O SOL É PARA TODOS

SINOPSE: Um livro emblemático sobre racismo e injustiça: a história de um advogado que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos dos anos 1930 e enfrenta represálias da comunidade racista. O livro é narrado pela sensível Scout, filha do advogado. Uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça. - Harper LEE - Editora JOSÉ OLYMPIO - 2015 - 364 páginas.

Nos anos 50, Harper Lee escreveu um livro que se tornaria um clássico atemporal. Atual ainda nos dias de hoje, O SOL É PARA TODOS traz temas importantes, como racismo, empatia, justiça e o mito da meritocracia.

O SOL É PARA TODOS é um dos livros mais citados em outros livros e isso foi o que mais me motivou a ler. Para citar alguns exemplos, PASSARINHA e JUNTANDO OS PEDAÇOS citam a obra de Harper Lee diversas vezes. Portanto, vamos tentar entender o que faz de O SOL É PARA TODOS um dos livros mais adorados do mundo.

Para começar, o livro é narrado por Scout e, levando em consideração que a história se passa na década de 30, numa cidade pequena, cercada de preconceitos e valores baseados nos princípios religiosos, quando o racismo ainda era extremamente forte, os negros eram considerados seres inferiores e o machismo também era muito presente, ver tudo pelos olhos de uma menina de apenas cinco anos é muito tocante.

O pai de Scout, Atticus, é advogado. Ele cria e educa os filhos e faz questão de ensinar-lhes valores como justiça e igualdade, assim como os incentiva a ler e a se colocar no lugar dos outros. Essa educação que recebe em casa, faz com que Scout, apesar de muito nova, reflita, questione e se revolte com as injustiças que ela vê.

Esse é um dos pontos mais tocantes no livro: como, aos olhos de uma criança inocente e educada para aceitar as diferenças, a injustiça parece algo tão sem sentido. Se todos educassem seus filhos com base nos valores que Atticus utiliza para educar Scout e Jem, teríamos uma sociedade livre de preconceitos e injustiças?

E por falar em Atticus, esse é um dos personagens mais incríveis que eu tive o prazer de conhecer. Atticus é um homem modesto, humilde e sempre calmo, mas, no fundo, Atticus nos mostra que sofre com todas as injustiças que ele vê, inclusive contra Calpúrnia que, tecnicamente, é a cozinheira da casa, mas que, na prática, o auxilia na criação de Scout e Jem e que, apesar de ser essencial na vida dele, é negra e, portanto, não é considerada uma igual em relação a ele. Cada vez que Atticus se pronuncia, aprendemos algo, refletimos sobre alguma coisa ou levemos um belo de um tapa na cara.

Scout narra seu dia-a-dia com o irmão, Jem, o amigo, Dill, a figura materna, Calpúrnia, a vizinhança e os colegas da escola. Tudo com muita doçura e de forma muito singela. A primeira metade do livro é mais leve, enquanto que a segunda metade é mais densa, pois focaliza mais no caso em que Atticus está envolvido, tendo que defender um negro de uma acusação de estupro de uma mulher branca.

Além disso, nossa narradora nos diverte com seu jeito de moleca e suas maneiras nada convencionais para uma garota da época, o que, certamente, lhe causa muitos problemas. No entanto, Scout é impetuosa e corajosa o suficiente para questionar, inclusive, o que as pessoas lhe dizem sobre como uma garota deve se comportar. Sempre pronta para brigar e disposta a defender o pai de qualquer acusação, as confusões em que Scout se mete geram boas risadas. Isso define muito bem o livro: num momento estamos rindo das atitudes de Scout e, logo depois, somos tocados por suas motivações e reflexões.

No início, o livro tem um ar de livro infantil, mostrando brincadeiras e fantasias infantis e, sem que percebamos, o tom do livro muda e começamos a perceber todas as injustiças cometidas e um desconforto enorme nos atinge.

