ORDEM VERMELHA: FILHOS DA DEGRADAÇÃO

SINOPSE: Você destruiria seu mundo em nome da verdade? A última região habitada do mundo, Untherak, é povoada por humanos, anões e gigantes, sinfos, kaorshs e gnolls. Nela, a deusa Una reina soberana, lembrando a todos a missão maior de suas vidas: servir a Ela sem questionamentos. No entanto, um pequeno grupo de rebeldes, liderado por uma figura misteriosa, está disposto a tudo para tirá-la do trono. Com essa fagulha de esperança, mais indivíduos se unem à causa e mostram a Una que seus dias talvez estejam contados. Um grupo instável e heterogêneo que precisará resolver suas diferenças a fim não só de desvendar os segredos de Untherak, mas também enfrentar seu mais terrível guardião, o General Proghon, e preparar-se para a possibilidade de um futuro totalmente desconhecido. Se uma deusa cai, o que vem depois? - Felipe CASTILHO - Editora INTRÍNSECA - 2017 - 448 páginas.

Existe um problema sério que pode atrapalhar qualquer projeto que se deseje fazer: exagero. São aqueles atos baseados na falsa sensação de que são mais do que realmente são. Isso não se aplica apenas para pessoas, mas também se aplica para várias obras literárias que pretendem ser mais do que prometem. Não é o bem o caso de ORDEM VERMELHA, mas o livro chega perigosamente perto desse abismo.

Como quase toda a fantasia publicada nas últimas décadas, ORDEM VERMELHA utiliza de muitos elementos de O SENHOR DOS ANÉIS, alterando de leve alguns conceitos, criando pequenos detalhes diferentes e dando uma roupagem que mistura os personagens tradicionais (anões, elfos, humanos, orcs, ogros, etc.) com personagens de anime e suas armas gigantescas, mágicas e poderosas. Tudo isso, quando bem aplicado, mesmo não sendo original, não é ruim, pelo contrário. E o autor, Felipe Castilho, consegue aplicar de forma competente e segura cada uma dessas características. Mas apenas em algumas partes.

A história de ORDEM VERMELHA é cheia de altos e baixos. Existem momentos muito bons, emocionantes, com lutas bem descritas, perseguições que causam ansiedade, confrontos surpreendentes, que criam um interesse gigante na continuação da leitura. Mas também existem outros momentos que são muito ruins, com falhas, furos, excesso de descrições, personagens rasos, diálogos sem sentido e atitudes desmedidas e ilógicas. Ou seja, há partes que eu li em minutos, e há partes que eu pensei seriamente em abandonar a leitura.

Todas as páginas em preto e letra branca que precedem as divisões em partes da história e mostram o avanço de um guerreiro portador de uma espada imensa, exatamente como sua habilidade na luta, são muito boas. Principalmente a última, quando é desvendado quem é esse guerreiro.

A história de Raazi e Yanisha, duas kaorsh, uma raça camaleônica, também conquista e conversa com nossos dias atuais, por ser uma relação homoafetiva. As duas guerreiras se completam, demonstram e convencem o leitor do amor que uma sente pela outra, e causam uma dor de estômago quando temos que acompanhar a luta das duas em uma arena mortal.

Aelian, o jovem falcoeiro que é o personagem principal, consegue conversar com o leitor, consegue criar uma empatia e uma torcida, mesmo ele fazendo coisas absurdamente estúpidas durante a aventura. Mas disso falo depois. Inclusive, seu falcão é bem utilizado, aparece nas partes que precisa, sem parecer gratuito, e ocupa o papel de animal de estimação por quem todos torcem para que não seja sacrificado em algum momento.

Temos também o general vilão, Proghon, braço direito de Una, a deusa poderosa e imortal desse mundo. A forma como ele é apresentado e os seus poderes, conseguem passar todo o temor necessário para o leitor ficar na dúvida sobre o destino final dos heróis. Mas, da mesma forma que Aelian, o general tem atitudes inexplicáveis.

Todos os outros personagens possuem seus problemas de construção, por aparecerem de forma rápida demais e permanecerem por pouco tempo na trama, sem dar chance do leitor criar um vínculo; ou por não ter uma presença que realmente importe; ou por, simplesmente, não servir para nada, a não ser morrer mais para a frente.

E é nesse ponto que começam os problemas, nessa tentativa do autor de transformar os personagens e a trama em algo grande, quando, na verdade, não passa de uma história de heróis contra vilões, sem grandes reviravoltas ou surpresas.

