JANTAR SECRETO


SINOPSE: Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles - Raphael MONTES - Editora CIA DAS LETRAS - 2016 - 360 páginas.

Há duas formas de encarar JANTAR SECRETO: a primeira, e mais óbvia, seria um misto de drama e horror, onde um grupo de jovens, vindos do interior do Paraná, fracassam na tentativa de construir uma vida profissional de sucesso no Rio de Janeiro, e encontram a solução de seus problemas na organização de jantares milionários, onde servem carne humana. Por esse pequeno enredo, fica evidente o quanto a narrativa pode ser pesada e degradante. Entretanto, seguindo por esse caminho, o livro fracassa miseravelmente.


A segunda forma de encarar JANTAR SECRETO, é classificar a história de humor negro, onde o absurdo das situações faz rir. Por esse outro caminho, o livro agrada e atinge o objetivo de entreter, o que, talvez, não tenha sido o proposto originalmente pelo autor.

Quando se escreve uma história, o autor precisa tomar cuidado com diversas coisas. Entre elas, transformar o que conta em algo verossímil, algo que o leitor compra e acredita, mesmo que os personagens sejam anjos, vampiros, monstros, ou, neste caso, jovens que propagam o canibalismo como forma de ganhar dinheiro.


Ao iniciar a leitura de JANTAR SECRETO, o leitor começa acreditando que algo irá acontecer, mas já nas primeiras páginas, quando o motivo do canibalismo é apresentado, começa uma trajetória de absurdos, que vão crescendo em quantidade e intensidade, que não convencem, não só pelos furos do roteiro, como pelas motivações.

Nesse ponto, a obra não desaba apenas por um motivo: o humor empregado acidentalmente nos pensamentos e ações de todos os personagens. Digo acidentalmente, porque, pelo minha ótica, o autor não teve essa intensão, uma vez que, por diversas vezes, ele coloca Dante, o personagem principal e narrador, a dizer que o que está contando é sério, que o que eles estão fazendo, poderia ser feito por qualquer um de nós nas mesmas situações, que as coisas que eles perpetuam é horrendo e que não é passível de perdão. O que penso é que, ao escrever, o autor percebeu o quanto as situações criadas eram desprovidas de causa, que era necessário implorar para o leitor acreditar que elas poderiam, realmente, acontecer.


Sinto muito, mas não. Ninguém em perfeita saúde mental, ou mesmo nem tanta, apenas por uma dívida de aluguel, que pode ser paga com o dinheiro da mãe de um deles, torna-se assassino e comedor de pessoas. Inclusive, o autor, ainda pela voz de Dante, afirma que as pessoas loucas são menos perigosas que as normais, uma vez que são estas últimas quem, normalmente, perpetuam as maldades. Novamente, sinto discordar. A partir do momento que uma pessoa executa um ato de maldade sem causa, ela tem uma psicopatia e, portanto, não é normal.

Então, o que nos resta, é acompanhar o desenrolar dos acontecimentos e rir dos absurdos que vão sendo apresentados, como a prostituta que se mostra extremamente competente em decepar membros humanos, suando uma motosserra amarela com adesivos, o cozinheiro que usa esses membros como se fossem iguarias, o administrador que recebe os convidados com um sorriso no rosto, mesmo sabendo que as pessoas estão sendo assassinadas, e o especialista em informática, que consegue invadir quase qualquer computador, menos uma conta do Instagram, quando uma foto do jantar vaza.


Encarando dessa forma, como uma comédia recheada com partes humanas e regada com sangue, a leitura é prazerosa e divertida, principalmente pelo total declínio de caráter dos personagens principais: Dante é gay, passa todo o livro lamentando sua vida desgraçada, sua incapacidade de impedir os jantares e o desmoronamento da amizade com seus amigos, além de criar um romance, justamente, com o marido de uma das pessoas que foram servidas no jantar; Hugo almeja ser um cozinheiro famoso, criador de iguarias difíceis de reproduzir, o que, de certa forma consegue; Miguel torna-se médico e, da mesma forma que Dante, passa todo o livro chorando e dizendo que não quer participar daquele negócio horrendo, mas sempre acaba se envolvendo; Leitão é o hacker, cujo conhecimento de informática é tão extenso quando a necessidade do enredo, isto é, ele vai de um burro total a um gênio nos computadores; e, finalmente, a personagem mais interessante e engraçada, que é Cora, a prostitua que Dante, Miguel e Hugo contratam como presente de aniversário de Leitão, e que se torna peça fundamental de todo o enredo.


