Gustavo saia com Priscila. Ficou na cola da mulata por mais de um mês, paquerando, tentando convencê-la a lhe dar uma chance. Finalmente havia conseguido. Junto com seus três amigos, Elton, Fabiano e Benito, buscou Priscila na casa dela às nove horas de noite e saíram para a balada.

O show de funk da comunidade só iria começar depois das onze horas da noite, assim, tinham tempo para beber alguma coisa antes. No caminho, tinha um posto de combustível, daqueles que possuem lojinha de conveniência, onde vende de tudo, inclusive bebidas alcoólicas. O problema era que todos eram menores de 18 anos. Gustavo e Elton tinham 17 anos. Priscila, 16 anos. Fabiano e Benito tinham 15 anos. Elton era o que parecia ser mais velho. Sua pele era a mais escura, e o corte de cabelo curto, junto com uma barba bem rala, ajudavam nessa aparência. Resolveram deixá-lo tentar.

Os quatro ficaram do outro lado da rua, enquanto Elton entrava na lojinha, pegava duas garrafas de vodca e seguia para o caixa. Não demorou muito para sair de mãos livres. Quando chegou perto dos amigos, todos riram pelo fiasco.

Estavam quase desistindo, quando viram um casal jovem parar o carro na entrada da loja e descer. O rapaz foi até o freezer e pegou uma caixa com 6 garrafas de cerveja, enquanto a garota comprava um pacote de batatas fritas.

Gustavo decidiu arriscar. Beijou Priscila de surpresa e atravessou a rua, correndo. Esperou o casal sair e acenou para o rapaz. Cumprimentou, tentando parecer o mais simpático possível, e pediu se ele poderia fazer o favor de compras as duas garrafas de vodca, mostrando várias notas de cinco e dez reais.

O rapaz olhou para Gustavo, depois para os amigos a turma do outro lado da rua. Deu de ombros e pegou o dinheiro. Deu meia-volta e entrou na loja. No mesmo instante, Priscila, Elton, Fabiano e Benito correram até Gustavo, dando-lhe tapinhas nas costas e passando a mão por seus cabelos crespos, penteados tipo afro.

Com as brincadeiras, não repararam em um homem já de idade, por volta dos 60 anos, que desceu do carro e os encarava desconfiado. Aguardava o frentista terminar de abastecer o veículo, mas não desviava os olhos dos garotos.

Quando o rapaz saiu da loja com as duas garrafas, os cinco amigos o rodearam, animados, pulando e rindo. Não tiveram tempo de comemorar muito. Pararam assim que ouviram uma voz forte atrás deles.

O homem que os observava ao longe, havia se aproximado de arma em punho e se identificou como policial. Mandou que se afastassem do rapaz. Em um primeiro momento, nenhum deles soube como reagir. O policial repetiu a ordem e balançou o revólver.

Gustavo foi o primeiro a se manifestar. Disse que pediram ao rapaz para comprar bebidas para eles, que haviam pagado, que não estavam roubando. O rapaz confirmou. O policial mandou que Gustavo calasse a boca, chamando-o de negro. Mandou que se encostassem na parede da loja, abrissem os braços e pernas.

Gustavo deu um passo na direção do policial e repetiu que não fizeram nada de errado. O homem pulou para a frente e agarrou Gustavo pelo pescoço, por trás, com o braço, empurrando o garoto para a parede.

Priscila gritou.

Os amigos tentaram afastar o policial de Gustavo.

O rapaz entrou no carro e partiu.

O policial levantou o revólver e disparou na direção de Elton, que era o mais alto e forte. A bala não o acertou. Todos se afastaram, assustados.

Na confusão, Gustavo apoiou um dos pés na parede e empurrou. O impulso fez com que desiquilibrasse o policial, e ambos caíram no chão, de costas. A arma escorregou da mão do policial.

Gustavo se levantou e pegou o revólver.

