A LIVRARIA

SINOPSE: O livro que deu origem ao filme estrelado por Emily Mortimer, de A ilha do medo, e Patricia Clarkson, de House of Cards Florence Green, uma viúva de meia-idade, decide abrir uma livraria — a única — na pequena Hardborough, uma cidade costeira no interior da Inglaterra. Florence não esperava, contudo, que seu projeto pudesse transformar Hardborough em um campo de batalha: enquanto a influente e ambiciosa Violet Gamart, que tinha outros planos para a centenária casa que ela escolheu como sede, faz de Florence sua inimiga, a empreendedora também conquista um aliado na figura do excêntrico Sr. Brundish. Na história de Florence Green enfrentando a cortês mas implacável oposição local, vê-se a denúncia de uma estrutura de privilégios apoiada em invejas e crueldades, e, no microcosmo de Hardborough, Penelope Fitzgerald monta um cenário repleto de detalhes precisos e personagens atemporais - Penelope FITZGERALD - Editora BERTRAND - 2018 - 160 páginas.

Penelope Fitzgerald é uma autora inglesa que viveu entre 1916 e 2000, faleceu aos oitenta e quatro anos de idade, e, hoje em dia, faz parte da lista dos maiores escritores de todos os tempos. Em 1978, ela escreveu A LIVRARIA, uma novela sobre o comportamento das pessoas inseridas em uma sociedade conservadora e egoísta, que habita uma pequena cidade do interior do Reino Unido.

Para quem não conhece o gênero novela (não, não é aquilo que passa na Globo), é um termo em desuso que engloba obras literárias. Para você entender melhor, vou trazer um pequeno trecho que Victor F. Gomes, Publisher da editora Morro Branco, enviou para os blogs parceiros e que faz parte de uma iniciativa de trazer obras desse gênero para o Brasil:
“Enquanto no romance a estrutura apresentada é mais lenta e densa, as novelas tendem a ser muito mais econômicas, focando em um evento principal ou um grande conflito, e dando ênfase à história que é contada. Assim, mesmo com um número reduzido de páginas, os autores conseguem estruturar narrativas incríveis, seja nas ideias apresentadas em clássicos como A Revolução dos Bichos ou A Metamorfose, ou na construção dos universos fantásticos de O Pequeno Príncipe e a Máquina do Tempo. No Brasil, a terminologia nunca foi muito utilizada, de modo que as novelas acabam sendo comumente chamadas de romances ou de forma ainda mais simples, livros. Mas nos Estados Unidos, o uso da expressão vem crescendo em importância, especialmente no mundo da Ficção-Científica e Fantasia, com os principais prêmios do gênero, como Nebula, Hugo e Locus, criando categorias específicas para premiarem as principais novelas do ano, e grandes editoras internacionais, como a Tor, criando setores especiais dedicados à categoria.”
Assim, a história de A LIVRARIA pode ser lida de uma só vez, em um par de horas, o que torna a experiência mais densa de acompanhar a trajetória de Florence, uma viúva que deseja abrir uma livraria, a única da cidade, em uma velha mansão, mas que precisa vencer um embate contra Violet, uma mulher rica e influente que tem planos diferentes para a referida mansão.

A escrita de Fitzgerald é uma das coisas mais belas que já li. Em sua narrativa, existe a mistura de um humor negro, junto com uma crítica social ácida, que consegue entregar ao leitor uma mensagem bastante realista de como o ser humano é pomposo, egoísta e cruel. Mais do que isso: Fitzgerald brinca com o destino ao apresentar soluções para que Florence consiga vencer e manter sua livraria, para logo em seguida, destruir tudo com acontecimentos inesperados e que deixam o leitor sem chão.

Além de Florence e Violet, todos os demais personagens, por menos que eles apareçam durante a história, são apresentados e trabalhados de forma tão competente, tão direta, que é impossível o leitor pensar que eles não existam, que não seja uma réplica de alguém que a autora conheceu em algum momento de sua vida. Todos eles possuem características tão distintas, personalidades tão facilmente identificáveis, e tudo feito em tão poucas linhas e com tão pouca participação, que o leitor pode duvidar de que leu tão poucas páginas.