Conforme vemos Scout crescer, percebemos como ela, apesar de ainda não concordar com as injustiças, vai se tornando mais resistente a elas. Essa perda de inocência e de estranheza por parte da personagem é dolorosa de perceber, pois nos mostra que é exatamente isso que acontece com o mundo, ou seja, vamos nos acostumando, mesmo que ainda sejamos contras, pois nos sentimos impotentes e sentimos que o mundo é assim e não há nada que possamos fazer.

O fato de O SOL É PARA TODOS ainda ser um livro muito atual, com questões atuais, é, na verdade, muito triste. Bom seria se lêssemos esse livro para conhecermos aspectos de uma sociedade do passado, com valores do passado e preconceitos do passado. O fato de estarmos familiarizados com os temas que o livro aborda, apenas prova que não evoluímos como deveríamos.

O desenvolvimento do livro é bem lento, mas a leitura flui com extrema facilidade e a escrita é muito agradável. Esse é um daqueles livros que não possuem uma jornada ou um objetivo claro. Na verdade, Scout narra uma parte de sua infância e, esporadicamente, nos mostra algumas das injustiças que ela percebe, o que, ao fim do livro, se transforma em um belíssimo ensaio sobre a vida, um livro leve, mas, cheio de ensinamentos.

A capa dessa edição do livro é linda, com textura emborrachada e cores fortes. No entanto, a diagramação não é das melhores, o livro tem muitos erros, e o que eu mais notei, foram as ausências de travessão, como se os editores tivessem simplesmente esquecido de colocar em alguns dos diálogos, o que me causou certa confusão e incômodo durante a leitura.

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Priscila

Sou psicóloga, casada e a leitura sempre foi parte essencial em minha vida, assim como a escrita e o cinema.

14 COMENTÁRIOS

  1. Esse livro aborda um tema que infelizmente ainda acontece hoje em dia, o racismo é uma coisa tão ultrapassada mas ao mesmo tempo está presente no mundo, onde pessoas sofrem só pelo fato da cor. Odeio esses tipos de discriminação, todos são pessoas e merecem respeito. Esse livro deve ser lindo de se ler, as vezes a gente acha que as crianças não entendem o que acontece a sua volta, mas estamos enganados, elas podem ensinar tanto quanto qualquer adulto!!

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  2. Nossa, eu li uma versão deste livro tem tantos anos(se minha memória não estiver falhando, para um trabalho na escola),mas confesso que nem me recordo mais direito dos personagens!
    Sei que é um clássico da literatura mundial, tanto que sim, há muitas referências em tantos outros livros.
    E é ruim saber que mesmo tendo sido escrito há tanto tempo, ainda hoje, o racismo está tão em evidência quanto naquela época.
    Quero muito reler a obra nessa nova roupagem!
    Beijo

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  3. Oi Priscila!
    Adorei a resenha, curto mto livros que mostram pontos de vista de uma criança, gosto mto do enredo, vai pra lista de desejados...
    Capa linda!
    Bjs!

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  4. Olá Priscila,
    Este é um grande clássico que ainda não tive a oportunidade de ler, mas está aguardando na estante para ser uma das leituras de 2018!
    A questão do racismo é muito trabalhada nos livros hoje, e este é um dos cânones no assunto. Também li vários livros que o citam, e fiquei ainda mais curiosa ao ler sua resenha.
    O que achei o máximo foi o livro apresentar os fatos a partir dos olhos de Scout, que não tem idade nem maturidade para entender temas tão complexos, mas é obrigada a vivenciá-los. São muito bons os livros escritos sob a ótica infantil, acho que trazem uma nova dimensão para os problemas mostrados.
    Uma grande pena o livro ser atual, isto prova que ainda vivemos em um ambiente racista e nada empático!

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  5. Sua resenha me arrepiou a cada trecho, fico pensando o que o livro é capaz de fazer. Ao contrário do que muitos pensam, um livro é sim capaz de mudar tudo em nós principalmente quando aborda um assunto que muitos não tem estrutura ou evolução para lidar e viver a história em cada página. A ação de separar um do outro pela cor é um assunto que me chama atenção, ainda mais envolvendo outro assunto polêmico da atualidade: abuso/estupro. Com certeza vou ler esse livro e colocar todo o meu coração nele!

