TUDO QUE DEIXAMOS PARA TRÁS

SINOPSE: Em 1852, William é um deprimido biólogo inglês, que deseja criar um novo tipo de colmeia capaz de trazer reconhecimento para sua família. Em 2007, George é um apicultor americano que luta para manter o negócio produtivo e acredita que seu filho pode ser a salvação de sua fazenda. Em uma China futurista, quando todas as abelhas desapareceram, Tao trabalha com polinização manual. Enquanto passa seus dias pendurada em árvores, deseja para seu filho uma educação e vida melhores do que a sua. Mais do que uma distopia sobre o desaparecimento das abelhas, em que passado, presente e futuro se encontram, Tudo Que Deixamos Para Trás é uma poderosa história sobre o relacionamento entre pais e filhos e o sacrifício que fazemos por nossas famílias. construído - Maja LUNDE - Editora MORRO BRANCO - 2016 - 475 páginas.

Você já se perdeu alguma vez quando era criança?

É horrível – pelo menos, a minha experiência foi: não saber para onde ir, o que fazer, se é melhor continuar no mesmo lugar ou sair por aí a procurar, tudo isso somado ao terror de se encontrar sozinho no meio de estranhos, do medo de não encontrar quem estava com você, com a incerteza de ser capaz ou forte ou inteligente o bastante para prosseguir a partir dali, de lidar com essa situação.

Você pode até não se recordar de ter passado por isso na infância. Quando mais velhos, podemos deixar esses sentimentos para trás quando perdidos, basta ligar rapidamente um GPS, abrir o Google Maps, pedir informação. Entretanto, por mais que anos tenham se passado, ainda há um tipo de... confusão, um jeito de não se achar ou compreender aonde se está ou queria estar. Ainda podemos nos perder – e não é aquele perder que um mapa pode rotacionar. Ainda podemos sentir que somos aquela criança de outrora, com medo, assustada, impotente, ingênua a alguns males que lhe eram desconhecidos.

Por várias vezes já me senti assim: no meio de uma crise, ao confrontar problemas que não pude prever e que me atropelaram sem aviso, quando não sabia o que executar, como avançar, sem saber o que esperar. Não consigo recordar os motivos que despertaram tal sensação, mas posso apontar qual foi a última vez que me senti desse jeito. Enquanto lia TUDO O QUE DEIXAMOS PARA TRÁS, tive a percepção de ser uma criança novamente. Fiquei frustrada com os protagonistas e suas famílias, não conseguia entender os elos que os conectavam, lia cada linha e parágrafo dos capítulos com a sensação de que todos eles falavam de abelhas, mas na verdade estavam falando de outra coisa. Senti medo, fiquei assustada, impotente, ingênua às grandes e pequenas reviravoltas das páginas. E não, os personagens não são crianças – eles são adultos. Adultos que, cedo ou tarde, se perderam.

E a escrita da Maja é tão boa, detalhista e coerente, que leva o leitor a se perder também.

Conhecemos a história de três pessoas: William, que se passa em 1852; de George, em 2007; e de Tao, em 2098. Os pontos de vistas são intercalados, passado, presente e futuro, William, George e Tao, construções de colméias e descobertas sobre as abelhas, centenas de abelhas que começam a desaparecer e, então, um mundo em que a polinização tem de ser feita por mãos humanas.

Esses pontos de vista diversificados são ricamente construídos, assim como a mente de seus personagens. A autora deu identidade a eles de forma tão genuína e certa que, mesmo se eu pausasse a leitura e depois retomasse, poderia reconhecer quem estava narrando pelo seu modo de pensar, seu modo de ver as coisas.

O que mais me surpreendeu no livro, além do fato de ter me envolvido tão emocionalmente em toda a trama, foi como Lunde interligou essas três pessoas, essas três histórias, todo o destino da humanidade e das abelhas. Foi impressionante e genialmente encaixado. Preciso ressaltar, também, que um dos meus medos quanto a essa leitura, era o fato de se focar tanto em abelhas – não sou lá grande fã delas, muito menos de seus ferrões, e nem me interesso tanto pelo olhar científico de quão importante elas são para todo o mundo. Entretanto, meu receio foi infundado. Há, sim, informações sobre elas o tempo todo, mas é como eu disse anteriormente: você vê os personagens falando e teorizando sobre as abelhas, contudo parece que eles estão falando e teorizando sobre nós, sobre a humanidade.

Misturao de distopia com drama, demonstra a convivência dos seres humanos do modo mais particular possível, destrincha os laços familiares e os laços com as abelhas, TUDO QUE DEIXAMOS PARA TRÁS é uma obra grande, e não pelas suas 475 páginas. É grande, pois me vi como uma criança com um novo aprendizado, um aprendizado que pode mudar tudo: assim como a rainha é conectada à operária e com todas as abelhas de uma colméia, todos nós somos conectados. O livro é único, completamente diferente de tudo o que já li, e nenhum outro proporcionou tamanha inquietação como ele. Virei realmente uma criança por causa de sua singularidade, lidei com situações, sensações e questões novas, (re)descobrindo algumas de minhas verdades e vivências.