Entre esses personagens, preciso destacar três em especial: Christine, a pequena garota de dez anos de idade, que ajuda Florence na livraria e que se torna a peça chave do sucesso da empreitada, mas que também se torna o seu ponto fraco; o velho Sr. Brundish, o fiel aliado e conselheiro de Florence e o único capaz de enfrentar Violet de igual para igual, mas que o destino se encarrega de tratar; e Milo, o rapaz que passa a trabalhar mais para o fim do livro na livraria e que representa o fato de que amizades que parecem verdadeiras, podem, na verdade, representar a mais pura falsidade e maldade.

Todos os três possuem uma importância fundamental na construção e conclusão da história, todos os três representam o que existe de bom e de ruim nas pessoas, todos os três passam uma mensagem de aprendizado ao leitor, mas não um aprendizado singelo, mas aquele aprendizado que é dado como um tapa no rosto, para não ser esquecido, mesmo que isso cause uma tristeza imensa.

Tristeza. Essa é uma das características das histórias de Fitzgerald. Ela é uma das autoras que menos tem pena dos sentimentos de tristeza que impregna no leitor. Em A LIVRARIA, como em quase toda as suas obras, você vai se deliciar com a narrativa, com os personagens, com a criatividade da história, com os detalhes, sempre tão condensados, mas completos, com a forma como tudo caminha para o clímax... então, de surpresa, Fitzgerald irá apertar seu coração de forma impiedosa, direta, sem qualquer pena, e você irá chorar.

Mas sabem o que é mais incrível? A tristeza, e acreditem, ela é enorme no fim de A LIVRARIA, irá afetar você, mas você não ficará deprimido, eu não fiquei, porque você compreenderá que a vida é exatamente dessa forma, você sentirá que no fim, apesar do que está sentindo, apesar de você estar chorando, você aprendeu algo que não esquecerá para o resto de sua vida. E isso, isso, é o que torna um livro excepcional!

Ah, uma dica importante: existem dez páginas de uma apresentação escrita por David Nicholls, autor de vários best-sellers, que disseca toda a obra de forma muito, muito interessante, explicando vários trechos e contando um pouco da vida da autora, mas essa apresentação está carregada de spoilers, inclusive da conclusão, então não leia antes de terminar o livro. Mas não deixe de ler após, porque é imperdível.

Enfim, A LIVRARIA não é apenas um livro espetacular, é um livro necessário, indispensável, que virou filme e que irá estrear nos cinemas ainda este ano. Então, você, não se atreva a deixar de ler!

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

15 COMENTÁRIOS

  1. Gostei bastante Carl.
    O título do livro é a coisa que chamou a minha atenção. Amooo livrarias. E livros que se passem em livrarias ou que essas sejam o ponto de destaque no livro.
    Já li alguns livros com livraria mas sempre voltados para o romance água com açúcar do que propriamente novelas com uma vibe de tristeza.
    Realmente quase não vemos mas o gênero literário novela no mercado editorial atual.
    Com cerreza entrará para minhá Wishlist.

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  2. Engraçado que eu estava de olho no filme e me esqueci completamente do livro :/
    E a primeira coisa que fiz, foi colocar o benedito na lista de desejados. Li a crítica do filme e claro, que não vejo a hora de poder conferir a estória!
    Confesso que também não sabia deste termo "novela",mas gostei muito da explicação.
    Gosto quando um autor ou autora, conseguem inserir todo o elenco no cenário, como peças de um grande quebra cabeças, cada personagem com sua importância, ainda mais neste caso, por ser um livro bem curto.
    Com certeza, lerei!
    Beijo

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  3. Oi, Carl.

    Eu imagino que com certeza, a Florence enfrentou muitas dificuldades, principalmente por ser uma inovação para a população... E por eles não digerirem bem essa ideia, enfrentou represálias.

