BLADE RUNNER 2049

SINOPSE: California, 2049. Após os problemas enfrentados com os Nexus 8, uma nova espécie de replicantes é desenvolvida, de forma que seja mais obediente aos humanos. Um deles é K, um blade runner que caça replicantes foragidos para a polícia de Los Angeles. Após encontrar Sapper Morton, K descobre um fascinante segredo: a replicante Rachel teve um filho, mantido em sigilo até então. A possibilidade de que replicantes se reproduzam pode desencadear uma guerra deles com os humanos, o que faz com que a tenente Joshi, chefe de K, o envie para encontrar e eliminar a criança.
DIREÇÃO: Denis VILLENEUVE
DISTRIBUIÇÃO: Sony Pictures e Warner Bros.
ANO DA PRODUÇÃO: 2017
DURAÇÃO: 2H44
ELENCO: Ryan GOSLING, Harrison FORD, Jared LETO, Robin WRIGHT, Ana de ARMAS e Dave BAUTISTA.

Dando sequência ao post de sábado passado sobre BLADE RUNNER e o livro que o inspirou, ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS? (se não leu, clique AQUI), deixo vocês primeiro com a crítica do RAFAEL, e depois com o que eu penso sobre essa sequência ;)

RAFAEL

Hoje em dia está na moda fazer continuações de obras clássicas, desde séries, livros ou filmes. Pode parecer que os produtores estão sem ideias? Sim, um pouco. Em alguns casos, realmente a obra precisava de um novo olhar, como é o caso de MAD MAX, ganhou um filme novo em 2015 depois de 30 anos, e o novo projeto foi um sucesso, ganhou seis Oscar e foi um dos filmes mais aclamados do ano. Em BLADE RUNNER o cenário não é muito diferente, o original não foi bem recebido pelo público no seu lançamento, os anos trouxeram status de “cult” e uma legião de fãs. Resta agora saber se o novo filme honra a obra original ou apenas usa a nostalgia para pegar o dinheiro do público. Vamos descobrir!

Para contextualizar, BLADE RUNNER original nos joga num mundo onde os humanos criaram “Replicantes”, uma espécie de robô humanoide que foi utilizado como escravo na construção e colonização de outros planetas para a raça humana. Um grupo se revoltou contra os homens e logo criamos um policia especial (os Blade Runner) para caçar e matar os replicantes. Isso é claro uma sinopse bem rasa e resumida de tudo que esse filme nos conta.

Em BLADE RUNNER2049, quase todos os modelos antigos de replicantes foram exterminados, alguns ainda estão sendo caçados. A Terra passou por um colapso completo e uma poderosa corporação salvou o planeta depois de desenvolver uma técnica de plantio sintético. Um novo robô foi desenvolvido pela mesma empresa, que está em busca de um modelo antigo que fora perdido. Ele é importante, porque foi capaz de gerar um filho depois de seu envolvimento com um humano.

Tanto o original, quanto o novo, tem roteiros similares, procuram sempre desenvolver seus personagens e universo acima do entretenimento. Isso não é um problema ou ponto ruim, é apenas uma escolha, a forma que eu quero contar essa história, a consequência mais gritante é que segrega o filme para um determinado tipo de público. BLADE RUNNER 2049 não é um filme para qualquer um, deve ficar longe dele se sua escolha for passar o tempo, não há diversão, o que temos aqui é contemplação e reflexão.

Logo no início temos alguns esclarecimentos sobre o passado e o presente, porém ainda é extremamente necessário ter assistido ao original. O personagem do Harrion Ford e todo seu envolvimento com os replicantes precisam de conhecimento prévio para poder tocar mais o espectador. Sem falar que o tom da produção é o mesmo, caso assista ao original e goste, é muito provável que irá aproveitar muito mais a experiência na sala de cinema. O roteiro aqui segue o protagonista Ryan Gosling, totalmente sem carisma e força para sustentar a produção na maioria das cenas, porém mesmo sendo um robô inexpressivo, existe um desenvolvimento para seu personagem. A solidão e a falta de carinho é o caminho que o mesmo persegue, um paralelo enorme com o personagem do Harrion, protagonista do original. São sequências tocantes e que são fáceis de se identificar.

