RONALDO WROBEL, AUTOR DE
O ROMANCE INACABADO DE SOFIA STERN


RONALDO WROBEL é natural do Rio de Janeiro e é um romancista, contista, cronista, roteirista e bacharel em direito pela PUC/RJ. Seu primeiro romance foi PROPÓSITOS AO ACASO, de 1998. Suas obras se destacam por serem, na maioria, tramas psicológicas e histórias de amor peculiares. A Ana Luiza leu seu último livro, O ROMANCE INACABADO DE SOFIA STERN, e a resenha pode ser lida clicando AQUI!

Agora, vamos conhecer mais do autor, nesta entrevista exclusiva para o GETTUB?

ENTREVISTA


ANA LUIZA: Como os livros influenciam a sua vida?

R. WROBEL: Adoro ler textos bem feitos. Me sinto feliz, estimulado a pensar mais e melhor. Presto atenção nas frases, nos personagens, na estruturação da história. Sou fascinado por boas narrativas. Cresci ouvindo histórias interessantes porque meus avós gostavam de falar do passado. Eles fugiram da Europa numa época conturbada, entre as grandes guerras do século passado. Comecei a gostar de livros na infância, com crônicas e contos de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade e Rubem Braga, numa coleção chamada "Para Gostar de Ler". Não havia internet naquela época, só telefone e televisão (com 4 canais), e os livros me transportavam para outras realidades. Eu era apaixonado por minha Enciclopédia Mirador. Gostava de folhear aqueles fascículos imensos e passear por temas aleatórios como a capital da Bulgária ou o Teorema de Pitágoras. Os romances vieram na adolescência. Não esqueço o fascínio quando li "O Amor nos Tempos do Cólera", de Gabriel Garcia Marquez. Como podia haver algo tão bem escrito? Reli este romance outro dia e revivi o encanto de 30 anos atrás: é um trabalho extraordinariamente bem escrito, embriagante de tão lindo.

ANA LU: Todo mundo tem um lugar especial de leitura. Qual o seu?

R. WROBEL: Gosto de ler na sala de minha casa, atirado num pufe, com meu computador à mão, uma garrafa de água e biscoitos na cabeceira. Também gosto de fazer anotações nos livros e sublinhar frases ou trechos interessantes. Prefiro ler à tarde ou à noite, num ambiente silencioso e bem iluminado. Sou um leitor vagaroso. Gosto de apreciar cada frase e interromper a leitura para pensar em coisas relacionadas ao texto. Costumo dialogar com os livros, reler trechos, pensar em soluções alternativas para aquele capítulo ou simplesmente soltar a imaginação. Por exemplo, estou lendo um livro que se passa no interior dos Estados Unidos, no estado de Missouri. Parei a leitura para acessar a internet e ver vídeos sobre o local onde se passa a história. Preciso de paz e silêncio para embarcar nessas longas jornadas.

ANA LU: Escrever algo mexe bastante com o nosso emocional. Qual foi, ou quais foram as sensações que você teve ao terminar de escrever?

R. WROBEL: Terminar de escrever um romance traz um misto de alegria e tristeza. Muitos leitores não percebem como é desafiador escrever um romance. Trata-se de uma travessia longa e solitária, cheia de angústias e incertezas. Apenas você conhece o texto por inteiro, inclusive aquilo que deixou de escrever - e o porquê de não tê-lo escrito. Haja tempo, persistência, disciplina e coragem. Sim, coragem! Coragem de embarcar numa jornada capaz de levá-lo da euforia ao desespero (ou vice-versa) na fração de um segundo. Suas alegrias e tristezas estão atreladas a um mundo imaginário que ninguém ou quase ninguém conhece. As soluções dependem de você, por mais que lhe dê bons conselhos. Durante a escrita de "O Romance Inacabado de Sofia Stern", minha maior alegria era encontrar boas soluções para problemas que iam surgindo pelo caminho. Eu ficava simplesmente eufórico. Se a solução não funcionasse, lá vinha a aflição, a ansiedade, um sentimento de frustração que os outros não levavam a sério ou sequer podiam (e queriam) entender. Cheguei a desistir desse livro algumas vezes porque não sabia o que escrever na página seguinte. Meu grande sonho era chegar ao ponto final. E, no entanto, bate uma tristeza estranha quando você chega lá. De repente, aquele mundo não é mais seu. É dos leitores. Aqueles personagens, lugares e situações que você lutou para criar vão-se embora, como filhos crescidos que se mudam de casa. Eles não precisam mais de você porque pertencem ao mundo real. Um dia, o livro é lançado e leitores vêm conversar sobre questões que, até outro dia, você enfrentava como segredos íntimos. Claro que você fica feliz e realizado, principalmente se as pessoas gostam de seu texto. Mas também fica triste e meio desorientado. E agora? É estranho viver sem um livro para escrever.