Inclusive, Cora é a protagonista de algumas tiradas que o autor dispara a diversos segmentos. Ela escreve poesias e frases de efeito, porque seu sonho é escrever e publicar um livro. Essas frases são mencionadas por Dante em toda a narrativa, e sempre estão associadas a algo que aconteceu, ou que está prestes a acontecer. Em determinado momento, lá para o meio do livro, Dante precisa encontrar uma forma de lavar o dinheiro que os cinco ganham. A forma que ele encontra, é publicando os textos de Cora, como se fosse uma editora. E após isso, Cora se sente realizada, dizendo ser uma autora publicada.

Realmente, hoje em dia, para ser um autor de livro publicado, só é necessário dinheiro. Existem diversas editoras que funcionam como gráficas, que não se preocupam com o conteúdo ou qualidade da obra, que não fazem revisões ou expõem opiniões, e publicam qualquer coisa que qualquer um pague. Entretanto, um autor publicado por uma editora tradicional, que não cobra pelo serviço, também não oferece garantias de qualidade, uma vez que se qualquer um observar, existe muita coisa ruim publicada por editoras ditas como grandes. E se o autor não paga para isso, existe algo que se chama lobby, ou seja, peixinho, quem indica, apadrinhamento. E isso, a meu ver, é bem pior que do que o autor que tem dinheiro para pagar pela publicação de sua obra.


Continuando o desmembramento de JANTAR SECRETO, o que começa com a ideia de apenas um jantar, servindo partes de um defunto ao preço de cinco mil reais por pessoa, torna-se um aglomerado industrial, com abatedouros espalhados por diversas capitais do país, envolvimento de inúmeros policiais de rodovias estaduais, como também detetives, garçons, açougueiros, motoristas, assassinos, sequestradores, e um crescente de outros absurdos, que seriam facilmente descobertos e desmascarados, pela extensão que atingiram, até que chegamos a um clímax onde se confunde o certo com o errado, onde não se aplica nenhuma moral, onde jorra sangue para todos os lados e onde é revelada uma explicação para tudo isso, que, enfim, é divertida e faz rir pelo teor nonsense.

Entretanto, tem uma coisa que JANTAR SECRETO faz muito corretamente, que é o paralelo entre a produção industrial de carne humana e carne animal. Por diversas vezes, o autor realiza essa comparação, alertando para que, hoje em dia, os matadouros são máquinas de produzir animais para abate, deixando de lado qualquer pingo de compaixão. Que a mesma carnificina realizada nas pessoas, que ele descreve no livro, existe igual para bois, galinhas, porcos, etc. Tudo bem que precisamos delimitar as duas comparações, contudo não podemos esquecer que em ambas, estamos tratando de seres vivos.


Resumindo: encare JANTAR SECRETO como uma história gore, divertida, onde não é necessáiro se preocupar com a lógica do enredo, nem com a motivação de cada personagem, simplesmente aproveite a leitura, ria dos absurdos e, ao fim, procure algo mais sério e com alguma moral para contrabalançar.

Compartilhe este post:

Carlos H. Barros

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

16 COMENTÁRIOS

  1. Poxa Carl, kkkkkkkkkk gostei de entender mais um pouco e ler como uma segunda forma, o humor negro as vezes dá muito certo quando esperamos menos de uma temática. Achei a capa bonita, mas um pouco reveladora demais para o tema da história. Pena que não funcionou mesmo a motivação que os levou a matar! Não gosto quando o autor usa esse artifício de conversar com o leitor no intuito de fazê-lo acreditar na narrativa (perde boa parte do gosto pela leitura pra mim)

    ResponderExcluir
  2. Ola Carl, como sempre suas resenhas são completas e muito sinceras em relação a sua opinião. Eu gosto muito disso, acho realmente que precisamos escrever verdades sobre o que agente lê!!! Eu já tive interesse em ler esse livro, mas não mais. Gosto de ler livros com conteúdos saudáveis que te traga algo pra sua vida. Claro que não encontramos isso tão fácil hoje em dia, mas, livros que apelam pra determinadas situações não dá!!!
    Com carinho
    One

    ResponderExcluir
  3. Meu Deus, tô muito dividida! O livro parece ser bom por um lado e ruim por outro. Assim fica complicado. Li um desse autor e adorei por ser tão cru e surreal, a gente entra na mente do personagem e pelo estilo da história, que já não é um que leio muito, é que gostei da experiência. Foi bem interessante. Então por isso gostaria de ler mais coisas do autor.
    Tinha achado essa ideia do livro muito boa. Sombria e cheia de críticas, com um lado de humor negro...mas quando o enredo fica com furos ou não convence muito é complicado. Tem seus lados bons, mas também tem seus lados ruins. Acho que se ler vou tentar não criar muitas expectativas...