Uma das coisas mais confusas no filme é sua duração, acredite se quiser, mas a produção conta com duas horas e quarenta e quatro minutos de projeção. Mesmo tendo pouca trama e quase nenhuma subtrama. Tempo mal distribuído e desnecessário, cansa o espectador logo nos minutos inicias nada empolgantes. Por um lado observador, o tempo extenso é usado para exaltar as belezas de uma Terra devastada por catástrofes e tecnologia. Os efeitos visuais são bonitos e a fotografia exalta a poluição e destruição causadas por um colapso de poucos anos atrás. Porém tudo que é demais, enjoa, o 3D é desnecessário e a trilha sonora tem seus momentos bons e genéricos.

O desfecho chega a ser engraçado, pois estava o tempo todo na nossa frente sem que percebêssemos. Consegue, na medida do possível, amarrar todas as pistas. No seu ato final, temos duas sequências com lutas, todas realizadas com perfeição. A mensagem de encerramento e seu sentido são interessantes, serão mais impactantes para quem for fã do original. Não vai funcionar com o público em geral, então indico esse filme com cautela, caso você for fã ou queria um filme tranquilo com muita reflexão e simbolismo. Porém, como existe uma infinidade de filmes e gêneros, cada um tem o seu público alvo, pode ser que esse não seja o seu, mas apesar de tudo, aqui existe uma grande quantidade de beleza que, com certeza, valem seu tempo e ingresso.

CARL

Eu poderia, facilmente, assistir BLADE RUNNER 2049 sem qualquer diálogo, apenas admirando a fotografia e os efeitos especiais. São deslumbrantes! Mas embora BLADE RUNNER, o de 1982 e o de 2017, sejam destaques no seu visual e na música incidental, o que realmente torna o filme único, é o debate sobre existência, sobre o direito de se viver na plenitude do verbo.

A maioria dos filmes que jogam questões filosóficas para o espectador, fazem isso entre momentos de uma história. BLADE RUNNER segue esse roteiro, mas com um adicional: ele cria momentos de pura reflexão através de tomadas longas, jogos de luz, expressões faciais dos personagens, com a música no mais alto tom, para provocar em quem está assistindo, uma espécie de momento de puro isolamento do mundo exterior, para que consiga imergir no que será apresentado na cena seguinte, ou digerir o que foi apresentado na cena anterior.

Não basta você acompanhar a ação dos personagens, ou a evolução do roteiro, você precisa compreender o que cada frase e cada expressão significa para você e para o personagem, precisa compreender como o cenário a as luzes fazem parte do que está sendo contado, e precisa compreender qual o cerne da questão levantada pela criação dos replicantes, os androides que são caçados nos dois filmes.

Replicantes são criados em laboratório para serem usados na exploração de outros planetas. Falo mais sobre eles na resenha do livro em que os filmes foram baseados, ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?, cuja resenha você pode ler AQUI. Mas, resumindo, eles são réplicas quase idênticas de um ser humano. A diferença é que a maioria é programada para obedecer, enquanto uma minoria tenta ter seu livre arbítrio. O que se levanta nos dois filmes, é até que ponto eles são máquinas ou seres vivos.