Também vale dizer que a edição da Morro Branco é incrível: com marcador de página do livro (os leitores agradecem!), páginas amareladas, letras no tamanho ideal para não cansar os olhos, o nome de quem estava narrando o capítulo no final da folha, além da linda capa e os detalhes na contra-capa, o próprio livro parece uma colméia – perigoso e belo, abastado de seres que podem trazer coisas boas e doces para a história, mas que também podem te trazer dor.

Foi um dos melhores livros de 2017 – e me arrisco a dizer que foi um dos melhores da minha vida.

E não se preocupe: os sentimentos de ser uma criança perdida, desaparecem ao terminar a última página, porque, assim como os protagonistas, você vai encontrar – seja a si mesmo, novas perspectivas ou, quem sabe, abelhas. Porque elas nunca mais serão as mesmas para você depois dessa leitura.

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Layla

Estudante de psicologia e da arte de fazer das emoções palavras e das palavras óticas com grau certo pra qualquer um que queira ver as coisas de maneira diferente.

20 COMENTÁRIOS

  1. Acho que realmente a única coisa que fez com que tivesse as atenções voltadas para Esse livro foi o fato de ter passado na China futurista porque de resto a história não me chamou muito a atenção. Bem a causa provável do desaparecimento das abelhas enfim a história de base não me chamou atenção mas eu vou tentar dar uma chance a essa leitura até porque já teve várias vezes que a sinopse não condiz com a leitura

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  2. Oi, Layla.

    O legal é que, além do livro explorar o relacionamento familiar de três pessoas que de certa forma estão interligadas (mesmo que "separados" por o futuro, passado e presente) o livro explorou, destacou a importância das abelhas.

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  3. Uauuu! Vi esse livro mas redes sociais da editora mas não conhecia a sinopse. Acreditava que era apenas um livro sobre algo relacionado a abelhas por causa da capa.
    Não tinha idéia que Tudo O Que Deixamos Para Trás é uma distopia tão profunda e que faz pensar. Gostei.
    Realmente a capa e muito bonita.

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  4. Olá Layla!
    A leitura desse livro deve ser linda, pelo tema se nota o quão envolve o leitor, nunca tinha ouvido flar da obra, vai pra minha litinha com toda ctz.
    Amei essa capa!
    Bjs!

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  5. Primeira vez que tenho contato com o livro,mas já quero demais poder ler ele todinho só para sentir tudo que senti lendo apenas a resenha dele.
    Essas "comparações" filosóficas sempre me agradaram muito, ainda mais quando um autor ou autora conseguem fazer isso desta forma, poética e doce.
    A humanidade, as colmeias o se perder e o se encontrar.
    Já foi para a lista de desejados!
    Beijo

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  6. Não conhecia o livro, porém o achei interessante demais, sua resenha foi bem intensa então imagino que o livro também será. Bom, eu não me recordo de uma vez em que me perdi quando era criança mas sei que dá um certo medo, e adorei que quando os personagens estão teorizando sobre as abelhas, parece que estão teorizando sobre nós, acho que isso foi uma das coisas que mais me interessou no livro. Apesar de ser um gênero que não estou acostumada a ler, pretendo dar chance esta leitura!!

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  7. Olá! Não conhecia o livro, mas a resenha já me deixou curiosa para conferir mais de perto toda a história. Lembrei de quando tinha por volta de 5,6 anos e me perdi no parque aqui na minha cidade, foram os 5 minutos mais assustadores de toda a minha vida. Gosto de distopias essa parece ser bem diferente de tudo que já li até hoje. Já acrescentei na minha listinha.

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  8. Achei muito legal a premissa e tudo que vi desse livro. Parece mesmo fazer a gente entrar na história e perceber as coisas como eles, ter uma visão de criança, ter esses sentimentos todos que a trama passa. Gostei do jeito da história e mais ainda por ter histórias diferentes e como se interligam. Adoro coisas do tipo, é legal ver como o autor vai ligar cada pessoa. E gostei desse clima inquietante que ele passa. É mais uma coisa pra me fazer querer ler. Parece diferente.

