QUANDO FINALMENTE VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI

SINOPSE: Isso é normal? Crescer entre centenas de pessoas com deficiência física e mental, como o filho mais novo do diretor de um hospital psiquiátrico para crianças e jovens? Nosso pequeno herói não conhece outra realidade - e até gosta muito da que conhece. O pai dirige uma instituição com mais de 1.200 pacientes, ausenta-se dentro da própria casa quando se senta em sua poltrona para ler. A mãe organiza o dia a dia, mas se queixa de seu papel. Os irmãos se dedicam com afinco a seus hobbies, mas para ele só reservam maldades. E ele próprio tem dificuldade com as letras e sempre é tomado por uma grande ira. Sente-se feliz quando cavalga pelo terreno da instituição sobre os ombros de um interno gigantesco, tocador de sinos - Joachim MEYERHOFF - Editora VALENTINA - 2016 - 352 páginas.

Loucura. Você conhece alguém que não seja louco por alguma coisa? Louco por selfies, por chocolate, por séries, ou, talvez, por livros?


Se cada tipo de loucura fosse visível, como comércios destacados num GPS, nós veríamos que elas são muitas e variadas, e que, para cada uma delas, há um monte de pessoas que são atraídas por seus detalhes. Se elas fossem visíveis como mercados no Google Maps, com carrinhos brancos dentro de círculos vermelhos, por exemplo, veríamos infinitas insanidades por todo o mapa, por todos os lugares, e insanidades que proporcionam infinitas prateleiras e corredores de produtos. E veríamos que nós, consumidores da insânia, nos espalhamos por todo o mercado, cada um com uma preferência por algum delírio. A questão é: todos vamos ao mercado. Muitos vão mais de uma vez na semana. Então, por que adotamos a ideia de não irmos de modo algum? Por que adotamos a ideia de que o normal é não ter loucura alguma?


Você pode encontrar em qualquer dicionário a concepção de normal e normalidade, concepção que basicamente diz que o normal não foge à regra, que o normal é o comum. Você também verá que comum é algo, ou aquilo, que pertence a todos. Tendo isso em mente, faço uma pergunta a vocês: o que é mais comum, hoje: a sanidade, ou a loucura?

QUANDO FINALMENTE VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI nos conta a história de uma família pequena: um pai, uma mãe e três filhos. Josse é o menino mais novo dos três, e ele é o narrador da leitura. Seu pai é diretor do hospital psiquiátrico, em que eles vivem, e sua mãe é uma fisioterapeuta. Ponto.

Esse é o exterior. É a mercadoria que eles vendem, mas não a que compram. No interior, Josse tem uma raiva dentro de si que a menor faísca faz virar fogo e a combustão é cheia de socos, e gritos, e incompreensão. Seus irmãos são tão companheiros, quanto maldosos, e, sempre que podem, fazem da vida do pequeno raivoso um tormento. 


O pai é mais paternal com seus pacientes do que com os próprios filhos, e até com a esposa se mostra um grande imoral. E a mãe se mostra cega em seu cuidado pelos filhos, e hesitante quanto à vida que tem, quando comparada a que teve. Ponto.

No interior, Josse não é "normal". Não se o "normal" for contrário à loucura. Os irmãos e os pais dele, tampouco. E essa é a grande sacada de Meyerhoff: a família do diretor do hospital é mais necessitada de ajuda psicológica do que o leitor poderia imaginar.

Acompanhando da infância, até a vida adulta de Josse, vemos como ele lidou com as excentricidades que eram suas e de seus familiares. Por vezes, a leitura se tornou angustiante. O porquê exato não consigo eviscerar em palavras, mas sinto que é pela forte identificação que Joachim imprimiu nas páginas de seu livro. Afinal, todos nós temos problemas familiares. Todos nós temos algo de insano em nós mesmos. E ler algo que te remete tanto a si mesmo, pode ser assustador. 

Josse pensou algo antes, que creio que caiba muito bem nesta explanação. Parafraseando-o, é mais ou menos assim: há momentos que nossa aversão para com alguém, ou alguma coisa, é muito compreensível, porque esse alguém, ou alguma coisa, pode ser muito parecido com o que somos. E é extremamente raro, para nós, encontrarmos algo feito de nós mesmos.


