O SORRISO DA HIENA

SINOPSE: Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitável psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana. Porém, a proposta feita pelo misterioso David coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é uma pessoa má por ter presenciado o brutal assassinato dos seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a dele, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência desse trauma na vida delas. Até onde ele será capaz de ir? É possível justificar um ato de crueldade quando, por trás dele, há a intenção de fazer o bem? - Gustavo ÁVILA - Editora VERUS - 2017 - 266 páginas.

Artur é detetive da polícia civil e tem Síndrome de Asperger, uma condição psicológica caracterizada por dificuldades de interação social e comunicação não-verbal, além de comportamentos repetitivos e interesses restritos. Entretanto, ela também pode proporcionar uma habilidade lógica acima da média, o que facilitou seu trabalho em resolver uma série de assassinatos, deixando-o famoso no meio policial.

David, aos oito anos de idade, preso a uma cadeira, presenciou o assassinato de seus pais: ele, afogado no próprio sangue após ter a língua arrancada; ela, com um tiro na cabeça. Vinte e quatro anos depois, após uma infância sofrida entre surras de pais adotivos e passagens por orfanatos, ele começa a repetir a forma usada para matar seus pais em crianças da mesma idade que ele tinha.

Willian é um renomado psicólogo infantil, que auxilia a polícia no tratamento de crianças traumatizadas por crimes que presenciaram. Ele é conhecido por sua tese de doutorado, que dissertava sobre os resultados de um estudo sobre crianças que passaram por algum trauma, e acabou sendo publicada, virando um sucesso no meio.

Após o primeiro crime de David, ele entra em contato, por e-mail, com Willian e lhe oferece uma proposta: ele irá matar mais quatro pais de filhos de oito anos, e Willian deverá se encarregar de cuidar dessas crianças pelos dez anos seguintes, avaliando o comportamento delas e criando um estudo que poderá auxiliar em uma vida melhor para todas as outras que sofrem de forma igual. Em troca, ele precisa apenas se manter em silêncio.

Enquanto Artur se empenha em tentar descobrir e capturar o assassino, William fica em cima do muro, sobre se permite que David continue a matar em prol de um pretenso bem maior, ou o denuncia à polícia.

A premissa de O SORRISO DA HIENA é controversa e angustiante. Apesar de David ser o assassino, William demonstra que é o verdadeiro monstro, uma vez que ele em nenhum momento se sente compelido a salvar os pais das crianças, mas apenas no que sua consciência, bem pequena, irá sofrer e o que o estudo poderá proporcionar para sua carreira. Uma pessoa equilibrada sabe perfeitamente discernir entre o bem e o mal. Quando essa escolha fica difícil, é porque quem escolhe tem um desvio de conduta. E quando esse desvio não pode ser justificado por um passado sofrido e traumatizado, então essa pessoa está do lado errado do que nós consideramos como certo. O verdadeiro monstro do livro é, sem dúvidas, William.

A narrativa e os eventos obrigam o leitor a efetuar uma leitura rápida, na ansiedade de descobrir como a história irá terminar. Infelizmente, toda a trama é aplicada de forma não revisada, deixando enormes furos que influenciam diretamente no desfecho. Não é questão do leitor que nota esses furos ser um Sherlock, porque eles são demasiado óbvios e incomodam bastante. Não gosto de criticar algo sem dar exemplos, porque acho que eles são necessários para estabelecer uma justificativa e não deixar aquela sensação de que o resenhista está sendo exigente. Por isso, a seguir, poderei soltar leves SPOILERS, mas sem comentar o desfecho ou qualquer evento surpresa. Siga por sua conta.

