ESCONDIDO


    Naquela quarta-feira ensolarada, mas fria, dia típico de inverno, Gabi sentia seu coração querer pular do peito. Não conseguiu prestar atenção em nenhuma das cinco aulas matutinas, e mal tocou o sinal de saída, reuniu seu material e correu para casa. Não sentia vontade de almoçar, de tamanha ansiedade, mas, mesmo assim, deu algumas garfadas, apenas para evitar as perguntas de sua mãe sobre o motivo da perda de apetite.

    Após lavar a louça e deixar a cozinha levemente arrumada, entrou no seu quarto, trocou o uniforme escolar por uma blusa, um casaquinho malhado e uma calça jeans, prendeu o cabelo comprido em um rabo de cavalo com franja e esperou. Como todos os dias da semana, sua mãe saía às duas horas da tarde para começar a trabalhar na mercearia do bairro vizinho, e só voltava depois das dez horas da noite. Seu pai faleceu quando ela tinha cinco anos de idade, e hoje, aos dezesseis anos, sem irmãos, ela possuía toda a liberdade que suas atitudes responsáveis permitiam.

    Assim que sua mãe bateu a porta da casa, Gabi voltou para a cozinha e retirou de dentro do forno um prato de comida. Colocou um outro prato por cima e amarrou com um pano de secar as mãos.     Guardou dentro de uma sacola. Saiu e seguiu andando por cinco quarteirões, até chegar em uma casa simples, apenas com reboco do lado de fora, sem nenhuma parte pintada, e de grades de ferro velhas e tortas. Abriu o portão destrancado e entrou sem cerimônia.
    
    No interior, nenhum móvel. Nem na sala, nem na cozinha. A única exceção era um dos três quartos, onde havia apenas um colchão no chão, encostado na parede oposta à janela sem cortinas, onde existiam três pequenos vasos de plantas. Em cima do colchão, além de um violão, um travesseiro e alguns livros, dormia um garoto de cabelos lisos, curtos, repicados, rosto e nariz finos, vestido com uma camiseta, coberto até a cintura por uma manta xadrez.

    Gabi deixou a sacola no chão, perto do colchão, tirou os tênis, o casaco e ajoelhou-se ao lado do garoto. Esticou a mão para acordá-lo, mas hesitou. Mudou de ideia. Curvou-se e, suavemente, encostou os lábios sem batom sobre os lábios dele.

    – Gabi? – perguntou o garoto, atordoado pelo sono, assim que se sentiu ser beijado.

    – Oi, Rafa! – cumprimentou ela, abrindo um sorriso.

    Ele se sentou sem pressa, deixando as pernas afastadas, e puxou Gabi para o meio delas, fazendo com que a menina se aconchegasse no seu tronco. Ela ficou com a cabeça encostada no ombro dele, levemente inclinada para cima, deixando o nariz arrebitado encostar no queixo dele.

    Gabi fechou os olhos, ouvindo e sentindo a respiração de Rafa afastar seus cabelos. Naquele dia, ele fazia dezoito anos de idade. Por isso ela se sentia tão ansiosa, tão feliz. Mas não era apenas por ser aniversário do garoto que amava, mas, também, porque ele não precisaria mais se esconder do namorado da mãe, com medo que o levasse de volta.

    Rafa nunca conheceu o pai e, um ano atrás, sua mãe começou a namorar um traficante. Dois meses após se mudar para dentro de casa, o homem deu uma escolha para Rafa: ele tinha que começar a trabalhar de entregador ou levaria uma surra todas as noites até mudar de ideia. Rafa pegou seu violão, juntou as poucas roupas que tinha e fugiu.

    Ele já namorava Gabi há quatro meses. Estudavam na mesma escola. Foi Gabi quem descobriu a casa onde Rafa morava agora. Pertencia a uma velhinha que se mudou para o interior, para perto dos parentes. Como não tinha nenhuma placa de aluga-se, decidiram arriscar. Todos os dias, após a mãe sair para o trabalho, Gabi levava comida para Rafa. Passavam a tarde juntos, estudando, lendo, namorando. Quando anoitecia, Gabi corria na padaria, comprava algum lanche e deixava com Rafa antes de voltar para casa.

    Ele não podia estudar ou sair para procurar emprego, porque era menor de idade e o traficante continuava à sua procura. Os únicos passeios que dava, eram nos fins de semana, de tarde, quando o bairro ficava silencioso, e eles podiam arriscar pegar um ônibus e irem para longe, onde ninguém os conhecia.

