O PAPEL DE PAREDE AMARELO

SINOPSE: Uma mulher fragilizada emocionalmente é internada pelo marido em uma espécie de retiro terapêutico, onde se instala em um quarto revestido por um obscuro e assustador papel de parede amarelo. Por anos, desde a sua publicação, o livro foi considerado um conto de terror, com diversas adaptações para o cinema. No entanto, devido à trajetória da autora e as novas releituras, é hoje considerado um relato pungente sobre o processo de enlouquecimento de uma mulher devido à maneira infantilizada e machista com que era tratada pela família e pela sociedade - Charlotte Perkins GILMAN - Editora JOSÉ OLYMPIO - 2016 - 112 páginas.

O PAPEL DE PAREDE AMARELO é um conto escrito no final do século XIX que causou, inicialmente, bastante desconforto em seus leitores, chegando a ser considerado parte do gênero terror. Quando o movimento feminista ganhou força, este conto teve seu valor reconhecido e tornou-se um clássico da literatura feminista por retratar o machismo predominante na sociedade da época.

Nessa obra, conhecemos uma protagonista com problemas psicológicos que é diagnosticada por seu médico e marido, John, com depressão nervosa temporária. Antigamente, era muito comum dizer que as mulheres estavam "doentes dos nervos" ao menor sinal de estresse. A histeria era considerada comum nesse sexo, já que as mulheres eram vistas como mais frágeis e suscetíveis. Dessa forma, tanto John, quanto o irmão da narradora, que também era um médico de grande renome, convencem todos os seus conhecidos de que é somente uma crise de histeria passageira. A narrativa é em primeira pessoa e, assim, o leitor acompanha todas as opiniões da protagonista sobre o que está acontecendo. Inicialmente, ela não concorda com o que o marido diz sobre sua saúde, mas se sente impotente diante da situação e obedece ao que lhe é orientado.
"Se um médico de renome, que vem a ser seu próprio marido, assegura aos amigos e parentes que não se passa nada de grave, que se trata apenas de uma depressão nervosa passageira - uma ligeira propensão à histeria - o que se pode fazer?"
John leva a esposa para uma casa de campo afastada da cidade a fim de que ela fique lá até se curar, vivendo em meio à natureza e respirando ar puro. Nessa casa, ela fica num quarto grande com várias janelas e um papel de parede amarelo horrível. A partir daí, somos conduzidos pelo dia a dia daquelas pessoas através dos relatos da narradora. A mesma se sente fraca e fatigada, se sente mal por não cumprir com seus deveres de mulher e se considera um fardo para o marido, pois vê todas as atitudes controladoras dele, como forma de cuidado e ternura para com ela. É induzida a concordar com tudo que John diz, sendo cada vez mais oprimida (de forma "carinhosa") por ele. Trancafiada em seu quarto, ela observa as paisagens através das janelas e se entrega à divagações, e também ao papel de parede amarelo e suas formas. Os padrões do papel vão se tornando cada vez mais assustadores na mente perturbada e doente, e nós acompanhamos o enlouquecimento da personagem do seu próprio ponto de vista, vendo suas ideias desconexas e seus devaneios.

Ao longo da leitura, fica muito evidente como as ideias e opiniões da protagonista são menosprezadas por todos, sendo o marido, o patriarca que controla tudo e todos à sua volta. Isso me incomodou bastante, porque a personagem não tem voz, tudo que ela pede ou diz é rebatido com algum argumento "esperto" de John. Então, para ler este livro, devemos estar com a mente aberta para entender como tudo funcionava na época (e ainda acontece, infelizmente, em alguns lares nos dias de hoje). O conto narra de forma muito astuta a relação entre marido e mulher, mostrando a submissão feminina aos comandos, supostamente protetores, do marido e a impotência da mulher diante da autoridade da figura masculina.

A obra tem uma narrativa curta, fluída, com capítulos curtos e, dessa forma, a leitura é muito rápida. Por outro lado, ela pode ser perturbadora devido aos sentimentos que desperta. A escrita de Gilman lembra um diário, como se ela conversasse conosco, então nos conectamos com a personagem e tentamos entender tudo que se passa em sua cabeça. É um livro muito inteligente e poderoso que retrata coisas simples, porém, com enorme carga de significados. Indico a leitura a todos, tanto homens quanto mulheres.