ANA LU: Com qual personagem dos seus livros você mais se identifica? Por quê?

R. WROBEL: "O Romance Inacabado de Sofia Stern" tem um protagonista chamado Ronaldo. Resolvi lhe dar o meu nome porque sempre me perguntava o que faria no lugar do personagem enquanto escrevia a história. O Ronaldo do romance sou eu, porém em situações imaginárias. Na verdade, me identifico com todos os personagens. Todo o autor fala de si mesmo através de seus textos. Todo texto é uma espécie de confissão. "Traduzindo Hannah", meu penúltimo romance, é praticamente uma autobiografia disfarçada. Minha história de vida está ali, com figuras de linguagem e situações fantasiosas. Os personagens são apenas meus porta-vozes.

ANA LU: Para você, qual a importância da valorização dos livros (sejam eles nacionais ou não)?

R. WROBEL: Livros transmitem conhecimento e podem sensibilizar o leitor de um modo muito particular. Televisão, internet, cinema, jornal, revistas são veículos interessantes, mas quase sempre oferecem distrações e entretenimentos passageiros. O bom livro estabelece uma relação íntima e contínua com o leitor. Esse processo gera reflexões, transmite informações, desperta curiosidades e sensações que podem enriquecer o leitor. A valorização dos livros está diretamente associada ao desenvolvimento da inteligência, da sabedoria, da sensibilidade e da criatividade.


ANA LU: Como você definiria o inicio da sua carreira como escritor?

R. WROBEL: Eu não pretendia ser escritor na juventude. Queria ser arquiteto, desenhar casas e prédios. Depois, quis psicólogo para entender a alma humana. Enfim, decidi ser advogado. Cheguei a cursar arquitetura e psicologia antes de me matricular no curso de Direito. Enquanto isso, ia escrevendo textos pessoais, sem pretensões profissionais. Na verdade, meu hábito de escrever começou de modo solitário: mantendo diários. Não eram diários convencionais com as tarefas do dia e coisas do tipo, mas diários com reflexões, esperanças, angústias, coisas que eu não costumava falar com os outros. Mantive diários dos 14 aos 21 anos. Foi assim que desenvolvi minha escrita e aprendi a organizar as ideias, sempre buscando a palavra certa, a forma certa de exprimi-las. Eu já gostava de escrever contos desde a infância, mas só me aventurei a escrever um romance a partir dos 23 anos. Era apenas uma distração, um lazer de fim de semana. Levei três anos escrevendo. Quando mostrei o trabalho final a um amigo, ele disse que eu deveria publicá-lo. Achei estranho, mas gostei da ideia. Alguns anos se passaram até o lançamento, em 1998, pela editora Nova Fronteira. Chama-se "Propósitos do Acaso" e foi lançado quando completei 30 anos.

ANA LU: Como você definiria, com até duas características seus personagens? (pode ser duas palavras por personagens)

R. WROBEL: Personagens de "O Romance Inacabado de Sofia Stern": Sofia Stern - madura e corajosa. Klara Hansen - ingênua e passional. Hugo Hansen - irreverente e impetuoso. Ronaldo - ambicioso e inseguro.

ANA LU: Você acredita que o mundo, ou uma parte dele, pode ser transformado pelo o que você escreve?

R. WROBEL: Não tenho a pretensão de transformar o mundo. Me contento em proporcionar bons momentos para meus leitores. Gosto de diverti-los, de inspirá-los, de emocioná-los, de surpreendê-los. Fico feliz e realizado quando alguém me procura para conversar sobre meus livros. O entusiasmo de um leitor não tem preço, mesmo quando ele faz ressalvas. Não existe livro perfeito, mas existe a reação perfeita aos livros, que é uma leitura atenta. Pode-se dizer que você transforma o mundo quando transforma leitores, e meu intuito é transmitir coisas boas e bem feitas.

ANA LU: Quem foi a pessoa que mais te influenciou a começar a escrever?

R. WROBEL: Várias pessoas, mas posso citar Vera, minha mãe, como a primeira e grande incentivadora à minha atividade de escritor. Desde cedo ela me ensinou a amar não apenas os livros, mas a arte em geral. Eu e ela tocamos piano e adoramos música. Em minha infância ela fazia questão de ler e comentar minhas redações escolares, apontando erros e dando sugestões, além de oferecer leituras que me apresentaram ao prazer de ler.