    Gabi não se importava de viver daquela forma. Olhar para ele, sentir ele por perto, era suficiente para não desejar mais nada.

    – Está com fome? – perguntou ela, sem se mover ou abrir os olhos. – Trouxe seu almoço. Ainda deve estar morno.

    – Um pouco. Mas não quero me mexer – respondeu ele, com o olhar fixo em nada.

    – Por quê?

    – Porque se me mexer... você sai dos meus braços.

    – Bobo! – xingou ela, sorrindo. – Come primeiro, depois volto para eles.

    – Não quero arriscar. Vai que você foge.

    – Senhor Rafael, não quero que fique magrinho a ponto de não conseguir me segurar.

    – Nunca vou ser fraco a ponto de não segurar você.

    – Mas tem que ser forte o suficiente para conseguir trabalhar a noite toda.

    – Eu sou.

    E com essa resposta, ele levantou o queixo de Gabi com a mão que não segurava as pernas dela e beijou-a na boca. Apenas nos lábios, sem encostarem as línguas, esfregando suavemente, sem força, fazendo a sensibilidade do toque aumentar a expectativa e o desejo que já possuíam um pelo outro. 

    – Hoje você faz dezoito – sussurrou Gabi entre o beijo.

    – Eu sei – disse Rafa, sorrindo, também sem interromper o beijo.
    
    – Como vou aguentar ficar sem você? – perguntou ela, desta vez se afastando um pouco, mas não o suficiente para deixar de sentir o perfume da pele dele.
    
    – Eu venho todo mês ver você, Gabi – respondeu ele, sério. – Sabe disso, não sabe?

    – Aham... – concordou ela, disfarçando o início de uma expressão de tristeza.

    – Agora que posso viajar, pegar novos documentos, eu vou arrumar um trabalho na cidade vizinha e a gente continua se encontrando aqui. Sabe que não posso continuar vivendo assim, não é?

    – Eu sei, Rafa... eu sei. Só tenho medo que...

    – Que nada, que nada... – interrompeu ele, abraçando Gabi. – Meu coração é seu.

    – E o meu é seu.

    Gabi se afastou mais um pouco e fitou os olhos dele por alguns segundos.

    – O que foi? – perguntou Rafa, curioso. – O que aprontou?

    – Quero dar o seu presente.

    – Comprou algo para mim? Doida! Combinamos que iríamos economizar para...

    Ela colocou o dedo nos lábios dele, fazendo-o silenciar.

    – Seu presente não custa dinheiro – avisou ela, sorrindo. – Quer dizer, apenas tive que comprar o embrulho. Mas é baratinho.

    Abrindo mais o sorriso, Gabi tirou do bolso da frente da calça um pequeno saquinho. Rafa arregalou os olhos, surpreso, e ficou de boca aberta.

    – Meu presente é um pacote de preservativos? – perguntou, rindo.

    – Não, seu tonto! Seu presente sou eu! – respondeu ela, dando um tapa de leve no peito dele.

    – Tem certeza? Sabe que podemos esperar eu ter dinheiro para levar você...

    Novamente, ela o interrompeu, não com o dedo nos lábios dele, mas com seus próprios lábios. O empurrou para trás, de forma que ele caiu de costas sobre o colchão, e se deitou sobre o corpo dele. Voltou a beijá-lo, agora com mais urgência.

    A respiração dos dois mudou. Ficou forte, mais rápida. Puxavam ar por entre o beijo, sem deixarem os lábios se afastarem. Puxou a blusa dele para cima até despi-lo, enquanto ele fazia o mesmo com a dela. Jogou a manta para o lado, deixando ele apenas de cueca, e despiu as calças, ficando de calcinha.

    Os dois se sentaram com as pernas enroscadas na cintura, ele a segurando pelas costas, ela abraçando o pescoço dele. Ele subiu as mãos e soltou o sutiã dela. Gabi sorriu pela expressão do rosto dele. Uma contradição de inocência com desejo. Ela fechou os olhos, sentindo o corpo tremer. Sua pele arrepiou. Os dois se entregaram. Plenamente.