    Além de ter que enfrentar e bater de frente com uma rival.

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  4. Parece bem interessante esse livro e já chama atenção pela coisa toda da livraria. Quem gosta de ler já tem um gatilho de curiosidade com isso. Mas achei legal que tenha aí uma discussão social no meio disso tudo, de como as pessoas são pomposas e cruéis como disse. Isso chamou minha atenção e deu vontade de entender como os personagens passam isso. E nossa, do jeito que falou da tristeza que ela deixa na gente e as coisas da vida e tudo que dá pra aprender com isso chamou foi mais atenção ainda. Livro que mexe com a gente assim é dos melhores tipos. Fica grudado no coração. Esses sim são os livros que mais amo ler. Agora deu vontade de conhecer esse ^^

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  5. Oi Carl.
    Adorei a premissa de A livraria e achei bem interessante ela ser escrita na forma de novela.
    Gosto bastante de leituras tristes, com humor ácido e sarcástico sobre a sociedade, que mostra o lado bom e ruim das pessoas. Sempre aprendemos algo com esse tipo de leitura.
    Obrigada pela observação sobre o texto de apresentação do David Nicolls. Odeio pegar spoilers, acho que estraga a experiência da leitura.
    Beijos

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  6. Carl!
    Bom ver que os conceitos literários estão de volta, como as novelas. Logo que comecei no blog, quando falava que o livro era uma novela, as pessoas ficavam atônitas e não entendiam, acabei deixando de usar o termo. Acredito que agora é hora de voltar a usá-lo...
    Quanto ao livro, mostra a realidade através da história do livro, pode realmente ser triste e até de certa forma avassaladora, mas é bem como o cotidiano que vivemos: intrigas, críticas, o mais forte usando seu poder de domínio contra os mais fracos, domínio e submissão da sociedade.
    Deve ser um livro rico.
    “Não acredite em tudo que ouvires! Há mentiras que sempre serão ditas, e verdades que jamais serão pronunciadas...” (Eliane Azevedo)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  7. Oi Carl!
    Primeira resenha que leio sobre o livro, tinha lido sobre o filme e adorei, espero ter uma chance de ler o livro antes do filme...Parece mto bom!
    Bjs!

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  8. Olá!
    Nunca li um livro com esse gênero, parece muito bom! O fato de se passar em uma livraria chama muito a atenção de nós, leitores. Com certeza esse livro agora está nos meus desejados!
    bjs!

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  9. gente eu engasguei quando li isso:gênero novela (não, não é aquilo que passa na Globo)ri demais não sabia deste gênero, vou tentar comprar e ler o livro antes de assistir a adaptação amei o titulo

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  10. Olá, só fico triste pelo fato do livro ser curtinho, pois o conteúdo aparenta ser espetacular. Em poucas páginas a autora dá um show de escrita, mostrando o primitivismo egoísta que habita no ser humano. Espero poder ler antes da estreia da adaptação. Beijos.

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  11. Ooi, nunca li, nem ouvi falar, mas parece ser muito boom! Nunca nem li nada do gênero novela...

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  12. Olá! Fiquei bem curiosa para conhecer a escrita dessa autora, acho muito legal que ela consiga fazer com a que a história pareça bem real, e que apesar da tristeza que ela nos proporcionará, ainda ficará aquele sentimento de lição aprendida.

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  13. Eu me lembro de ter me interessado muito pelo filme logo que ele entrou em pré-venda mas eu não sabia que ele teve uma adaptação para o cinema mas achei isso bem interessante

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  14. Já li boas opiniões sobre este livro e já o tive por várias vezes nas mãos, mas nunca o trouxe para casa. As pilhas de livros não lidos em casa à espera, obrigam-me a isso, agora que terminei de ler a resenha me sinto completamente idiota de não ter comprado!

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  15. Oi, Carl!!
    O livro parece ser um daquelas histórias bem interessante que nos deixa curiosas e ao mesmo tempo temerosas para saber o que vai acontecer no decorrer do livro. Amei a indicação!!
    Bjoss

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