Diferente do BLADE RUNNER de 1982, onde a história era contada sobre o ponto de vista de Deckard, um caçador de replicantes, esta sequência é sob o ponto de vista de K, um replicante que também é um caçador. Ele não possui nome próprio, apenas uma letra e um número que representa seu modelo, e não se acha sequer no direito de ter um amor físico com alguma garota. Para ele, seu único propósito é cumprir sua função. Mas ele sente, ele quer amar e ser amado. Por causa disso, ele usa um programa de realidade virtual, chamado Joi, que cria a presença holográfica de uma garota, que interage com ele como se fosse real, mas sem ter uma forma física, como se fosse um fantasma que o acompanha. As tentativas de K em tentar acreditar que Joi é capaz de amá-lo, que o que ela diz vem dela e não de códigos previamente escritos, é triste e causa uma empatia imediata com o personagem.

Na verdade, K é fadado ao fracasso. Ele busca ser algo que não é, ao invés de fazer como o replicante do primeiro filme, que deseja apenas viver como era. Metade do filme, K começa a acreditar que ele realmente pode ser esse algo mais, e quando descobre que não, para logo em seguida, confirmar que não há qualquer chance de Joi ser mais do que um programa, transmite uma desolação, um abandono que comove. Por isso, e por mais coisas que não conto aqui para não estragar as surpresas do filme, K é um personagem melhor e mais complexo que Deckard. E ele é um replicante.

Aí caímos na grande dúvida: o ser humano, você, eu, sentimos e pensamos graças a combinações químicas e correntes elétricas que percorrem nossos corpos e ativam nossos órgãos. Nós somos uma máquina biológica que reage a comandos cerebrais, que por sua vez, reagem a sensações e ao que recebem do exterior. Nosso raciocínio, nossa inteligência, nossas memórias, tudo o que pensamos fica armazenado no pequeno computador que é nosso cérebro. Seguindo esse raciocínio, qual a diferença do ser humano para um replicante? Por que teríamos o direito de viver e um replicante não? Quem tem autoridade para decidir qual espécie tem vida e qual não tem?

Porém sempre existe a questão religiosa, a questão da alma. Mas se a alma é algo que existe além do físico, se nosso corpo é apenas um receptáculo, por que não poderia ser o mesmo para um replicante? E se considerarmos a reprodução, bem, nesta sequência, uma das replicantes consegue reproduzir, gerar uma criança através da relação sexual com um humano. Então, o que falta para eles serem considerados vivos? Esse é o centro de BLADE RUNNR 2049, uma expansão do que começou a ser discutido no primeiro filme.

Como o Rafael disse na sua crítica, BLADE RUNNER , de 1982 e de 2017, são filmes direcionados para um público específico, um público pensante e reflexivo, um público que não vai ao cinema para ver ação e explosões, mas para apreciar uma pequen obra de arte que transmite uma questão filosófica estigante o suficiente para ser discutida por horas após seu encerramento. Quando eu fui assitir, na minha sessão, bem na fileira atrás da minha, um grupo de garotos conversou durante quase toda a duração do filme. Eles não conseguiam assimilar o que era exibido, soltavam expressões de espanto e confusão.  No meio da projeção, eles foram embora, porque não conseguiram compreender o que assistiam, porque foram com a expectativa de um filme de ação, com perseguições, tiros, etc. Bem, não é para esse público que BLADE RUNNER é direcionado.

Sobre as atuações, li bastantes elogios sobre a atuação de Harrison Ford, mas, sinceramente, não consegui perceber essa qualidade, não consegui reconhecer o Deckard de 1982 no de 2017. Já Gosling, por interpretar um replicante, tem suas expressões contidas, o que pode ser mais difícil do que expressar algum sentimento. Mas preciso elogiar dois momentos que demonstram o quanto ele é bom ator: o primeiro, quando ele descobre que não é quem ele suspeitava que fosse. Seu olhar de quem ficou sem chão, de quem está se sentindo enganado, idiota, sem qualquer esperança de ser algo mais do que um replicante, é tocante e desesperador ao mesmo tempo. E um outro momento, em que ele explode de raiva, mas apenas com suas feições, sem utilizar do restante do corpo para ajudar. Muito, muito bom!