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  6. Li esse livro no começo do ano e ele é mesmo incrível como tantos falam. Costumava ver muito em outros livros mesmo, sempre me dava uma curiosidade pra ler e quando vi essa edição foi a chance de pegar. E que história! Apesar de no começo a gente achar que vai ter ali uma obra mais infantil, pela narradora e as coisas que vão mostrando dos garotos e da infância deles, a trama vai nos ganhando aos poucos pelo jeito sutil com que mostra as injustiças daqueles tempos, o tema do racismo e os personagens que viam como isso é errado. Atticus é um dos que mais amo. Esse homem nos ganha fácil pelo seu jeito e sabedoria. A Scout sendo corajosa e forte como é, destemida, determinada, é outra que a gente acaba gostando de cara. E tem tanta coisa que dá pra tirar dessa história que só lendo mesmo pra entender a graça desse livro. É uma narrativa lenta e que me deixou admirada pelas coisas que me fez pensar, as reflexões que tirei dali.
    Uma obra e tanto esse livro.

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  7. Olá! Ainda não conhecia o livro, mas deve ser uma leitura incrível, é realmente muito triste vermos que um livro escrito nos anos 50, ainda continua sendo tão atual, mesmo nos dias de hoje, que a sociedade não conseguiu acabar com esses preconceitos, com certeza vou querer ler.

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  8. Olá, O Sol é para Todos parece ser uma leitura ao mesmo tempo prazerosa e dolorosa, uma vez que os personagens são extremamente carismáticos mas a noção de que o racismo ainda é vigente na sociedade monstra o tanto que é preciso mudar. Beijos.

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  9. Olá!!
    Amei a resenha e a sinopse sobre o livro. Sou fascinada por livros que abordam este tipo de tema, ainda mais sendo graduanda em Direito. Me lembrou o filme Filadélfia (mas neste caso era um advogado negro defendendo um homem branco portador de AIDS). Deve ser um livro maravilhoso e excelente para leitura. Irei anotar a recomendação.

    Abç! ;)

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  10. Quero muito ler, está na minha meta de livros para ler antes de morrer hahaha Só tenho que terminar os da estante primeiro, antes de comprar mais ;)O filme é ótimo, Atticus Finch é um baita personagem.

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  11. Priscila!
    Assisti o filme e pelo visto, é uma adaptação muito próxima ao livro, embora no filme a narração não seja pela garotinha.
    Concordo quando diz que o livro é atemporal, porque os preconceitos continuam em pleno século XXI, tremendo absurdo.
    O essencial é a leitura para a transformação desses preconceitos.
    Assisti o filme e pelo visto, é uma adaptação muito próxima ao livro, embora no filme a narração não seja pela garotinha.
    Concordo quando diz que o livro é atemporal, porque os preconceitos continuam em pleno século XXI, tremendo absurdo.
    O essencial é a leitura para a transformação desses preconceitos.

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  12. Oi Priscila
    Que interessante, eu jamais imaginei que o livro seria narrado por uma criança, ou que, mesmo que só no começo, tivesse um tom infantil. Na verdade achei que seria uma leitura tão complexa que não conseguiria acompanhar!
    Os temas tratados são de extrema importância, e também quero ler o livro! Adorei a resenha.
    Beijos

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  13. Oi, Priscila!
    Gostei muito de conhecer um pouco mais sobre a estória, ainda não li mais achei bem interessante a premissa do livro. Sem dúvida esse livro é maravilhoso e fiquei bem empolgada para fazer essa leitura.
    Bjoss

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  14. Oi Priscila!
    Amei a resenha, amo livros que são de um ponto de vista de uma criança,nao li ainda mas espero poder ler em breve. Ótima resenha

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