QUANDO FINALMENTE VOLTARÁ A SER COMO NUNCA FOI é uma ficção de pura realidade e cheia de um humor que é pura ironia. Nestas páginas, Meyerhoff nos mostra uma família disfuncional, igual a que todos nós conhecemos, e/ou fazemos parte, e que tenta mascarar a sua insanidade e viver "normalmente", igual ao que fazemos, ou igual a alguém que conhecemos. Jogando com situações, personalidades e com o que achamos ordinário, o autor brinca com a ideia de que se fingirmos uma sanidade inexistente é covardia de nossa parte – ele nos faz acreditar que a coragem está naqueles que abraçam sua loucura. Mas conta também uma piada amarga e nem um pouco engraçada: quem abraça abertamente a loucura que vive, acaba por se abraçar de modo compulsório em camisas de força. E, possivelmente, irá parar em hospitais psiquiátricos, comandados por diretores imorais, casados com mulheres um tanto cegas para como cuidar de seus filhos, filhos esses cheios de raiva e maldade.

A moral que fica é a seguinte: que todos nós temos excentricidades. Todos nós vamos ao mercado de delírios para abastecer a nossa mais singular, ou plural, loucura. E que a loucura é normal, e o normal é a loucura. E que, por fim, loucos são aqueles que dizem não possuir insanidade nenhuma.


Eu aposto que você é louco por alguma coisa. Porém, você é corajoso bastante para admitir?

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Layla

Estudante de psicologia e da arte de fazer das emoções palavras e das palavras óticas com grau certo pra qualquer um que queira ver as coisas de maneira diferente.

22 COMENTÁRIOS

  1. Eu achei a capa desse livro bem assustadora rsrsrsrs!!!
    Não sei como começar a falar de uma historia meio maluca, acho que sempre os pais devem se dedicar os filhos e no trabalho não em apena um, faltou união na família do protagonista e me pareceu bem cada um por si e educação os outros irmãos, mas achei super diferente a historia.

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    1. Ela é realmente perturbadora, M! Hahaha tive a mesma sensação, todos eram bem separados e divididos, e a história funcionaria melhor até como crônicas, mas a história super valeu a pena!

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  2. LAYLA!
    Premissa interessante e até certo ponto filosófico. Na verdade não devemos definir normalidade e sim o que é loucura?
    Todos temos nossas 'loucuras' ou momentâneas ou devido a fatos que nos tornam obsessivos por alguma coisa.
    Temos é que aprender a conviver com as diferenças pessoais de cada um e discernir a 'normalidade' da 'loucura' de maneira socialmente aceitável.
    O livro é muito interessante porque nos confronta conosco mesmo.
    “Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.” (Sandra Carey)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de MARÇO, livros + KIT DE PAPELARIA e 3 ganhadores, participem!

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    1. É exatamente isso, R! Ele acerta muito bem nesse ponto. Beijos grandes.

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  3. Olá!!! Achei este livro bem diferente, a história não é o que estou acostumada, mas depois de ler a sua resenha, fiquei curiosa para lê-lo.

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    1. Vale a pena, E! Não é uma leitura que faz com que você fique viciado, mas faz refletir e assistir de perto as ironias da "normalidade". Beijo grande!

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  4. Oi Layla, tudo bem?
    Eu adorei esse seu post que está pra lá de filosófico. Afinal o que é "normal"? Podemos dizer que o normal pra mim é o mesmo que para você?
    Estou doida para ler este livro, por estudar psicologia me interesso muito por livros que tragam estas questões psicológicas e este me deixou muito intrigada,
    Beijos

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    1. Lara, de uma estudante de psicologia pra outra, eu super recomendo! Dá pra analisar muita coisa e até mesmo rir com algumas situações. É um livro fora do comum.

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  5. Sim! Eu sou louco, não especificar mas, sabemos que devemos libera-la de vez em quando reprimir só piora, disfarçar é o normal eu acho, mas enfim, preciso ler esse livro, porque me identifiquei muito com a sinopse.

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    1. Somos todos! Loucura é dizer que não somos, não é? Hahaha leia sim, é super interessante.

