ASSÉDIO MORAL


Este fim de semana, rolou uma discussão no Twitter sobre abuso familiar, embora o tema tenha se centrado mais em assédio moral, uma vez que abuso é mais abrangente, já que pode envolver atos sexuais não consentidos. Para se ter uma ideia, segundo dados levantados pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 70% das vítimas de estupro do país são menores de idade. O Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e o Sistema Único de Saúde, recebem mais de 120.000 casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes por ano. Entretanto, não existem dados atuais sobre assédio familiar, uma vez que esse tipo de abuso não é denunciado, a menos que atinja um nível de dano físico.

Segundo a psicóloga francesa Marie France Hirigoyen, formada em vitimologia, “pequenos atos perversos são tão corriqueiros que parecem normais. Começam com uma simples falta de respeito, uma mentira ou uma manipulação. Não achamos isso insuportável, a menos que sejamos diretamente atingidos”. Isso se dá através de frases e xingamentos corriqueiros, como, por exemplo: 

Você é um idiota, burro, irresponsável, etc”; 
Você não presta, é um inútil”; 
Você não vale nada, nem a comida que come”; 
Você não vai ser nada na vida. Ninguém vai te querer”; 
Deveria ter te abortado”. 

Ou através do menosprezo e condescendência, que é quando alguém sempre coloca você abaixo dele, fazendo com que suas realizações e conquistas pareçam menos do que são. Isso também está diretamente ligado a condenação e a crítica, jogando na sua cara que você nunca faz nada direito, que você está sempre errado, que você é um pai ruim, um filho ruim, um irmão ruim, um amigo ruim. Partimos, então, para controle, possessividade, acusações, ameaças, fofoca, indução de culpa, chantagem emocional e vai até privações e agressões físicas. Raras são as pessoas que não participaram de alguma dessas situações, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos, sendo nesse último caso, a maioria do sexo feminino.

É importante entender que Assédio Moral Familiar engloba várias relações, como pais e filhos, filhos e pais, marido e mulher, irmãos, namorados, ou qualquer relação entre pessoas que coabitam juntas, independentemente da idade ou gênero sexual. Por exemplo, em um assédio entre pais e filhos, o que predomina é o abuso de poder financeiro, físico e de habitação. Em um assédio entre amigos, é a indução de inferioridade, de aproveitamento. Em um assédio entre filhos e pais, é a idade avançada, a senilidade e a incapacidade de defesa física e financeira. Cada contexto possui causas e consequências diferentes, mas resultados iguais: a perda de individualidade, de expressão, de segurança, enfim, de liberdade.

Muitas vezes, e isso ocorre mais com menores e mulheres, o agredido não reconhece seu agressor como tal. Mais ainda quando a pessoa já cresceu em um ambiente desses, ela não conhece outro e considera que o anormal é normal. E também existem aqueles que mascaram o assédio com zelo, com cuidado excessivo. É bom destacar que qualquer relacionamento onde existe desiquilíbrio de poder, onde uma pessoa tenta exercer controle físico e emocional sobre outra, é caracterizado como Assédio ou Abuso. O grau de severidade depende da forma como isso é feito.