    ResponderExcluir
  4. Uma palavra pra esse livro é : decepção. Eu tava esperando um livro que ia deixar a gente com o cabelo em pé e você ia querer para de ler pra absorver tudo o que você ta lendo e depois voltar desesperadamente pra história. Mas depois de ler a resenha e ver que o autor mirou em um alvo e acertou outra coisa pra mim a graça do livro perdeu o atrativo. Eu acho que pra quem quer rir dos absurdos que você falou ok mas pra quem espera mesmo o que o enredo prometo é um tiro no pé.

    ResponderExcluir
  5. Carl!
    Que livro é este meu Deus!!! Eu preciso ler sem falta!
    Mesmo com alguns detalhes q decepcionam eu qro ler msm assim...
    Gostei da capa, do enredo, dos detalhes nas páginas...
    Bjs

    ResponderExcluir
  6. Olá!!! O livro parece bom, mas não é um gênero de leitura que me agrade tanto, pela sua resenha e os comentários não adicionarei na minha lista não.

    ResponderExcluir
  7. Oi, Carl
    Eu tenho muita curiosidade de ler um livro do Raphael Montes, todos elogiam tanto.
    NOssa, adorei a resenha super sincera. Algumas coisas estão parecendo absurdas mesmo. Se for ler, vou me preocupar em me divertir mais do que levar mais a sério rs.

    ResponderExcluir
  8. Oi, Carl!
    Realmente, a editora não deve ter lido a obra antes de publicar. Só encarando como algo engraçado mesmo para crer que algo assim foi publicado. Deve ser absurdo ver a sequencia de acontecimentos no decorrer do livro. E tudo isso para pegar um aluguel? Por favor né! To chocada!
    Beijos

    ResponderExcluir
  9. Oi! Sinceramente, eu também achei uma história ridícula e sem sentido algum , comer carne humana para ganhar dinheiro? Praticar canibalismo em troca de grana? É algo sem lógica alguma até para o próprio autor, eu creio, então não perderia o meu tempo lendo, as pessoas precisam ter mais senso ao publicar um livro!

    ResponderExcluir
  10. Olá!
    Logo eu que queria ler algo do Raphael Montes chego aqui e leio essa resenha super aberta e direta, devo-lhe parabenizar por isso. Logo no inicio da sinopse eu fiquei "como? sera que li certo? é isso mesmo produção?", realmente é um enredo absurdamente sem lógica só resta ao leitor rir ao final.
    abraços!

    ResponderExcluir
  11. Basicamente leia sem expectativas rsrs já li várias resenhas positivas do livro e agora fiquei bem confusa... acho estranho essa de canibalismo mas foi justamente o que me atraiu um pouco, ser estranho... só lendo pra saber

    ResponderExcluir
  12. adorei o jeito que vc colocou o livro
    quando eu li na sinopse (da primeira vez) que a ideia do povo era fazer um restaurante de pedaços de pessoas eu fiquei: como assim...
    que pena que ficou fora da realidade (o que eu já estava esperando qd li a sinopse), se bem que depois de acompanhar certas histórias - documentários e tal - eu não duvido mais nada da "criatividade" do ser humano.
    acho que vou ter ler para descobrir né?

    ResponderExcluir
  13. Eu já li outro livro do autor, e estava com bastante vontade de ler esse. Mas confesso que estou perdendo essa vontade. Parece que o livro poderia ter sido muito melhor, mas o autor exagerou em algumas coisas. Ainda tenho um pouco de vontde de ler, mas não é uma prioridade...

    Beijos!

    ResponderExcluir
  14. Oi, tudo bom?
    Nossa eu estava com tanta vontade de ler o livro, mas ele pelo visto é totalmente diferente do que pensei, acredito que não tenha sido a intensão do autor fazer um livro engraçado, achei bacana a comparação feita no livro, mas acredito que não irei ler ele, pelos acontecimentos que parecem ser um absurdo como você disse.
    Beijos *-*

    ResponderExcluir
  15. Hellouuu!
    Quero muito ler esse livro!
    A capa é linda e várias pessoas falaram bem dele.
    Ele não faz muito meu tipo, mas é sempre bom explorar novos ares!
    kkkkkkkkkkkkk
    beijosss

    ResponderExcluir
  16. Oi!
    Quando vi esse livro logo fiquei bem interessada para poder ler essa historia, acho que a proposta do autor e bem interessante, mas deu para ver também que não seria um livro encaixado no terror, por isso esse humor negro logo me chamou atenção, estou bem curiosa para poder conhecer essa historia, mesmo achando que os personagens não iram conseguir me conquistar ou me convencer !!

    ResponderExcluir