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  9. Eu confesso não ser fã número um de abelhas,até porque sou alérgica as picadas. Mas o livro é também uma distopia o que o faz ser interessante para mim, só por isso pra começar rsrs

    Também me apaixonei pela capa, achei delicada e fofa

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  10. Me apaixonei pela capa, pela foto, pela resenha e só pelos três fatores, me apaixonei pelo livro. Senti na pele e me emocionei a cada linha da resenha. Parece ser um livro tão meigo e doce (pelas abelhas heheh), parece ser um livro que nos faz suspirar, seja por coisa boa ou não. Sua resenha ficou linda e já quero ele <3

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  11. Que resenha maravilhosa.
    Parabéns Layla, a forma que você expressa como se sentiu ao ler o livro é realmente incrível. Quando li a sinopse não fiquei muito convencida de que "Tudo que deixamos para trás" seria um livro de meu interesse. Mas a sua experiência me convenceu do contrário. Apesar de eu não ser fã de distopias, sou uma grande adoradora de dramas. Pelas suas palavras esse é o tipo de leitura que busco, cheia de emoções e transformadora.
    Gostei muito, espero um dia ler esta obra.

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  12. Oi, Layla!!
    Adorei a indicação desse livro, acho que nunca li nenhum livro que falasse sobre o desaparecimento da abelhas e só por causa já fiquei bem curiosa!! Amei a capa e super fofa!!
    Bjos

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  13. Oi,
    Eu adoro distopias, e essa já entrou para a minha lista de leitura. É um assunto muito atual poque realmente as abelhas estão desaparecendo. Eu também gosto muito quando os pontos de vista são interligados deixa a leitura mais acelerada.

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  14. Layla!
    O livro parece muito bom.
    Distopia em três épocas diferentes.,uauuu. E ainda misturada com drama, deve ser ótimo.
    Escravos mecânicos é um termo bem empregado.
    O que será do mundo sem as abelhas?
    Bom ver uma distopia diferente e que fala sobre a extinção de uma espécie.
    Simplicidade é o segredo.
    Fiquei curiosa.
    Desejo um final de semana esplendoroso e um mês mais que abençoado!!
    “Acredite em si próprio e chegará um dia em que os outros não terão outra escolha senão acreditar com você.” (Cynthia Kersey)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA FEVEREIRO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!

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  15. Olá Laila, tudo bem?
    Já tive duas experiências de leitura com a editora Morro Branco e apreciei muito. As edições são mesmo muito bem feitas, com marcadores e tudo. E parece que só publicam livros bons.
    Quanto a este, apesar de nunca ter me perdido quando criança, eu tinha este medo. Ficava em pânico quando perdia minha mãe de vista em locais públicos! Ainda hoje, quando dirigindo, tenho ainda medo de me perder e não conseguir voltar!
    Gosto muito de livros que ligam períodos de tempo diferentes, temos a impressão de que viajamos entre as épocas. E a conexão entre as personagens parece ser muito bem construída, fiquei bastante interessada em conferir.
    Uma união que parece também promissora é a da distopia aliada ao drama, que mostra a situação das abelhas de forma diferente. Fiquei super curiosa para ler e voltar a ser criança, com a promessa de me encontrar no final do livro! Parabéns pela resenha, fiquei contente de conhecer mais este livro da editora!

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  16. Olá Layla,
    Gostei da sua resenha e do jeito que vc descreveu o livro, mas não é uma leitura que eu planejo fazer.
    Também não sou fã de abelhas e mesmo que o livro não se torna chato pelo fatos dos personagens falarem sobre elas não é algo que eu busco ao ler um livro.
    Ainda assim gostei da capa e gostei do fato do livro vim com marcador. Acho que todos os livros deviam vim com eles

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  17. A trama do livro e interessante, principalmente por intercala passado, presente, e futuro em torno de um mesmo assunto que são as abelhas, além do misto de emoção que transporta aos leitores, fazendo com que nos sentimos uma criança perdida, sentindo certa angustia. Porém ao ler sua resenha não me senti atraída pela leitura, muito pelo contrario, ao meu ver não é o tipo de história que me cativa ou me chama a atenção, quem sabe futuramente dou uma chance a leitura.

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  18. Olá, só pela resenha já consigo enxergar a genialidade da obra, que possui um tom poético. A autora consegue envolver o leitor por meio dessas storylines que se conectam, de modo a juntar todas as peças para um final coerente e marcante. Beijos.

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  19. Oi Layla!
    Confesso que fiquei meio perdida lendo a resenha, pelo visto o foco não são as abelhas e sim esses dramas familiares, e o que mais me interessa é descobrir como essas três histórias se interligam. Foge bastante dos livros que costumo ler, e talvez por isso eu não consiga enxergar tanta genialidade no enredo, não que eu tenha achado ruim, só não me conectei tanto lendo a resenha. Coloquei na lista de leituras, a melhor forma de formar uma opinião concreta será lendo, e é o que pretendo fazer para enxergar os pontos que citou.
    Beijos

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  20. Boa Noite!! Me apaixonei logo de cara por essa história que parece ser linda!
    Ao crescermos nós nos deparamos com problemas na nossa vida que parecem ser frustrantes por não conseguirmos resolver e o medo parece deixar tudo mais complicado do que já é, então essa leitura parece fazer todos nós pensarmos como a vida prega peças sejamos crianças ou não!!Já quero, obrigada!bjo

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