Todas as relações, para serem saudáveis e duradouras, precisam ter como base o respeito, a confiança e a fidelidade. O respeito entre pais e filhos, entre irmãos, namorados, amigos, não pode ser forçado, exigido, mas conquistado. Em uma família, não existe chefia, mas pessoas que precisam conviver em paz e harmonia. Elas estão juntas por algum motivo, seja biológico, emotivo, ou ambos. Precisam compreender que não existe superioridade, mas diferenças, e que isso não diminui ou enaltece alguém.
“Desde que me lembro, os meus pais nunca acharam que eu era uma pessoa interessante e não se privavam de o repetir vezes sem conta diante de mim. Davam-me sempre como exemplo os filhos dos outros, que eles achavam mais inteligentes, mais amáveis, mais sorridentes. De cada vez que tinha uma nota má, suspiravam e perguntavam-se, em voz alta, o que iria ser de mim. Cresci com a convicção de que os outros são melhores do que eu. Hoje, quando tenho um projeto que me é caro, sinto sempre uma imensa angústia por pensar que não serei capaz de o concretizar.”, Artur, de 16 anos.
É preciso saber que esse tipo de violência é prevista penalmente, especificamente na Lei 11.340, de 07/08/2006, popularmente conhecida como Maria da Peha, onde posso destacar o seguinte inciso:
Art.7º - São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:
I – (omissis)
II – a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação. [...]
V – a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
Lembrando que, embora a lei tenha sido criada para proteger a mulher, ela se aplica, também, a qualquer pessoa, de qualquer gênero, de qualquer idade. Então, por que existem tão poucas denúncias?

Porque os abusos ocorrem dentro da própria casa, onde a pessoa deveria se sentir protegida e segura, porque a maioria não tem idade para procurar um emprego, depende financeiramente do abusador ou não possui saúde e condições físicas de locomoção. Ou então, dependendo do caso, o abusador é fisicamente superior e exerce sua força em cima de alguém que não tem como se defender. A isso, soma-se o medo de que a denúncia não resolva, que afaste a pessoa e torne o ambiente seguro. Há o medo da retaliação em quem fez a denúncia ou em alguém que essa pessoa goste. E no caso de Abuso Moral, não há provas físicas, apenas depoimentos, que podem ser contestados. Para uma denúncia se tornar válida, ela precisa ser apresentada com provas concretas, inquestionáveis. Mesmo assim, quem denuncia, a menos que prove que sua vida corre risco, precisa voltar para sua casa, para o mesmo ambiente do acusado, porque o processo corre lentamente, é necessário advogados, defensores públicos, um juiz precisa alisar o caso e soltar um veredicto. Até chegar a esse ponto, passaram-se meses, anos. Como conviver com alguém de quem se tem medo por todo esse tempo? E depois do processo, o que acontece? Se a pessoa não tem um outro familiar com quem morar, ela vai para um orfanato, para uma casa de apoio, onde passa a sofrer outros tipos de assédios. Isso se torna mais apavorante do que o que ela passa onde já vive.

Em muitos casos, quando a pessoa sofre Assédio Moral Familiar e não tem idade suficiente para sair de casa, procurar um local onde possa viver em paz, não tem como se sustentar, o melhor é evitar conflitos, é abaixar a cabeça, ouvir e levar uma vida de passividade pelos anos que faltam até ter idade para se emancipar. Não adianta bater de frente com que é mais forte que você, com quem pode mais que você. A pessoa pode pensar que a vida será sempre dessa forma, que nunca estará livre. Isso é normal, principalmente na adolescência, quando todos os nossos sentimentos extrapolam e achamos que o mundo é mais feio do que realmente é, e quando achamos que o futuro nunca chegará. É mentira. A juventude, a dependência dos pais ou de um adulto, é o período mais curto de nossa vida. A pessoa precisa aguentar, precisa ter força para esperar os dezoito anos, precisa acreditar que essa época passará e que ao ficar adulta, poderá construir o futuro que desejar, a vida que sonhar. Até nossa maioridade, estamos presos, por lei, ao que nossos pais decidem, por mais certo ou errado que isso seja. Não há o fazer, a menos que eles, os pais, passem dos limites, porque, nesse ponto, a lei não os protege. Então, o mais inteligente a se fazer, é suportar, esperar, planejar e, assim que puder, ficar livre para ser quem você é de verdade.

Se a ataque moral parte de irmãos, procure provas para apresentar para seus pais, provas incontestáveis daquilo que você sofre. Hoje em dia é tão mais fácil, com celulares e gravadores. Não adianta você contar, porque será a sua palavra contra a do seu irmão, e pais, mesmo que digam que amam os filhos de forma igual, a maioria não ama, existem preferências. Normalmente, quem faz assédio moral, consegue manipular aqueles que detém a autoridade, porque são calculistas e conhecem as fraquezas de quem atacam. Seja mais esperto, mostre que ele não é o que aparenta. Seus pais irão acreditar e ficar do seu lado, ou pelo menos tomar medidas para que você não seja mais atacado.