      A percepção do tempo mudou. O que para eles pareceu minutos, na verdade foram horas. Abraçados, um de frente para o outro, se encaravam em silêncio. Pareciam assustados. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

    – Você... está tudo bem? – perguntou Rafa, finalmente, após algum tempo.

    – Aham – respondeu Gabi, séria.

    – Eu... machuquei você?

    – Não... não! – respondeu ela, preocupada com a ideia errada dele. – Eu achei que... meu Deus, Rafa, achei que ia morrer. Eu nunca... nunca...

    Ele sorriu e a beijou.

    – Sabe o quanto me fez feliz? – perguntou, sem afastar os lábios.

    – Menos do que você me fez feliz.

    – Duvido.

    – Não teima, Sr. Rafael.

    – Senhor? Senhor? Só porque tenho dezoito anos agora, já sou velho para você? – perguntou ele, apertando a cintura dela, a ponto de fazê-la gritar de cócegas.

    – Muito velho – respondeu ela, rindo e empurrando as mãos dele. – Por isso, cuidado, que agora que experimentei, quero fazer todos os dias, toda hora que estivermos juntos. Vou acabar com você, Sr. Rafael.

    – Então vamos ver quem acaba com quem – ameaçou ele, puxando a manta mais para cima, até cobrir os dois totalmente.

    Mais tarde, quando começou a escurecer, Gabi voltou para casa. Não conseguiu desfazer o sorriso quando sua mãe chegou, mas ela não lhe fez nenhuma pergunta. Apenas estranhou a felicidade da filha.

    Na semana seguinte, Rafa foi embora. Gabi tentou não chorar, mas não conseguiu ser assim tão forte. Confiava nele, sabia que ele voltaria para buscá-la, que o afastamento seria breve. Mas não imaginou que fosse tão breve.

    Poucos dias depois, Gabi leu no jornal da cidade que o namorado da mãe de Rafa havia sido emboscado pela polícia em uma batida para apreensão de drogas. Ele resistiu à prisão e foi morto na troca de tiros. Chorando, não de tristeza, mas de felicidade, ela ligou para Rafa e contou tudo. Uma semana depois, quando Rafa voltou para a cidade, Gabi o esperava no ponto de ônibus.

Os dois se beijaram e abraçaram, com a certeza de que nunca mais se separariam.

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Carlos H. Barros

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

12 COMENTÁRIOS

  1. Carambaaaaa, adoreiiii, preciso, não, necessito de mais :o
    Muito bom.
    Parabéns.
    Bjs

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  2. Não sei o que dizer,
    um turbilhão de sentimentos... você escreve muito bem. As palavras usadas são eróticas, mas não vulgares!
    Quero outros contos pra já!

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  3. Caramba ❤ que coisa linda, ousada mas linda. Quero mais contos.

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  4. Nossa, que história emocionante...eu quero ler esse livro.
    Amei demais essa resenha e principalmente como a história se desenvolve.
    Abraços.

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    1. Não é livro... não é resenha... o.O

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  5. Oi Carlos!
    Nossa eu adoro os contos aqui do blog, acho até que vocês podiam reuni-los em um livro... ia fazer muito sucesso. Parabéns, adorei <3
    Beijos

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  6. Carlos eu gostei muito da história/conto e percebo que você gosta de personagens que fogem por algum motivo. Você já teve vontade de fugir? hihihi, me disseram que toda história que escrevemos carrega mais de nós que podemos imaginar. Acho que se mais desenvolvida daria um bom livro.

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  7. Carlos! Arrasou!
    Conto mais lindo q eu já li...Que história!!
    Parabéns!!!
    Traga-nos mais!!!
    Bjs!

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  8. Caracaaa.. que trecho incrível!
    Vou adicionar à minha biblioteca virtual agora mesmo.
    Assim que terminar o livro que estou lendo, começo esse. Quero ver o desenrolar da história 😍😍

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    1. Pera... É um conto? Achei que fosse um livro e vc pegou um trecho. Sou nova por aqui.
      Caramba... que lindo.

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  9. Oi, Carlos.
    Parabéns pela construção magnifica, desse conto.
    Gostei muito e espero ver mais da sua escrita, por aqui.
    Obrigada por compartilhar. Abraços.

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  10. Nossa, muito bonita essa história e bem escrita. Dá pra imaginar acontecendo e até sentir o que eles sentem ^^
    E amo um final feliz, então já fiquei com um sorriso no rosto aqui. Ounn *-*

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