JOGO RÁPIDO

LIVRO FAVORITO: A Louca da Casa, de Rosa Montero, um livraço que fala (entre outras coisas) sobre os desafios de um escritor
AUTOR FAVORITO: o italiano Primo Levi
HOBBIE: Passear com meus cachorros (tenho cinco)
UMA MÚSICA: Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil
FRASE FAVORITA: Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer pouco. Edmund Burke.
UMA PALAVRA QUE LHE DEFINE: Perseverante
UM ARTISTA: Marília Pera
MELHOR LUGAR: Teresópolis (RJ)
UM FILME: O Show de Truman (1998)

ANA LU: Deixe um recadinho para os leitores.

R. WROBEL: O que deve ser feito, deve ser bem feito. Nada é fácil. Escolha um objetivo e lute por ele com persistência e bom senso. Se achar que seu caminho não é aquele, tente outro. Muita gente disse que eu nunca conseguiria ser escritor. Não desisti. Me tornei advogado, mas não desisti da literatura. Era uma questão de realização pessoal. Enquanto eu escrevia "Traduzindo Hannah" (lançado em 2010), alguns amigos e parentes diziam que eu estava perdendo tempo. Hoje, "Traduzindo Hannah" está publicado em sete países estrangeiros e "O Romance Inacabado de Sofia Stern" (lançado em junho de 2016) será lançado em Portugal, França e Itália.

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Carlos H. Barros

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

14 COMENTÁRIOS

  1. Oii Carlos! Agora mais q nunca qro conhecer essa obra! Parabéns pela entrevista Ana!
    Excelente!

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  2. OOi! Acho muito importante conhecermos a história dos autores de nossos livros preferidos, acho muito importante, porque os detalhes da vida deles causa um efeito impactante em seus livros!!! Valeu pela entrevista!!!

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  3. Olá!
    Muito legal a entrevista. Me identifiquei com ele na hora de ler, sempre viajo além quando estou lendo e as vezes preciso parar e pesquisar algo sobre o lugar, ou coisa que eu esteja lendo. E parabéns a ele pelo livro que ainda não li, mas já considero muito, aliás quero muito ler hahaha

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  4. Nossa, simplesmente amei essa entrevista. Cada resposta do autor é fenomenal, o jeito que ele expressa me encantou.
    Nunca pensei que iria chorar lendo uma entrevista de blog rsr'. Amei amei amei.

    Cupcakeland

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  5. Se ele se expressar tão bem nos livros quanto nessa entrevista, eu já virei fã antes mesmo de ler. ❤
    Eu super me indetifiquei em alguns pontos. Pois ele falou sobre como é difícil iniciar uma história, e finalizar. E eu super me comparei com ele nesses momentos. ❤

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  6. Gostei bastante das respostas dele, são tão completas e profundas. Adorei a entrevista e depois de lê-la eu fiquei com mais vontade de conhecer a obra dele.
    Beijos.

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  7. Gostei bastante da entrevista. Já tinha visto a obra dele em muitos lugares, mas nunca tinha lido uma resenha. Acho que vou querer conhecer mais sobre ele!

    Beijos

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  8. Não conhecia o autor. Já fiquei com vontade de ler tudo o que ele escreveu hahahahaha amei essa entrevista. O cara filosofa sem querer filosofar.
    A propósito, que capa maravilhosa é essa?? Quero!

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  9. eu adoro entrevistas com autores!
    e essa não foi diferente. ele me fez lembrar de voltar a ler nacionais =)
    faz tempo que eu não leio nada do fernando sabino
    nooosssa cinco cachorros!! (se bem q eu não posso falar muito já tive sete de uma vez...)
    já gostei do ronaldo ^^

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  10. Amei a entrevista e principalmente quando ele disse que seu objetivo não é transformar o mundo, e sim divertir os leitores, isso sobre romances serem difíceis de escrever é verdade, a partir de agora irei ler livros do gênero com outro olhar, adorei o que ele disse sobre a valorização da leitura, aumentou minha vontade de ler o livro de sua autoria

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  11. Nossa, adorei e entrevista. Ele tem opiniões super interessantes. E a parte que destacou foi onde ele disse "O que deve ser feito, deve ser bem feito." concordo plenamente com ele! Esse livro deve ser espetacular diante da opinião dele. Fiquei com vontade de ler. Beijos.

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  12. Oii Carlos e Ana Lu!
    Gente, se eu já tinha gostado do autor ao ler a resenha de "O Romance Inacabado (...)" agora gostei ainda mais!
    Adorei conhecer um pouco mais suas opiniões, principalmente sobre a importância da valorização dos livros (Temos que valorizar mais a literatura nacional!)! A entrevista ficou maravilhosa, completa e bem informativa, parabéns!

    Beijos,
    Ana | Blog Entre Páginas
    www.entrepaginas.com.br
    Participe do SORTEIO DE 1 ANO do Blog!

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  13. Ola, parabéns pela entrevista, adorei! Beijos.

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  14. Caramba que entrevista legal! Gostei muito e me identifiquei com o autor em alguns aspectos.

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