No caso de amizades, é mais simples. Ninguém é preso a um amigo, ainda mais um falso amigo. Você não precisa conviver com quem não precisa, com quem não valoriza você, com quem você não confia, seja na escola ou no trabalho. Conviva com essa pessoa o tempo necessário, seja sociável e educado, para você não perder a razão e a outra pessoa não manipular a situação ao favor dela. Fora do horário obrigatória em que precisa vê-la, siga sua vida e a ignore totalmente.

Se você sofre com sua marido, ou esposa, mesmo que a Igreja diga que um casamento é para sempre, ele não é. Um casamento dura o tempo que durar o amor e o respeito. Se não deu certo, se o casal não é mais um casal, mas uma pessoa que domina e agride a outra, existem dezenas de formas de defesa, existem dezenas de coisas que você pode fazer. Mesmo quando se trata de agressões físicas. Procure sua família, seus amigos, procure refúgio na lei, nas autoridades, vá para longe, para onde você não será encontrado. Provavelmente você sofrerá provações, às vezes financeiras, às vezes de conforto, ou ambas, mas você poderá dormir em paz, poderá respirar e planejar um recomeço.

São muitos casos, muitas situações. Pessoas que sofrem Assédio Moral precisam entender que nada é definitivo, que tudo é passageiro. Elas precisam enxergar o futuro e não o presente, porque o presente será terrível, será depressivo e poderá apresentar uma fotografia sem foco. Todos nós temos força suficiente para superar fases, mesmo que achemos que não. Procure ajuda em quem você confia, em quem coloca você para cima. Se não tiver ninguém assim, procure ajuda no que gosta de fazer, como ler, ver séries, filmes, ouvir música, nos esportes, em qualquer coisa que você identifique que pode colocar você para cima, nem que seja ficar na praça vendo as plantas crescerem. Lembre-se que tudo é uma fase, e fases existem para serem superadas. Nada é fácil. Nada. Mas depois que você supera, o alívio, a alegria que irá sentir, será suficiente para seguir em frente.

Por último, uma pequena observação a respeito da relação entre pais e filhos. Não confunda Assédio Moral com a cobrança de obrigações. Muitos adolescentes acham que não precisam ajudar em casa, arrumar seus quartos, realizar aquelas tarefas domésticas que normalmente ficam com as mães. Nenhum pai tem o dever de arrumar seu quarto, lavar sua roupa, comprar aquilo que você deseja, fazer o seu café da manhã, almoço ou jantar. Pais têm a obrigação de prover alimento, educação e proteção. Qualquer adolescente tem por obrigação fazer a sua parte dentro da casa onde vive, estudar e passar de ano. Não olhe apenas para os defeitos dos outros. Aprenda e tenha a coragem de enxergar seus próprios defeitos, e da mesma forma que você tem coragem para gritar por justiça, tenha coragem para aceitar a justiça dos outros.

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

9 COMENTÁRIOS

  1. Concordo com cada palavra descrita em seu texto, e posso dizer que isto deve ser discutido mais e mais dentro da nossa sociedade, para que chegue ao ouvidos de outras pessoas que estão passando por está situação e acredita estar vivendo algo normal, minimalista, mas na verdade está sofrendo um abuso psicológico, que futuramente pode sair do controle e se torna algo físico. Como por exemplo a questão de alunos que batem nas professoras, muitas das vezes são vítimas de violência familiar, e chega na escola, e acaba espelhando este tipo de comportamento, a escola não gera este comportamento, atitude, mas e vítima de uma sociedade, inconsequente.

