AS PRIMEIRAS QUINZE VIDAS DE HARRY AUGUST

SINOPSE: Certas histórias não podem ser contadas em uma única vida. Harry está no leito de morte. Outra vez. Não importa o que faça ou que decisões tome: toda vez que ele morre, volta para onde começou; uma criança com a memória de todo o conhecimento de uma vida vivida diversas vezes. Nada nunca muda... até agora. Ele está perto da décima primeira morte quando uma garotinha de 7 anos se aproxima da cama: “Quase perdi você, doutor August. Eu preciso enviar uma mensagem de volta no tempo. O mundo está acabando, como sempre. Mas o fim está chegando cada vez mais rápido. Então, agora é com você.” Este livro conta a história do que Harry faz em seguida, do que fez antes, e do que faz para tentar salvar um passado inalterável e mudar um futuro inaceitável - Claire NORTH - Editora BERTRAND - 2017 - 448 páginas.

Qual é o maior mistério quanto à existência da humanidade?


Nós já ouvimos e lemos e estudamos inúmeras teorias sobre o nascimento do ser humano, sobre como ele surgiu e se reproduziu e acabou se tornando a espécie dominante do planeta. Porém, pouco se pode dizer sobre a morte – não a morte física, e sim a psíquica, espiritual, mental. As religiões apontam algumas respostas que podem e devem ser consideradas: o famigerado paraíso e o mais famigerado ainda inferno, as vidas passadas e as vidas futuras que dependem de como você se portou com o meio e os seres em outras vidas, e vários exemplos, além desses, que demonstram o mínimo que nos é sabido sobre o fim – ou, para muitos, o começo – que a morte representa.

Agora, imagine que você viveu plenamente sob a crença quanto ao pós-morte que melhor se dava com suas concepções e ideais, e você morre. Até aí, tudo certo. Contudo, você se vê renascendo. Se vê crescendo e se vê lembrando que teve uma vida passada, vida que é igual à que você está tendo agora, com a única diferença que você não é o mesmo.

Você nasceu. Viveu. Morreu. E nasceu de novo.

"Meu nome é Harry August. Meu pai se chama Rory Edmond Hulne, minha mãe morreu no parto. Esta é a minha quarta vida. Eu vivi e morri muitas vezes até agora, mas minha vida é sempre a mesma."
AS PRIMEIRAS QUINZE VIDAS DE HARRY AUGUST mostra como nosso protagonista lidou com esse processo de morrer e nascer com a mesma vida, sempre em 1919, sempre vivenciando a Segunda Guerra Mundial e sua infância conturbada com seus pais adotivos. Essa prosa segue durante muitas vidas, enquanto acompanhamos Harry pesquisar sobre os kalachakra, ou ouroboranos, os outros seres humanos que são como ele, e buscar em diversas ideologias e fontes de pensamentos, algo que pudesse explicar o motivo de os kalachakra existirem.

Nesse meio tempo de mortes e renascimentos, Harry conhece vários dos seus, muitos dos quais nos são apresentados e descritos, em suas mais diversas formas de agir e pensar. Esta troca de ideias e memórias, possibilitou que um mito chegasse até os ouvidos de nosso protagonista. Um mito sobre uma seita.

“Dizem que há certas pessoas vivendo entre nós que não morrem. Dizem que elas nascem, vivem, morrem e voltam a viver a mesma vida, mil vezes. E, sendo infinitamente velhas e sábias, elas se reúnem às vezes, ninguém sabe onde, e fazem... Bem, o que eles fazem varia de acordo com o texto. Alguns dizem que eles se vestem com túnicas brancas e se encontram para reuniões conspiratórias, outros dizem que fazem orgias para criar a geração seguinte de pessoas desse tipo.”
E isso, essa seita, eles, é o Clube Cronus. Um grupo em que os integrantes são apenas ouroboranos, ouroboranos que cuidam uns dos outros e das gerações de ouroboranos futuras – os velhos entram em contato com os novos, e os novos entram em contato com os velhos, unindo passado, presente e futuro com amplas informações. E é neste fluxo de mãos triplas que Harry e eles ficam sabendo: o mundo está acabando. E o mundo está acabando por causa de alguém como eles, por causa de um kalachakra.

O mundo está acabando por causa de Vincent, um amigo de Harry.

Um inimigo de Harry.