O policial pulou sobre ele. Com o choque, Gustavo apertou o gatilho.

No momento seguinte, o policial caiu morto no chão.

Gustavo, em choque, sentou-se no chão. Jogou a arma longe e começou a chorar. Priscila se sentou ao seu lado e o abraçou. Os outros três amigos fizeram o mesmo. Nenhum deles fugiu. Esperaram a polícia chegar. Junto com ela, vieram os repórteres.

A notícia que foi divulgada na mídia é que um policial aposentado foi morto quando tentou evitar que delinquentes assaltassem um rapaz quando este saia da loja do posto de combustível.

Gustavo foi levado para um centro correcional de menores. Apesar de não ter feito nada de errado, ele já estava acostumado com a verdade de que o que importa não é a palavra do inocente, mas as mentiras de quem pode mais.

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

26 COMENTÁRIOS

  1. Adorei o post, gosto bastante de posts neste estilo.
    Infelizmente a história de Gustavo se repeti muito a cada dia, e é que nem você falou na ultima frase, a justiça é muito injusta, ganha quem tem mais poder, infelizmente.

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  2. Depois de ler fiquei pensando quantos Gustavos existem por aí, infelizmente é a triste realidade dos nossos jovens :(

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  3. É lamentável saber o quanto esse texto está próximo da realidade. Quantas histórias iguais a essa se repetem... É uma pena. :/

    Gostei de como vc terminou o texto, Carlos. A frase de efeito casou perfeitamente. Parabéns!

    Jess, do blog A Rosa do Príncipe
    www.arosadoprincipe.blogspot.com.br

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  4. E então que a vida imita a arte, ou seria o contrário? Bem dizer isso não importa muito quando os fatos estão na cara de cada afro-amarelo-cáucaso homem jogado na marginalidade (ficam à margem), pelo sistema preconceituoso que gravaram em nossos olhos. É interesse de quem que sejamos iguais? Apenas e tão somente levantamos bandeiras de igualdade mas escondemos os nossos mais secretos pensamentos. E na maioria das vezes somos nós a condenar os milhões de Gustavos... Adorei o texto. Desculpe o meu derramamento de palavras.

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  5. Uaaal Carlos!
    Estou aqui imaginando a cena, que triste essa injustiça que mtas pessoas sofrem hj em dia...É lamentável dmais!
    Parabéns, excelente!

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  6. Olá Carlos!
    Apesar de triste e infelizmente condizer com a realidade atual, adorei a sua história. É lamentável saber que ainda hoje existem muitos Gustavos que são injustiçados por puro preconceito. Parabéns pelo post.

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  7. Oi Carlos.
    Infelizmente esse conto retrata a nossa realidade do dia-a-dia. Existem vários Gustavos que são injustiçados, rotulados como criminosos, devido preconceito e ignorância de algumas pessoas.
    Parabéns pelo post.

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  8. Achei muito interessante o texto.
    Infelizmente essa situação está muito próxima da nossa realidade.
    É uma grande tristeza.
    E deixo aqui o meu parabéns por esse post incrível.
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  9. Um texto incrível e que soube retratar o que infelizmente, é a realidade.
    Por mais triste que seja a história parabéns pelo post.

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  10. Wow!
    Infelizmente essa história é a realidade que se repeti a cada dia. Lamentável!

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  11. Essa história que você escreveu é muito interessante e, infelizmente, realista. O preconceito de muitos e, principalmente, dos que estão acima da lei é triste. Esse rotulamento vem desde a colonização, pois os europeus se consideravam melhores do que os africanos tanto que os escravizaram. E muitas vezes as pessoas, mesmo sem perceber, são preconceituosas por já ter esse pré-conceito embutido em suas mentes.

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  12. Oi.
    Parabéns pelo post e por essa história tão bem escrita. Infelizmente uma realidade que nos assombra e que parece não ter fim, já que a nossa justiça é tão precária e tão injusta. Muito triste. Mas de qualquer forma, você retratou muito bem, com suas palavras. Abraços.