    rticipe do TOP COMENTARISTA de AGOSTO, para participar e concorrer Ao livro "Dois Mundos", o primeiro da série "Tesouros da Tribo de Dana" da escritora Simone O. Marques, publicado numa edição linda pela Butterfly Editora.
    http://petalasdeliberdade.blogspot.com.br/

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  2. Não vi essa discussão por lá mas o assunto levanta muitas questões importantes mesmo de se falar. Ainda é um negócio meio obscuro e pouco discutido né? As pessoas acabam não denunciando muito esse tipo de assedio e a questão fica meio que no limbo. Mas é tanta coisa e tanta forma e a vítima fica naquele negócio ou de resolver sozinha ou de continuar nessas situações....
    Tem muita gente que atura umas coisas assim caladas, que tem amizades desse tipo e não se livram delas, que aceitam essas coisas dos parceiros ou parentes jogando a desculpa do amor ou do parentesco mesmo...mas como disse, uma das principais coisas que se deve ter em conta nas nossas relações é o respeito. Respeito mútuo em primeiro lugar. Quando não se tem isso nem vale a pena cultivar uma relação dessas =/
    Se a gente tivesse mais respeito uns pelos outros o que não seria dessa sociedade não é mesmo?...

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  3. Adoro seus artigos Carl! Parabéns!

    Grande abraço,
    www.cafeidilico.com

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  4. Carl!
    Esse debate é importante e deve mesmo ser feito, inclusive no âmbito profissional também, porque há muito assédio moral...
    Acredito que para uma ótima convivência, em qualquer tipo de relacionamento, tem de haver a base do respeito, da confiança e da fidelidade.
    No caso entre pais e filhos, acredito que a questão seja mais delicada, porque é complicado delimitar quando é apenas uma repreensão (e aí pode ser até depreciativa, não que concorde, mas pode acontecer) ou um verdadeiro assédio em relação aos filhos (quando tudo fica no âmbito da conversa apenas, porque quando há violência, é mais evidente). Acredito que os pais podem imprimir algumas formas de "punições" (não sei bem se é o termo correto), para que o filho perceba seu erro e tente corrigir e melhorar... Talvez não consiga me expressar aqui corretamente. Não sou a favor de abusos, de imposições ou coisas do tipo, mas acredito que uma boa conversa aberta e um acordo, resolvem de forma mais adequada qualquer situação.
    Desejo uma semana mais que tranquilo e abençoado!
    “Deus com Sua infinita Sabedoria, escondeu o Inferno no meio do Paraíso para que nós sempre estivéssemos atentos.” (Paulo Coelho)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  5. Muito bom terem levantado esse debate. É preciso expor, pois, diversas pessoas passam diferentes tipos de abusos e não identifica.

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  6. Oi!
    Suas palavras, como sempre, muito bem expostas. Um texto e um debate, retratando um assunto de extrema importância e , infelizmente, muito real.
    É preciso debates e conversas assim, para que mais pessoas entendam e possam ajudar, de alguma forma, pessoas que estão por passar esse problema.
    Abraços.

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  7. Eu faço das suas palavras as minhas!
    Assedio Moral é um assunto extremamente importante ser discutido.É preciso debater sobre esse assunto com todos, conversar e fazer entender cada palavra descrita.
    Amei suas palavras!
    Beijos.

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  8. Gostei muito de ler sobre um assunto delicado como este aqui no blog.
    Consigo identificar casos assim com pessoas próximas a mim e sempre fica aquele questionamento de até onde é meu dever intervir. Obrigada por usar o blog para debater e informar nós leitores.

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  9. Parabéns pelo artigo e pela excelente narrativa. Atualmente a gente vê tanta coisa de comportamento das pessoas, que as vezes não sabemos em que ponto as coisas mudaram, como a forma do tratamento em casa ultrapassa nossa relação com as demais pessoas. Creio que ao lermos sobre o assunto abrimos nossos olhos e visualizamos o comprotamento nosso e dos demais.

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