Artur é um personagem que começa da forma que sua condição exige. Entretanto, ao longo da trama, ele começa a agir como uma pessoa normal, inclusive a ter rompantes emocionais. Ou seja, o autor não conseguiu manter uma regularidade na principal característica do personagem. Além disso, apesar de sua inteligência anunciada já nas primeiras páginas, ele deixa escapar pistas claras, que até uma pesoa leiga iria considerar. Como por exemplo, negligenciar os interrogatórios de testemunhas secundárias, que poderiam ter visto o assassino e poderiam descrevê-lo fisicamente, deixando essa tarefa em segundo plano para auxiliares inexperientes, que deixam, facilmente, escapar algum detalhe.

O primeiro garoto a ter os pais mortos, tem uma mancha de sangue no rosto feita pelo dedo do assassino. Hoje, é fácil tentar conseguir uma impressão parcial dessa mancha, mesmo com os recursos precários brasileiros, mas isso foi deixado de lado. Artur também chega à conclusão de que o assassino está realizando um estudo baseado em... nada. Os assassinatos são efetuados de forma igual. Quando se realiza um estudo, a forma como ele é realizado muda, exatamente para obter o resultado de cada variante. Quando não se muda, o resultado é igual e deixa de ser um estudo.

Um ponto incômodo na narrativa é a necessidade constante do autor em explicar raciocínios e ações que não necessitam de explicação, como se o leitor não tivesse inteligência para abstrair sozinho o resultado da ação. Por exemplo: em determinando momento, William faz algo que deixa claro que ele conhece a identidade do assassino. Por um descuido, Artur não fica sabendo dessa atitude do psicólogo. O autor explica que, por isso, o assassino escapa, sendo que isso está claro! E isso se repete mais vezes.

Em um outro momento, uma personagem segue a pista de um outro assassino sem comunicar à delegacia, sem passar o endereço, nem para seu parceiro, e entra na casa do criminoso sem pedir ajuda ou deixar qualquer indício de onde ela está. Acho que nem no Brasil os policiais são tão burros assim.

Essas falhas se repetem, como o personagem que é suspeito do primeiro crime e ninguém levanta sua ficha criminal, ou quando um outro personagem vai até David sabendo que ele o irá matar, e tem uma conversa sem sentido e se deixa matar sem um real objetivo. E em como Artur, sabendo que esse personagem teve contato direto com David, não nota seu desaparecimento e nem se importa em voltar a interrogá-lo. Ou mesmo quando, já no final do livro, e já ser do conhecimento de Artur a identidade do assassino, David usa seu nome verdadeiro em uma lista de convidados em um evento público e ninguém percebe.

Poderia mencionar mais exemplos, como no pedido de David para William ir visitar uma criança, cujos pais assassinou, mesmo antes da polícia ficar sabendo, e quando a polícia o encontra lá, não se questiona como ele sabia. Ou no fato de não pesquisarem a compra de um forno crematório. Mas, na minha opinião, a falha mais chata é exatamente no último diálogo que Artur tem com William, quando o detetive coloca abaixo, com uma frase, toda a proposta do livro. 

Acredito que, se todas essas falhas fossem tratadas, O SORRISO DA HIENA seria um livro muito bom. A primeira leitura que realizei da obra, foi com a edição de produção própria do autor. Quando soube que a Verus iria publicar o livro, tive esperanças de que todas essas falhas grotescas fossem consertadas. Inclusive, até comentei isso em uma postagem de divulgação que a editora fez no Facebook, e o funcionário(a) me disse que fizeram tudo o que precisava ser feito. Bem, não sei o que eles consideram que precisava ser feito, mas, com certeza, não foi deixar o texto com uma narratica que seja, no mínimo, coerente.

Mas isso não é uma supresa para mim, uma vez que quase não existe trabalho editorial no país da mesma forma como é feito nos EUA e na Europa, onde os editores fazem uma leitura crítica e interferem no conteúdo de um texto se acharem que ele apresenta falhas, não se limitam apenas a traduzir ou corrigir a gramática.

Na verdade, o que me deixa frustrado, é que o fato de que ignorarem os defeitos da história, me faz constatar que nem sempre a leitura deixa as pessoas mais...