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Sara

Mineira, bookaholic e futura fisioterapeuta. Sou apaixonada pela vida e por tudo que ela nos oferece. Ler, viajar, conversar, dançar, comer e dormir são algumas das coisas que mais amo.

32 COMENTÁRIOS

  1. Quando fazemos a leitura de uma obra literária, especialmente as baseadas em fatos reais, do século XIX temos que lembrar a todo momento qual era ou não o papel da mulher na sociedade.
    Pela sua ótima resenha Papel de Parede Amarelo parece ser uma obra impactante que reflete de forma cruel como eram tratadas não só as mulheres mas também as doenças e transtornos psicológicos.
    O livro acaba de ser adicionado à lista de desejados.

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    1. Oi, Chelle. Com certeza, não dá para compararmos com a atualidade, apesar de algumas coisas permanecerem similares. Que bom que achou a resenha ótima, fico feliz! =D A obra tem grande impacto sobre nós mulheres, nos colocamos no lugar da personagem e relembramos outras formas de machismo que nós mesmas já vivemos. Espero que goste. Beijos.

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  2. Oi, Sara.

    Realmente, o tema retratado é algo atual, bem realístico. E diante de toda a situação, é impressionante como um simples papel de parede amarelo pode revirar a mente da esposa.

    Acredito eu que, com o enlouquecimento da personagem, seu marido, teve mais total controle sobre ela.

    E podemos ver também, como muitas mulheres se sentiam naquela época, não impondo sua voz... Simplesmente se submetendo ao seu marido.

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    1. Oi, Daiane. Apesar de ser um livro do século XIX, conseguimos ver situações que ainda ocorrem na atualidade. No livro, o marido não é autoritário, pelo contrário, controla a esposa através de sugestões carinhosas e ela vê tudo como cuidado dele para com ela... Como vemos tudo do ponto de vista dela, à partir do momento que sua saúde mental já está bem comprometida, o marido é menos citado, pois ela foca tudo no papel de parede. Então, não sabemos se o marido tem mais controle sobre ela ou não. Infelizmente muitas mulheres ainda se sentem assim, sem voz... Beijos.

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  3. Primeira resenha que leio deste livro e já quero muito conhecer a obra.
    Até que ponto há loucura ou apenas submissão?
    É possível enlouquecer alguém só sendo esperto e usando da fragilidade desta pessoa?
    Antigamente as coisas funcionavam assim, um mandava, a outra obedecia. E sim, infelizmente ainda há casos assim hoje em dia.
    Já vai para a lista de desejados com certeza!
    Beijo

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    1. Olá. Acredito que com a submissão excessiva, ainda mais como era nos séculos anteriores, a saúde mental vai se deteriorando e a "loucura" toma espaço. No passado, todo o contexto social que inferiorizava a mulher fazia uma lavagem cerebral nelas, ao ponto de acharem que eram obrigadas àquilo e não tinham saída... Então, acredito que não era nada difícil manipular algumas delas. Espero que goste da leitura. Beijos.

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  4. Está na minha lista de leitura, mas acaba de subir para primeira posição! =)

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    1. Oi, Bia. Que bacana! Espero que goste. Beijos.

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  5. Olá Sara!
    Segunda resenha que leio sobre esse livro,o enredo é bom e pelo que tenho acompanhado os leitores gostaram da leitura, eu qro mto uma oportunidade de conhecer .
    Bjs!

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    1. Oi, Aline. Vale a pena ler! Espero que goste. Beijos.

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  6. Acho que eu ia passar muita raiva ao ler esse livro. Mas achei interessante como mostra de uma forma tão severa como a mulher não tinha voz alguma. Os absurdos disso tudo. Ter uma marido que controla tudo que você diz ou faz, que não valoriza sua opinião e ver que os outros ao redor tratam da mesma forma é horrível. Seria um terror de ler pra mim, mas acho que iria gostar exatamente por como passa esse sentimento de impotência da protagonista.

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    1. Oi, Cristiane. Em algumas partes eu senti raiva sim kkkkkkkkkkk, mas sempre tentava manter em mente a época em que foi escrito. Infelizmente, a cultura machista perdura há séculos... Muitas mulheres ainda passam por isso de forma velada. É uma leitura "incômoda" por mostrar uma realidade diferente da nossa, mas vale a pena. Beijos.