Mais do que viver suas vidas como qualquer bom ouroborano, Vincent quer a tecnologia do século XXI sob sua posse, e tudo isso no século XX, em plena corrida tecnológica entre a União Soviética e os Estados Unidos. E ele quer construir um espelho quântico – um espelho em que todos os segredos da vida e da morte poderão se revelar, e responderá por que existimos e de onde viemos. Perguntas que, para ele, valem a pena ser respondidas, mesmo que isso signifique o fim do mundo.

A premissa promete muito e, infelizmente, não cumpre. Ao ler sobre as quinze vidas do Harry, parece mesmo que nós levamos quinze vidas para concluir a leitura: o livro, por muitas vezes, fica enfadonho, provavelmente pelo fato de todas as vidas dele serem as mesmas – com exceção de algumas em que os kalachakra resgatam-no e fazem com que os contextos históricos, sociais e regionais mudem um pouco – e pela autora não manter um ponto linear de vidas, indo e voltando e assim atravessando pontos em que a história ficava visceral e empolgante, quebrando o clima do leitor. Ele tinha tudo para ser um dos livros mais excepcionais que já li, mas não atingiu seu potencial – e nem as minhas expectativas.


Apesar disso, a escrita é linda e rica, muitas vezes poética, e a grandiosidade de informações únicas que nosso protagonista tem e nos passa ao conhecer religiões, profissões, culturas, línguas e outros personagens, junto da originalidade de Claire North, torna o livro mais tragável.

Como um café sem açúcar que você toma no final da tarde, AS PRIMEIRAS QUINZE VIDAS DE HARRY AUGUST deixa um gostinho amargo na boca. Pois, mesmo tendo passado por várias vidas, vários conflitos e várias mortes, Harry não encontra um sentido para a vida, nem um saber que ressignificasse a causa de estarmos aqui, o motivo de existirmos e o porquê, daqui umas décadas ou séculos, não estaremos mais. 


Este livro é amargo, porque não nos dá respostas – mas é enérgico e veemente, porque nos traz muitas perguntas. Há quem goste e há quem odeie café, contudo este livro é para todos os gostos e pode se mostrar uma bebida e tanto, se o leitor tiver paciência para prová-lo e tomá-lo por completo.


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Layla

Estudante de psicologia e da arte de fazer das emoções palavras e das palavras óticas com grau certo pra qualquer um que queira ver as coisas de maneira diferente.

18 COMENTÁRIOS

  1. Adoro historias com viagens no tempo, achei bem interessante esse livro e diferente, uma pessoa ter tantas vidas assim, poder saber e ver muitas coisa é até interessante, agora quanto saber sobre o que vai acontecer no futuro deve ser difícil, pois nem sempre os acontecimentos agradam, e não encontrar respostas me deixou curiosa

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    1. Pois é, A! É frustrante. Imagina só, você saber o que acontecerá no futuro, mas no passado não conseguir remediar as coisas? Muito louco, né? Beijos e obrigada pelo comentário ❤

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  2. Olha, vi uma resenha desse livro que me deixou bem interessada. Achei a ideia dele muito boa, essa coisa das vidas e de como a escrita consegue passar umas mensagens legais, ser um tanto poética e além disso mostrar acontecimentos históricos e coisas do tipo. Tem muito que gostei nele.
    Mas me deixou um pouco com o pé atrás por falar que ele não atinge tanto das expectativas no fim das contas. Se fica enfadonho ou repetitivo, se se perde na forma de contar...humm...sei não. Tirou um pouco do brilho dele pra mim. Mas ainda tenho vontade de ler pra ver como é.
    Quando pego é que não sei...

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    1. Olha, te digo honestamente que vale a pena. Leia sem tanta expectativa e com paciência, porque é realmente uma leitura única. O meu problema, além das expectativas nas alturas, fora com a repetição de tudo e a narração não linear. Pra você, contudo, pode ser diferente. Espero verdadeiramente que você leia e goste, C! Abraços

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  3. Que loucura de livro! Que loucura de resenha!
    Estava louca por esse livro mas estou pensando melhor... será que quero esse amargor? Não sei se vou ter a paciência necessária para tomá-lo por completo! (Achei a conclusão da resenha um verdadeiro primor)
    Confesso que fiquei meio confusa com a descrição, imagino então quando for ler o livro! Acho que não conseguirei resistir às partes enfadonhas e tenho medo de ele não corresponder às minhas expectativas (que também são bastante altas por sinal).
    O maior balde de água fria é não poder encontrar respostas no final, após lermos sobre as 15 vidas! Vou pensar duas vezes se continuo com o livro na minha lista de desejados!