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  6. Fiquei com curiosidade por esse livro, mas não acabei vendo resenha dele. Ele parece ser bem leal afinal de contas.
    Achei a história interessante por relatar uma família excêntrica. Quem não tem? A minha é bem louca! E é bacana que ressalte que certas loucuras são normais. Faz parte...
    Por isso acho que iria gostar do livro. Deve ter algumas coisas com me identifico e a escrita dele parece muito boa ^^

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    1. A escrita é boa sim e não tem como não se identificar. Vi pouquissimas resenhas dele por aí também, mas super recomendo que você leia. Beijos grandes.

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  7. Olá!
    Parabéns pela resenha, já estava com vontade de ler este livro, só aumentou ainda mais...Enredo excelente!
    Bjs

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  8. Só pelo título do livro já tinha ficado curiosa, achei bem interessante o tema abordado no livro, afinal, todos somos loucos, de formas e intensidades diferentes, mas todos somos, fiquei super curiosa para ler porque quero fazer psicologia e acho que seria um ótimo livro.
    Beijos!

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  9. Ainda não tinha lido nada a respeito do livro, só vi a capa e fiquei imaginando mil e uma coisas. Adorei a resenha. Achei a proposta do livro bastante interessante e o enredo parece ser bastante reflexivo. Concordo com a afirmativa de que “loucos são aqueles que dizem não possuir insanidade nenhuma” e creio que quem mais tenta parecer normal é quem menos é. Mas, como foi dito, em outras palavras, “o que é ser normal quando reina a insanidade?” Rsrs Já adicionei na lista. Obrigada.

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  10. Olá,
    não tinha escutada nada sobre esse livro, quando vi a capa pensei que fosse historia de fantasia pelo menino esta fantasiado mas é interessante essa historia, cada um tem sua propia loucura, e atravez dela nós somos algo estranho porque cada uma tem sua propia loucura, cada um tem sua diferença...e meio defícil definir exatamente o significado dela para alguem!

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  11. Oi Layla! A capa desse livro já nos dá uma ideia que o livro seja meio maluco rsrsrs Eu já vi ele em algum lugar e chamou a minha atenção, quem não possui uma loucura dentro de si e não tenta sempre esconder ela de alguma forma? Então eu acho importante ressaltar a ideia que ninguém é normal e todos nós somos um pouco insanos kk Espero ler em breve, valeu!

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  12. Ok,eu fiquei já cucada da cabeça lendo a resenha imagina se eu ler o livro?? socorro??? quando vi esse livro pela primeira vez achei logo de cara a capa bem feia (e continuo achando) e agora olhando de novo ela é um pouco intimidante e assustadora,não sei se teria coragem de ler o livro mas achei bem intrigante kkkk mas é aquele ditado né,rs. Abraço!

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  13. Ótima resenha, Layla!
    De fato, somos todos loucos, todos temos nossas excentricidades e não há como negar isso. Honestamente é a primeira resenha desse livro que leio e achei a premissa muito bacana. Não sei bem o que eu esperava, mas com certeza é diferente. A capa é incrível e me fez lembrar de Precisamos falar sobre o Kevin, então eu deveria imaginar que teria algo a ver com transtornos mentais hahaha
    Dica anotada!

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  14. Oi, Layla!!
    Adorei a resenha. Devo confessar que a primeira vez que vi essa capa achei muito diferente de tudo que já vi!! Mas a história e muito interessante e fiquei bem instigada para conhecer mais do livro!!
    Beijoss

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  15. Oi Layla, tudo bem?
    Isso é a mais pura verdade! Cada um de nós tem pelo menos um - e acredito que para muitas pessoas isso seja em grande quantidade - pontos em que deixamos de ser "normais". O contraste da necessidade de tratamento e cuidado dessa família, no contexto em que ela está inserida, é o fator mais interessante do livro.
    Já quero ler!
    Beijos
    Quanto Mais Livros Melhor

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  16. Boa noite Layla! Ah o livro só pela capa passa a ideia de ser hilário, e deve ser mesmo, um menino que nasceu no meio dessa loucura, literalmente loucura deve contar muitas coisas engraçadas, ja me deu vontade de ler! Obg, bjo!

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