VULGO GRACE

SINOPSE: Inspirado num caso real, Vulgo Grace conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão e a governanta da casa onde trabalhava, na Toronto do século XIX. Com uma narrativa repleta de sutilezas que revelam um pouco da personalidade e do passado da personagem, estimulando o leitor a formar sua própria opinião sobre ela, Atwood guarda as respostas definitivas para o fim. Afinal, o que teria levado Grace Marks a cometer o crime? Ou será que ela estaria sendo vitima de uma injustiça? - Margaret ATWOOD - Editora ROCCO - 2017 - 511 páginas.

VULGO GRACE me chamou atenção logo de cara por ser mais um livro da Margaret Atwood, que me ganhou fácil com o seu outro romance, O CONTO DA AIA. Minha vontade de ler aumentou ainda mais ao descobrir que teria uma adaptação em forma de minissérie e me ganhou totalmente ao descobrir que um jovem médico estudioso de doenças mentais entrevistaria a Grace para entender sua história.

Achei que ficaria gamada logo nas primeiras páginas, mas isso não aconteceu. O livro é uma ficção baseada em uma história real e nele temos contato com Grace Marks, que, com apenas 16 anos, foi acusada, junto com James McDermott, de assassinar seu patrão, Thomas Kinner, e a governanta da casa e amante de de Thomas, Nancy Montgomery. Os dois foram descobertos e presos alguns dias depois, enquanto fugiam para os Estados Unidos. Foram condenados à morte, mas desde o início as opiniões sobre a participação de Grace ficaram divididas. Isso porque ela era uma garota bonita e também muito jovem e, graças ao seu advogado e de um grupo de cavalheiros que fizeram petições a seu favor, usando como argumento a fraqueza dos sexo feminino e sua suporta estupidez, sua sentença foi mudada para prisão perpétua.

A história narrada por Atwood se passa anos depois da sentença de Grace e possui como ponto chave a vinda do Dr. Simon Jordan, que começa a fazer sessões com a garota para que possa fazer um parecer sobre a sua saúde mental, isso a pedido de um grupo de pessoas que acreditam na inocência de Grace e lutam para que ela consiga o perdão e seja solta. É que Grace alega, desde seu julgamento, que não possui nenhuma lembrança dos assassinatos e, devido a época, a garota se tornou uma grande incógnita para as pessoas, já que elas não conseguiam entender a ambiguidade dela: como podia uma garota tão bonita e casta ser a mente de um crime? Seria ela apenas uma vítima das ameaças de McDermott?

E é exatamente essa dúvida que percorre o livro inteiro. Como um telefone sem fio, junto com o desespero da imprensa de contar o maior "bafáfá" da época, várias versões dos acontecimentos foram divulgados, a maior era a mais sensacionalista (coisa que acontece até hoje). A própria Grace deu três relatos diferentes e, depois de tanta coisa sendo dita sobre ela, ela mesma já não sabia o que era real e o que era falso.
"Penso em tudo que foi escrito a meu respeito - que sou um demônio desumano, uma vítima inocente de um canalha, forçada contra a minha vontade e com a própria vida em risco, que eu era ignorante demais para saber como agir e que me enforcar seria um crime judiciário, que eu gosto de animais, que sou muito bonita, com uma pele radiante, que tenho olhos azuis, que tenho olhos verdes, que meus cabelos são ruivos e também que são castanhos, que sou alta e também de estatura mediana, que me visto com propriedade e decência, que para isso roubei de uma mulher morta, que sou ligeira e esperta em meu trabalho, que tenho má índole e um temperamento genioso, que tenho a aparência de uma pessoa acima da minha humilde condição social, que sou uma pessoa dócil, de natureza afável, de quem nunca ninguém se queixou, que sou astuta e insidiosa, que sou fraca da cabeça, quase uma retardada. E eu me pergunto: como posso ser todas essas coisas distintas ao mesmo tempo?"
Diferente de O CONTO DA AIA, em que a autora discute e mostra uma sociedade em um futuro próximo, onde mulheres perdem todos os seus direitos civis e sua liberdade, em VULGO GRACE, o que nos é mostrado é uma sociedade no passado e real, onde exatamente a mesma coisa acontecia. As mulheres não tinham total controle sobre o que faziam com suas vidas e seus corpos e eram rodeadas de assédios e abusos, o que, sinceramente, não mudou tanto quanto deveria desde o século XIX.