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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

19 COMENTÁRIOS

  1. Valorizar a literatura nacional é sempre um ponto positivo, mas sabemos que não é fácil achar o caminho mais correto e diminuir falhas e aperfeiçoar cada vez mais o estilo de cada autor.

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  2. Desde que me deparei com este livro, o meu primeiro questionamento, foi se autor conseguiria desenvolver esta trama de maneira concreta, já que percebi que a estória possuía características interessantes, mas teria de ser muito bem descrita. Sou estudante de graduação em psicologia, e entendo muito bem deste processo de pesquisa, e isto foge totalmente do código de ética, porém e o bastante para nos desperta curiosidade em saber qual e o desfecho da trama. Uma pena que a trama não foi tão bem construída, deixando um monte de furos.

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    1. Não conseguiu, infelizmente. Nem de longe...

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  3. Esse livro me deixou curiosa pela premissa e por já ter lido muitas coisas assim ou com alguns elementos do tipo e que gostei. Mas se tem tantas falhas óbvias e que acabam interferindo no rumo da história e de como as coisas foram construídas e tal...ahh, que desanimador. É complicado. A gente lê muito livro e sabe que lá fora os caras interferem mesmo, chegam pro autor e falam o que funciona, o que não funciona e que podem mudar....é chato pensar que por aqui esse tipo de coisa não é tão valorizado.
    Ainda acho que leria o livro pela curiosidade que me deixou e até pelas falhas, porque confesso que ver o que falou ali me deixou com vontade de ir lá conferir pra ver se concordo, se vou perceber essas coisas também. Mas é meio triste pensar que a trama poderia ser bem mais e não é =/

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  4. Não esperava que o livro apresentasse falhas tão grandes. A premissa dele é muito boa e realmente pensei que ele fosse um livro de não conseguir parar de ler. A capa é linda e da uma vontade de ler enorme. Não sabia que tinha tantos furos inocentes desse jeito. Pelo que eu vi, para um livro desse gênero, o autor realmente deixou muitas coisas básicas de fora e sem coerência msm. Agora não me deu vontade de ler... o pior é que as editoras daqui não se comunicam com os leitores. Já enviei várias reclamações de livros que li cheio de erros e eles não estão nem aí. Triste isso acontecer aqui.

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    1. As editoras daqui ignoram completamente os leitores, principalmente se eles reclamam de algo. Acho que elas esquecem que sobrevivem porque nós, leitores, pagamos o salário deles! Bjos

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  5. Carl!
    Uma pena que o autor insiste em ter de explicar algo que não se faz necessário, pois o leitor pode raciocinar por conta própria.
    Gosto dos livros no estilo, onde podemos confrontar determinados comportamentos do que é ou não ético, principalmente relacionado a pesquisas ‘científicas’ que poderão possibilitar comportamentos futuros sobre determinado assunto e posicionamento.
    Se os protagonistas são cativantes e bem estruturados pelo autor, fica ainda melhor de fazer a leitura.
    Desejo uma ótima semana!
    “A vida guarda a sabedoria do equilíbrio e nada acontece sem uma razão justa.” (Zíbia Gasparetto)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE AGOSTO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  6. Oi!
    Nossa, que pena esses furos no decorrer do livro. Pela capa e premissa, esperava um enredo bem estruturado e uma narrativa coerente e na altura da história. Infelizmente todos esses pontos negativos que você citou, deixam qualquer leitor um pouquinho mais exigente, já decepcionado e sem animo para fazer a leitura.
    De qualquer forma, ótima resenha.
    Obrigada.
    Abraços.