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  7. Esse é sem duvidas meu gênero literário favorito,amo thriller e adorei a resenha,nunca tinha visto falar nesse livro, fiquei curiosa pra saber o fim da jornada de John e sua esposa que quero saber o nome,não vi na resenha...

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    1. Oi, Paola. O livro não é um thriller, é um relato da autora que viveu no século XIX. Que bom que gostou da resenha. =) A protagonista não tem um nome na história, o que é mais uma metáfora brilhante da autora. Beijos.

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  8. Eu achei esse conto sensacional, especialmente o final.

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    1. Olá! Que bom que gostou! A obra é muito bacana. Beijos.

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  9. Sara!
    29 de abril de 2016 12:07
    Manu querida!
    O livro me parece um daqueles onde devemos agradecer por viver no século XXI, porque não sei como lidaria com essa história de nem poder expor meus pensamentos porque o homem é quem manda...kkkk
    Adoro suas análises sempre bem concisas e conscientes.
    Bom domingo de luz e paz!
    “Não acredite em tudo que ouvires! Há mentiras que sempre serão ditas, e verdades que jamais serão pronunciadas...” (Eliane Azevedo)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MARÇO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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    1. Oi, Rudynalva. Com certeza era uma época difícil, também acho que não conseguiria viver assim. Obrigada, fico feliz que gosta. =) Beijos.

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  10. Olá, o leitor percebe o quanto um livro é necessário quando seu conteúdo reflete a sociedade vigente. É notório que a obra visa deixar-nos conscientes quanto ao forte patriarcalismo que vigorou por muito tempo. Contudo, o sentimento de que essa opressão ainda ocorre faz com que o leitor reflita sobre a disparidade no que se refere ao gênero. Beijos.

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    1. Oi, Alison. Com certeza! Infelizmente, muitas pessoas ainda vivem a realidade do livro. Beijos.

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  11. Oi Sara.
    Esse livro parece ser fantástico.
    Uma história escrito a tanto tempo, mas que ainda é atual nos dias de hoje (infelizmente).
    Acho que há muitas mulheres que ainda confundem esse controle obsessivo do marido como carinho ou amor.
    Já vai para a lista de desejados.
    Beijos

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    1. Oi, Pamela. É um livro muito bom, importante para a reflexão. Com certeza, o que é muito triste. Espero que goste. Beijos.

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  12. Olá! Incrível saber que o livro foi escrito há algum tempo, mas ainda assim retrata uma realidade não muito longe da nossa, ainda que em circunstâncias diferentes. Só pela resenha já me senti angustiada e revoltada com tudo o que a protagonista teve que passar. Sem dúvida é uma leitura obrigatória.

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    1. Oi, Elizete. De certa forma, é um livro atual. Vale a pena ler! Beijos.

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  13. Ooi, nunca tinha ouvido falar, primeira resenha que vejo, parece ser ótimo!

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    1. Oi, Maria. Que bom que gostou. Beijos.

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  14. O que eu mais gostei nesse livro foi o fato de como autora consegue mostrar o trauma que o machismo causou na vida de uma mulher e a que ponto chega essa situação então eu realmente fiquei bem surpresa com isso e parece ser ótimo apesar de ser a primeira resenha que eu vejo sobre esse livro

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    1. Oi, Carolina. Concordo plenamente! O livro retrata de forma íntima o impacto do machismo na vida de uma mulher. Vale a pena ler. Beijos.

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  15. Eu sou apaixonada por contos! Mas confesso que não conhecia este.
    E só de ler, já quis muito. O título já intriga, daí vem uma resenha onde há mais do que se é escrito.
    Mulheres sempre sofreram demais, ainda mais "naquela época", onde as proibições eram ainda maiores.
    Lerei com certeza!
    Beijo

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    1. Oi, Adriana. É um livro clássico/referência, mas muitos não conhecem. Mulheres sempre foram vistas como inferiores e incapazes, aos poucos estamos mudando isso hahaha. Boa leitura, espero que goste. Beijos.

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  16. Oi, Sara!!
    Gostei da premissa da história e mesmo sendo um conto escrito no final do século XIX, vemos como as mulheres eram retratadas como seres frágeis e que eram suscetíveis a terem das "doentes dos nervos", e acho importante essa leitura desse conto para todos.
    Bjos

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    1. Oi, Marta. É um livro bem reflexivo, nos mostra uma mente frágil atormentada pela forma como é tratada por todos. Todos deveriam ler. Beijos.

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