Particularmente, independente de Grace ter ou não planejado e/ou executado os crimes, eu acredito que todos os infortúnios da vida dela não são exatamente sua culpa. Quase nenhum, na verdade. Como ela mesma diz em um momento do livro: "...a culpa vem para você não das coisas que você faz, mas das coisas que os outros fizeram com você."

Desde muito jovem, ela teve que passar por momentos terríveis com seu pai violento e abusador e ver sua mãe sofrendo com isso e ela mesma depois da morte da mesma. No seu primeiro trabalho, ela teve que ver sua melhor amiga, Mary Whitney, ser abusada e deixada de lado quando ficou grávida, e logo depois veio Nancy, que apesar de estar de acordo em ser amante de Kinnear, era uma relação baseada no poder que ele tinha com ela, sendo seu patrão. A Grace mesma era assediada por ele. 

Acredito que o seu fim aconteceu simplesmente porque cada pequena coisa que aconteceu em sua vida, a afetou de modo que quando a oportunidade de se vingar de toda a raiva contida dentro dela veio, ela simplesmente a agarrou. Ou não, pode ser que depois de tantos traumas, ela não tinha mais como lutar com isso e acabou sendo mesmo uma vítima de McDermott. A verdade, infelizmente, nunca nos será dita.

A história de Grace é um enigma até hoje e a autora não tem nenhuma intenção de criar respostas que tanto queremos. Claro, ela preencheu lacunas que apareciam em registros oficiais e se sentiu livre para inventar. Gosto de ver o livro de Atwood como uma reconstrução da vida de Grace, levando em consideração o que seria mais plausível de ter acontecido. É até meio difícil lembrar que o que você está lendo é ficção. A autora consegue construir uma narrativa tão verossímil que assusta.

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Aline Lanis

Amante das palavras e de histórias. Futura psicóloga que quando não tá lendo textos teóricos gigantes e/ou fazendo trabalhos cabulosos, se entope de café e lê livros variados em literalmente qualquer lugar que seja possível. Alguns outros vícios incluem: séries sobre a vida comum, Hora de Aventura e gatos.

15 COMENTÁRIOS

  1. Ao ler sua ótima resenha lembrei logo de Dom Casmurro. Não pela história que são completamente diferentes mas pela forma como os autores não dão uma resposta clara quanto aos questionamentos dos livros. Deixando ao cargo do leitor interpretar os fatos à sua maneira.
    Gostei muito da escrita da Margareth em O Conto da Aia e com certeza quero ler Vulgo Grace para saber se acharei Grace culpada ou inocente

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  2. Ruim quando a gente espera algo de algum autor ou autora que já conhecemos e isso não acaba se tornando uma experiência das melhores,mas também, não das piores.
    Ganhei este livro recentemente em um outro blog que acompanho e está entre as minhas leituras mais desejadas. Mesmo não conhecendo o trabalho da autora ainda, sei o quanto a moça é respeitada no mundo das letras e O Conto de Aia ainda é um dos livros favoritos de muitos leitores.
    Mesmo com essa falta de algumas respostas, não vejo a hora de poder ler o meu!
    Beijo

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  3. Oi, Aline.

    Bom, o livro com esse ar investigativo, traz uma certa 'confusão' ao leitor, por acreditar ou não na inocência da Grace, ao longo da história.

    No caso da Grace, a beleza serviu (ou não) para esconder um outro lado sombrio dela.

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  4. Esse só consegui ver série ainda. Também gostei muito daquele outro livro dela e deu vontade de ler esse por isso e também pela série que lançaram, mas só consegui assistir até agora. Parece que a trama ficou bem fiel. E nossa, o livro deixa a mesma confusão que a série, se a menina fez ou não essas coisas. Confesso que no fim fiquei muito confusa ao assistir e deu vontade de ler pra ver se entendia aquele final, se aí mostrava mais. Não sei se iria adiantar muito, mas o livro parece passar mais das questões da época, dos pensamentos dela e como isso faz a gente pensar e refletir sobre umas coisas também. É um que quero ler.