Aparição é um guerreiro que enfrenta o regime tirânico da deusa Una e de seu general. Ele causa diversos problemas, como ataques aleatórios em locais militares, ou ajuda pessoas que são perseguidas por soldados, independentemente do motivo. Ele tem um pacto com o general Proghon de um não combater o outro. Acontece que esse pacto não tem a menor lógica, já que Proghon é muito mais forte que Aparição, pode matá-lo a qualquer momento e não é apresentado um único motivo para que ele não faça isso. Simplesmente é dito que é assim e pronto, dando aquela sensação de que o autor mirou nos pontos em que os dois conversam, mas como não encontrou forma de fazê-lo de forma natural, criou esse subterfúgio do pacto.

Inclusive, a única arma capaz de matar Proghon fica em sua sala particular, onde ele fica meditando, de onde só se pode sair por uma porta. E o que Aparição faz? Invade essa sala acompanhado por um outro personagem sem qualquer capacidade de se defender e sem um plano de fuga, apenas para criar o momento em que o pacto será quebrado e a batalha acontecerá. Batalha essa que não tem motivo nenhum para já não ter acontecido antes.

Um outro personagem, Ziggy, um garoto dono de um monstro de estimação, aparece na trama de uma forma até convincente, mas depois disso, ele não é usado para nada, a não ser no final, em um destino construído apenas para emocionar.

Venoma, uma garota que faz a vez de assassina que se infiltra em qualquer lugar, é a relação afetuosa de Aelian. Mas ela aparece em um capítulo, no outro os dois já estão apaixonados, embora ela o trate igual lixo, e no outro já fizeram sexo e já estão lutando. Não existe uma construção da relação, fica algo superficial, apressado, embora sejam gastas páginas e páginas para descrever uma festa e diálogos sem qualquer função dentro da trama, como se o autor estivesse presente nessa ocasião, aproveitando a bebida, a música e as danças, enquanto o leitor é obrigado a assistir de fora, algo bastante chato.

O mesmo acontece com Harun, o anão da história, que em um momento é um vilão, no outro é mostrado como herói e no outro se torna vilão de novo, mas de forma que não convence em nenhum dos momentos. Inclusive, sua história é aquela que mais se aproxima da história de Gimli, de O SENHOR DOS ANÉIS. Em uma trecho, quando Aelian e Harun estão dentro de um corredor subterrâneo, achei que estava lendo o livro de Tolkien.

Mas, apesar de todos esses problemas, durante a leitura, como disse lá em cima, você encontrará partes muito boas que balancearão a qualidade da obra. Preciso acrescentar que a escrita do autor me surpreendeu e é boa o suficiente para conseguir deixar o leitor à vontade em um mundo estranho. Apesar do excesso de momentos e diálogos desnecessários, Castilho sabe como escrever de forma a convencer o leitor a não desistir, e sabe como criar uma ação dentro de um ambiente que não se torne confusa ou difícil de imaginar. Isso é algo que muitos leitores famosos e mais experientes não conseguem fazer, ou seja, é algo para se elogiar e aplaudir.

E tem o fato de ser uma obra nacional que, como tantas outras, demonstra a capacidade de muitos de nossos autores atuais em igualar suas obras, ou mesmo superar, em termos de criatividade e qualidade com os autores de outros países, que são, muitas vezes, mais valorizados que os nossos.

Ah, aí vocês perguntam: mas você não escreveu várias vezes nesta resenha que ele utiliza vários elementos existentes em O SENHOR DOS ANÉIS, por exemplo? Onde está a criatividade?

Ah, aí eu respondo: e daí? HARRY POTTER se baseia em O SENHOR DOS ANÉIS descaradamente e nem por isso é ruim. JOGOS VORAZES copia descaradamente BATTLE ROYALE e nem por isso é ruim. Então, porque se um autor nacional faz o mesmo, quer dizer que é ruim? Certo? Beijos de paz, comprem e vão ler ORDEM VERMELHA!

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

16 COMENTÁRIOS

  1. Oi, Carl.

    A figura misteriosa e sua rebeldia em fazer algo para que mude a conduta da rainha opressora perante o reino, desperta no povo (entre outros) uma certa esperança de, talvez, verem tudo mudar.

    E eu fiquei surpresa e feliz por ver a editora Intrínseca investindo em nossa literatura brasileira!

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    1. Oie! Na verdade, a Intrínseca não está investindo em nacionais, pelo contrário, é uma das editoras que menos espaço dá para autores desconhecidos. Esse livro saiu por ela, porque tem o apoio da CCXP e teve um incentivo financeiro para ser publicado. Autores nacionais desconhecidos, só assim são publicados por grandes editoras.

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  2. Muito bom ver uma editora do porte da Intrínseca investirem autor nacional e fazer uma bela divulgação. Inclusive incluir em seu famoso sorteio semanal em suas redes sociais.
    Achei bem interessante. Apesar da presença dos tão batidos clichês.
    Parabéns pela resenha honesta e sincera

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    1. Oie! Na verdade, a Intrínseca não está investindo em nacionais, pelo contrário, é uma das editoras que menos espaço dá para autores desconhecidos. Esse livro saiu por ela, porque tem o apoio da CCXP e teve um incentivo financeiro para ser publicado. Autores nacionais desconhecidos, só assim são publicados por grandes editoras.