Como fã do primeiro filme, BLADE RUNNER 2049 correspondeu às minhas expectativas, trouxe novidades sem contradizer todo o universo criado e expandiu a importância dos replicantes como possíveis sucessores da humanidade. É uma ficção-científica raiz, de transmite uma conteúdo que reflete na nossa própria vivência, principalmente em uma época que se discute tanto diversidade e representatividade.

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Rafael Yagami

Cinéfilo compulsivo, amante de livros e musica. A leitura e os filmes sempre me ensinaram a confiar em mim e ter sonhos grandes e é com isso que me armo todos os dias para lutar pelos meus objetivos.

10 COMENTÁRIOS

  1. Bem, claro que vi o filme original(já bem velhinho), mas me recordo que precisei ver ele um tempo depois, pois não havia entendido nada. E olha que o roteiro nem era o fim do mundo assim.
    Mas não é um gênero que eu curta demais, então, sempre me perco no enredo ou nesse lance de ficar filosofando a existência.
    Tenho namorado esse lançamento e sei que verei sim, mas puxa, quase 3 horas de filme é pra matar qualquer um de tédio.rs(me lembro de Transformer's que eu assisto na marra, pois sempre são filmes enormes).
    Esperar para ver literalmente e tirar minhas conclusões ou reclamar.rs
    Beijo

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    1. Pois é para sustentar o publico interessado durante tanto tempo o filme tem que ser muito bom, mas como vc gosta do original, talvez nem veja o tempo passar assistido ao novo.

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  2. Não conheço este filme, tanto antigo quanto este lançamento, talvez seja pelo fato de não curti muito filmes deste gênero, exatamente por ficar perdida em alguns assuntos abordados, ou talvez por não me agradar. Talvez eu assista ou não esta continuação, porém acredito que não será algo que ira me proporcionar algo agradável, ou que eu chegue a admirar.

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    1. O ideal seria assistir ao original primeiro, assistir a continuação sem original vai ser talvez uma experiencia bem tediosa para vc

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  3. Em ambos os textos deu pra perceber que esse filme é bem reflexivo, vai além de um filme de ação e que leva o telespectador a pensar, a questionar e isso é legal, mas como vi no post do Rafael é um filme pra quem viu o primeiro longa ou melhor, quem viu e gostou do primeiro filme vai aproveitar melhor as duas horas e quarenta e quatro minutos do filme (bem longo) e deu pra evidenciar isso através do post do Carl que é fã do primeiro filme e senti uma certa profundidade na sua critica. Eu gostei, acho que não irei ver no cinema esse filme, mas pretendo assistir o primeiro e me programar pra assistir esse filme também mais a frente ;)

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    1. Assista o primeiro, se gostar com certeza ao assistir o novo vai gostar bastante.

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  4. Rafael e Carl!
    Tive oportunidade de assistir o primeiro filme dirigido pelo fabuloso Ridley Scott e como boa aficionada por ficção, não posso deixar de ir assistir essa segunda versão atualizada, ainda mais tendo o maravilhoso Harisson Ford, de quem sou bem fã e dos excepcionais Ryan Gosling e Jared Leto.
    Com toda tecnologia atual, imagino o quanto o filme deve ter ficado bem melhor que o primeiro, devido aos efeitos especiais.
    Semaninha de muita luz e paz!
    “Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.” (Johann Goethe)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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    1. O primeiro sempre esteve muito a frente do seu tempo, tecnicamente é um filme perfeito, o novo é deslumbrante, seu visual é pra ninguém botar defeitos.

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  5. Realmente, hoje em dia está na moda fazer continuações de obras clássicas; Ainda não assisti nada referente Blade Runner, mas pelos comentários positivos de vocês, e pelo trailer, parece ser um ótimo filme, então sem dúvidas pretendo assistir Blade Runner 2049.

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    1. Hoje em dia está na moda os anos 80 né, só ver o sucesso estrondoso de Starnger Things para entender pq essas continuações estão saindo mesmo depois de muitos anos.

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