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  5. Oi Aline!
    O conto da Aia está na lista de próximas leituras e também pretendo ver a série. Creio que o sucesso de “Vulgo Grace” seja por mostrar aquilo que foi (ou podemos dizer, ainda é) realidade, os fatos narrados além de ser de uma história real, são colocados para mexer com o leitor, e pelo que li do livro foi exatamente isso que aconteceu. Deve ser interessante ler os capítulos narrados por Grace e tentar entender um pouco do que ela passou e o que a levou a cometer o crime.. Gostei da resenha, cita tudo o que a história contém de relevante, e nos faz desejar ler.
    Beijos

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  6. Sou simplesmente apaixonada nesse livro antes mesmo de ler. Sou extremamente curiosa com o caso (e com histórias do tipo), fico fascinada e me apaixono fácil. Talvez esse seja um erro, porque assim como você, posso estar depositando tanta confiança que posso me decepcionar um pouco com a história (ou com a forma dela ser descrita).

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  7. Aline!
    Após o sucesso do livro anterior dela, não esperava nada menos que sucesso nesse também.
    Amo histórias ambientadas no século XIX e quando mostram a força de suas protagonistas, ainda melhor.
    A autora sempre com temas polêmicos.
    Quero ler.
    Uma semaninha plena de amor no coração!
    “Eu escolho um homem que não duvide de minha coragem, que não me acredite inocente, que tenha a coragem de me tratar como uma mulher.” (Anaïs Nin)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA FEVEREIRO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  8. Olá Aline td bem?
    Que historia mais intrigante e interesante. Li toda a resenha e fiquei doida para ler o livro. Meio que já ouvi falar da miniserie e parece ser muito boa.
    Sobre o final do livro, como assim não dá respostas? As vezes tenho raiva de escritores assim, mas ao mesmo tempo amo de mais kkkkk Acabei de ler Desventuras em Série e o final é de deixar vc ainda mais confusa.
    Já quero o livro e este sim é um que com certeza vou ler.

    http://garotaeraumavez.blogspot.com.br/

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  9. Oi Aline!
    Não conheço livros da autora, mas pelo que acompanho a escrita é ótima, qro um dia conseguir conhecer obras dela como está, que tbm se encontra na imensa listinha...
    Bjs!

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  10. Olá, a autora conseguiu fundir os fatos históricos e fictícios de maneira a tornar impossível diferenciá-los, o que prova que Atwood fez uma pesquisa minuciosa sobre o caso para compor a narrativa. Além disso, é notável que autora faz suas críticas acerca do patriarcalismo, tornando a obra ainda mais interessante. Beijos.

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  11. Patrícia Walléria27 fevereiro, 2018

    Eu até tinha me interessado em ler Vulgo Grace, mas só de saber que a história não foi completamente elucidada perdi o interesse. Não sou muito fã de ponto sem nó. Achei uma pena, já que tinha ouvido falar muito bem sobre a escrita de Margaret Atwood.

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  12. Olá! A história parece ser bem interessante, gosto quando o autor consegue mesclar a ficção com a realidade de tal maneira que praticamente nem sentimos a diferença. Mas acho que sentirei falta de uma conclusão, do que te fato aconteceu, só conferindo mesmo para saber se sim.

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  13. Não sabia que era baseado numa história real, eu assisti a série e adorei. Já li O Conto da Aia dessa autora e gostei bastante da escrita, pretendo ler Vulgo Grace em breve!

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  14. Boa Noite!
    Eu não leria esse livro, eu já vi que tem série baseada nele na netflix, e a história apesar de trazer um suspense não me fez criar expectativas de que o livro va prender a minha atenção com os fatos que acontecem ao longo da historia e ainda mais que o leitor deixa uma interrogação no final, odeio quando deixam perguntas a serem esclarecidas!
    Mas valeu, bjos!

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  15. Oi, Aline!
    Até o momento só assisti a adaptação para série desse livro pela Netflix, e devo confessar que a história é interessante mas ao mesmo tempo confusa!! Pois, nada fica claro, existe mais perguntas do que respostas na série.
    Bjoss

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