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  3. Ri no final!rs Realmente há cópias bem descaradas e todo mundo assiste e lê com maior sorrisão no rosto.
    Mas voltemos a resenha!
    Como não conhecia o livro, fiquei até de queixo por ser nacional, dá um orgulho né? Mesmo nessa bagunça de personagens(me vi misturando tudo),parece ser um apanhado de tudo que é fantasioso. Como um grande panelão de sopa(culpa da chuva)
    Mas como gosto de fantasia, me interessei bem pela estória e se tiver oportunidade, quero muito poder conferir!
    De vez em sempre é bom pegar algo já criado e recriar tudo novamente.

    Beijo

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  4. É difícil se fazer algo original hoje em dia, voc~e sempre vai acabar çembrando alguma obra que leu, as grandes obras do gênero ou alguma coisa assim. Mas normalmente gosto dessas misturas. Fica legal de ler. Achei doido foi isso dos altos e baixos, de ter partes ótimas de ler e outras que quase fazem a gente querer largar tudo. Sei lá, pelo jeito da história achei bacana e leria, mas ver que tem coisas que não são tão boa assim, que vai mudando o ritmo, que os personagens não são tão bem explorados, meio que tirou um pouco da graça pra mim. Mas ainda acho que leria. Ao menos pra entender tudo isso, ver a história completa e entender tudo.

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  5. Olá! Não conhecia a história, mas gostei de alguns pontos, definitivamente é aquele tipo de leitura que só lendo para saber se vou gostar ou não do todo, a sinopse conseguiu deixar aquele gostinho de querer saber o que acontece. Grata surpresa saber que o autor vem de terras tupiniquins.

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  6. Carl!
    Tem autor que acha que mudar uma história de outro ícone, o faz grande, mas não percebe os erros cometidos.
    Não construir bem as personagens em um livro tão cheio de caminhos transversais, ainda mais em um enredo de fantasia, complica um pouco a leitura, né?
    Um maravilhoso final de semana!
    “Acredite que você pode, assim você já está no meio do caminho.” (Theodore Roosevelt)
    cheirinhos
    Rudy

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  7. Olá, a obra realmente consegue prender o leitor com o vasto universo criado pelo autor, ainda que o mesmo seja descaradamente derivado de outras obras literárias conhecidas. Mas fiquei com a impressão que o autor não tinha o que colocar na história e simplesmente enrolou com acontecimentos desnecessários, o que pode comprometer o rendimento da leitura. Beijos.

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  8. Oi Carl!
    Não vejo problemas em se basear em histórias boas, o problema é não fazer isso de forma convincente...
    Apesar de gostar bastante desse mundo que o autor criou/copiou com seres fantasiosos, achei a história um tanto confusa, muitos elementos colocados, não me surpreendi, pelo contrário, não me convenceu. Sinceramente, é uma pena, para um enredo que poderia ser tão rico, e daria uma história incrível!
    Beijos

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  9. Não vou mentir: não senti curiosidade e demorei dias para ganhar a coragem de ler a sinopse e a resenha dele. Sua resenha, como sempre muito bem descrita, conseguiu me envolver a todo momento, mas já matei minha curiosidade pela história e assim prefiro ficar. Beijinhos!

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  10. Patrícia Walléria26 fevereiro, 2018

    Que pena que o livro apresenta essas falhas, tinha tudo pra ser uma grande história. Sempre que lia a sinopse imaginava que se tornaria um dos meus preferidos, mas mas especialmente o romance raso e corrido me decepcionou.
    Enfim, pelo menos também existem cenas legais que compensam.
    Quem sabe eu não leia algum dia, né?
    Parabéns pela resenha.

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  11. Oi Carl!
    Já gostei por ser nacional e mais ainda com esse enredo que pra mim tá mto bom, capa então, perfeita! Não conhecia ainda, já qro pra ontem!!

    Bjs!

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  12. Gosto bastante de ler fantasias nacionais, apesar de não haver muito inovação nessa fantasia acho que eu leria numa boa. É muito difícil encontrar um livro de fantasia que não tenha sido influenciado por Tolkien ou George Martin.

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  13. OOi Carl! Ao ler a sinopse fiquei muito entusiasmada a conhecer um pouco mais da história, porque além de se tratar de uma aventura, tem orcs, ogros e anões, e sou apaixonada por fantasia! Mas o fato do livro apresentar grandes falhas, como descrições longas e diálogos sem sentido me desanimou muito, então eu não procuraria ler!bjs

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  14. Oi, Carl!!
    Apesar de gostar muito de livros de fantasias não curto muito histórias exageradas. Mas mesmo assim fica indicação!!
    Bjos

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