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  13. Infelizmente, esse seu texto retrata da maneira mais fiel o preconceito enraizado no nosso Brasil!! Policiais tiram conclusões precipitadas ,julgando os menos favorecidos só pela cor da pele, é realmente triste isso, a sociedade atualmente enxerga issso e mesmo assim essa situação não muda, é sempre o rico ou o branco saindo em vantagem quando o outro é pobre e negro, muito errado tudo isso!!!

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  14. Esse texto só vem como mais uma reflexão do que ocorre dia após dia nas cidades, do extremo preconceito, dos rótulos impostos pela sociedade, o Brasil, um pais tão rico em diversidade, infelizmente vê essa diversidade com um certo desprezo, como ser humano e como negra esse texto que causa tristeza e vergonha, por ainda em pleno século XXI exista isso com pessoas negras e pobres.

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  15. Primeiro gostaria de dizer que essa foto de capa é a mais maravilhosa possível. Essa história é a realidade que se repeti a cada dia, e vive nos assombrando. Muito trsite

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  16. Oi tudo bem..
    Adorei o post,e sempre bom mostrar as pessoas que isso e um caso que acontece frequentemente,(infelizmente)e que temos que lembrar que o preconceito seja ele de qualquer tipo nao pode continuar e ser aceito..
    Parabens pelo texto..
    Um abraço e muito sucesso :)

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  17. Infelizmente é muito fácil encontrar casos parecidos como esse que você narrou. Dói meu coração saber que pessoas intolerantes como essas existem. Eu mesmo já pude sentir na pele o racismo que esse garoto e mais outros (vários) sofreram/sofrem. Agora... só esperar pra saber se um dia isso vai acabar!
    Gostei muito de como desenvolveu essa história, parabéns!

    Vinicius
    omeninoeolivro.blogspot.com.br

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  18. isso nos faz refletir sobre a real realidade vivida muitas vezes no brasil, que muitas vezes somos julgados pelo físico , eu acredito que Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra. muito bom esse texto

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  19. Oi :)
    Infelizmente é isso que acontece hoje em dia, gostei da sua abordagem. Parabéns.

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  20. Gostei do post, me fez refletir muito. Estava falando exatamente disso nestante, sobre a situação da desigualdade e da realidade precária do Brasil. Infelizmente esse tipo de situação ta sempre acontecendo.

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  21. Nossa, esse conto foi do caralho, não tenho outro adjetivo pra dar, adorei e infelizmente isso é uma realidade, até imaginei isso acontecendo e passando no jornal é muito triste que isso seja verdade. Faz mais histórias dessas, apesar de lamentavelmente realistas, fazem com que as pessoas no minimo reflitam sobre isso.

    Ana Carolina
    https://leitureira-filmeserie.blogspot.com.br/

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  22. É triste ler esse conto e saber que é verdade, que isso acontece. Que ainda há injustiça e preconceitos. Belo conto, faz a gente refletir e muito.
    Um beijo
    Paulinha S

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  23. Amei, simplesmente fico fascinada por posts igual esse, que nos fazem pensar na sociedade e na mídia, que é a mais preconceituosa e tenta a todo custo inventar fatos para uma matéria de sucesso

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  24. Caramba!!!! Não tenho palavras para definir o que eu senti ao ler seu conto.Essa é infelizmente um triste realidade cotidiana.Isso sem mencionar os jovens que sao baleados e mortos de forma injusta.

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  25. Um simples conto, para uma triste realidade.

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  26. Oi!
    Gostei muito da historia principalmente por trazer uma realidade que em hipótese nenhuma podia acontecer e alem disse como temos uma sociedade e principalmente uma mídia que quer sair na frente dando a noticia primeiro sem se interessar se o fato e realmente verdade !!

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