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  7. Olá Carl
    Parei a leitura antes dos spoilers! Que premissa de livro, hein?
    Meu gênero favorito é thriller/ terror, então acredito que não conseguirei desgrudar do livro enquanto não terminar.
    Quanto a personagem William, acredito ter se tornado psicólogo infantil na tentativa de superar seu próprio trauma. Ao soliucionar os crimes, chega cada vez mais perto de sua "redenção". A síndrome de Aspeger é um tipo de autismo, e o indivíduo geralmente tem uma genialidade em alguma área, que se torna fora do comum. Ele usa isto em sua carreira, e talvez ao focar nas consequências que o caso traz para sua carreira, ele esteja somente focando em seu trabalho, não é descaso por não se esforçar em salvar os pais das crianças.
    Dando uma "gansada" nos spoilers, também detesto quando o autor nivela o leitor por baixo, tendo a necessidade de usar explicações demais. Falhas como estas não contribuem em nada para o crescimento editorial brasileiro.
    De qualquer forma, adorei a resenha e vou querer conferir a estória!

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    1. Não, William não tem nada a ver com a solução dos crimes, e o que o motiva não tem nada de altruísmo. Mas até sua motivação é pessimamente construída, como o resto do enredo. Bjos!

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  8. Ainda não conhecia esse livro, mas achei bem diferente o tema explorado, geralmente esses livros que tratam da psiqué humana sempre acabam chamado minha atenção, principalmente por temos uma historia mais reflexiva e que discute o comportamento de seus personagens. Uma pena que a leitura deixa uns desfechos que tornam o livro não construtivo e com muitas falhas durante o decorrer dele.

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  9. Estava lendo em outro blog a resenha do mesmo, quando me deparei com a tua só que no caso ela tinha gostado, e isso foi bacana para ver a diferença entre a visão de duas pessoas sobre o mesmo livro,já que mencionou coisas que não te agradaram. Em suma creio que seja um livro interessante, que tem uma proposta que de cara intriga a gente...Digo se fiquei curiosa de acompanhar a resenha,imagina o livro...Parabéns pela resenha ♥

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  10. Gosto muito de livros ligados ao comportamento humano. Recebi ótimas indicações desse livro em questão. Essa é a primeira resenha que leio, onde são apontados situações que causam furos no enredo. Isso me faz pensar se todos estão lendo com um verdadeiro senso critico.
    Abraço!

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  11. Oi! Gostei bastante da proposta do livro. Uma pena que ele possui tantos furos. Mas acredito que mesmo assim vou ler e tirar minhas próprias conclusões. Quero saber se Artur vai descobrir que o verdadeiro monstro é o William. Beijoss

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  12. Livros de thriller são meus favoritos, o que me deu mais curiosidade foi saber como o título está ligado à história. Também é interessante ver um assunto importante: como os traumas da infância influenciam na vida adulta.
    Fiquei um pouco decepcionada ao saber o que livro tem algumas falhas e que isso atrapalha um pouco a leitura, mas ainda assim achei um livro interessante e só se que quero ler!
    Beijos.

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  13. Oi Carl! O livro parece ser bom, com uma história intensa, com uma certa frieza devido aos crimes, o que me decepciona, é o fato do livro conter falhas que acabam deixando leitor sem vontade de ler, mais quem sabe um dia! Valeu!

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  14. Nossa, os erros do livro são gritantes, tinha tudo para ser uma historia perfeita de suspense e mistério, mas essas falhas para mim não da e muitas explicaçoes desnecessàrias deixam o livro cansativo.

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  15. Olá! Gostei bastante da capa do livro, a sinopse também me interessou, é uma pena que haja falhas na edição, tornado assim a leitura um pouco cansativa, realmente é triste ver como as editoras não valorizam os leitores e não entendem que somos de grande importância para sua continuidade.

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  16. Oi, Carlos!!
    Gostei muito da resenha do livro sem que não é fácil falar negativamente de uma obra que tantos outros fazem vários comentários positivos. Mas sei também que se esses erros sendo corrigidos essa estória serei maravilhosa e quem sabe mais prestigiada ainda!!
    Bjoss

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