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    1. Que comentário mais lindo, P! Quero imprimir e guardá-lo num potinho.

      Primeiramente, fico feliz que você tenha gostado da resenha (obrigada mesmo!) e primor foi o seu recadinho para mim. Tô sem palavras.

      Em segundo lugar, tenho de dizer que o livro é único. Nunca li nada parecido e isso, por si só, já vale MUITO a pena, mas é aquilo: tem de ter paciência e estar preparado para a ignorância. Eu não diria para você tirá-lo da sua lista, e sim que você... tentasse ler em formato digital, sentisse como é e, depois, dependendo do que ele te passou, você decidisse.

      Ele é um confuso intrigante e que dá coceira, sabe? Mas não é ruim.

      Obrigada (mais uma vez) pelo comentário, P!

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  4. Layla!
    Era justamente isso que iria perguntar: qual o sentido de morrer e renascer tantas vezes? Por que essa civilização tem de cuidar uns dos outros e quais são os objetivos deles na vida?
    Sei lá, até gosto de livros do gênero, mas quando trazem respostas e críveis.
    “A amizade, depois da sabedoria, é a mais bela dádiva feita aos homens.” (François La Rochefoucauld)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE MAIO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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    1. R, oi! É exatamente isso. Eu aceito que eles vivam e morram e nasçam e tenham as mesmas vidas, mas O PORQUÊ era essencial pra mim, e ficou faltando.

      É um ótimo livro, sem dúvida, mas poderia ser melhor.

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  5. Oi Layla!
    Estou babando nessa resenha, eu li resenhas bem rápidas sobre o livro, fiquei fascinada por esse história...Preciso conhecer pra ontem...
    Bjs!

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    1. Espero que você goste dele, A! É um grande livro, querendo ou não. Beijos.

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  6. Oi Layla!!!
    Parabéns pela resenha, já tinha lido a algumas resenhas do livro e cheguei a conclusão de que só lendo o livro mesmo para poder entender o que se passa no livro, achei linda a capa não vou negar, mas não sei quando vou ter a chance de ler o livro mas espero em breve.
    Abraços!!!!

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    1. Obrigada, M!

      A capa é linda mesmo hahaha e espero que você curta o livro, de verdade. Só lendo-o pra entender mesmo.

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  7. Oi, tudo bem?
    Achei a capa muito bonita, diferente, assim como a premissa. Estava com uma boa expectativa pela leitura desse livro, mas depois de ler sua ótima resenha, já desanimei. Não gosto de leituras que no final os fatos mais importantes, ficam sem resposta, apenas na reflexão. Não serve para mim.
    Mas agradeço a dica e sua sinceridade.
    Beijos!

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    1. Eu que agradeço a sinceridade, M! O livro tinha tudo pra ser um grande favorito, é uma pena que a autora não alcançou esse ponto tão essencial pra gente.

      Acho que há pessoas que ficam confortáveis com a falta de respostas, mas eu... não rola mesmo 🙈

      Beijos e obrigada por comentar!

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  8. Oi Layla, tudo bem?
    Quando conheci a premissa deste livro, decidi que precisava le-lo para ontem. Fiquei meio receosa com toda esta repetição e tenho medo de enjoar da leitura, mas ainda tenho muita curiosidade em fazê-la. Adorei todas essas informações que a autora coloca para deixa o livro mais rico.
    Beijos

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    1. Oi, L! Entendo seu receio. Quando eu li, li de pouco em pouco, porque alguns trechos era realmente difícil de manter atenção, principalmente depois que notei todas as repetições e não fiquei feliz com isso. Mas é um livro que, por toda a sua magnitude, vale a pena lê-lo.

      Beijos e obrigada pelo comentário!

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  9. Nossa, só tenho lido críticas para esse livro!
    De fato, a premissa é muito boa e tinha tudo para agradar, mas se é uma repetição sem fim de fatos e que culmina em um final que não traz nada de excepcional para o protagonista e muito menos pra gente, eu quero mais é distância, viu?
    Beijos

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    1. K, ooooi! Olha, eu vi muita gente falando bem, acredita?

      E entendo bem você querer distância haha uma pena que a autora não desenvolveu melhor algumas partes da história.

      Beijos e obrigada por comentar, viu?

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