JUSTIN

SINOPSE: Quando o professor de Educação Física pede para a turma formar uma equipe de meninas e uma de meninos, Justine permanece no meio. Ela sente que não pertence ao gênero que lhe foi atribuído, mas está convencida de que todo mundo sabe disso, exceto seus pais. Ao longo de sua vida como criança, adolescente e jovem adulta, muitas vezes maltratada e incompreendida, Justine, por fim, compromete-se a viver como quem ele sempre foi, isto é, Justin - Anne-Charlotte GAUTHIER - Editora NEMO - 2018 - 104 páginas.

A França, em 2010, foi o primeiro país a retirar a transexualidade, gênero oposto ao designado no nascimento, da lista de transtornos mentais. Em 2013, a OMS fez o mesmo. Ou seja, se não é uma doença agora, nunca foi uma doença. Na obra de Gauthier, Justine, a personagem principal, é um garoto que nasceu no corpo de uma garota, só que em 1983, quando a transexualidade ainda era considerada uma doença.

Os desenhos da autora são todos em preto e branco, sem tons intermediários, com traços simples, sem muitos detalhes ou cenários de fundo além dos necessários para estabelecer a localização. O roteiro é enxuto, não dá voltas e nem se estende além da mensagem principal. Na verdade, ele é tão direto, que, por vezes, pode assustar nos diálogos dos personagens. Acredito que essa tenha sido a intenção de Gauthier: chocar, dar uma pequena sacudida no leitor, para ele prestar atenção naquilo que a história quer dizer.


Justine recebe os apelidos comuns a quem passa pela mesma situação: maria-homem, sapatão. Ela sofre bullyng na escola, não é compreendida pela mãe, que se recusa a vê-la como menino, e chega a frequentar psicólogos, cujas opiniões apontam para distúrbios de identidade. Conforme cresce, passa pelas fases de tentar se fingir mulher para agradar a família, a sociedade e tentar sofrer menos. Mas o sofrimento aumenta, então ela abraça sua real condição masculina, até que encontra quem lhe explicar o que realmente ela é.

A HQ explica todas as fases que uma pessoa pode enfrentar na mesma situação, inclusive explica a existência de tratamentos hormonais e a cirurgia de reatribuição sexual, que não é uma mudança de sexo, mas uma correção do corpo. É assim que Justine passa a ser Justin, como deveria ter sido desde o seu nascimento.


Gauthier não quer sensibilizar com JUSTIN, ela quer informar, ela quer comunicar ao leitor o que pessoas transexuais podem enfrentar até conseguirem um pouco de aceitação e felicidade. O preconceito, não apenas da sociedade, mas também da família, são os entraves mais difíceis de serem quebrados. Justin passa quase toda a sua vida em busca dessa felicidade, sozinho. Hoje em dia, isso não é mais necessário. Recentemente, passou uma novela que tratava desse mesmo assunto, o que ajudou muitas pessoas na mesma situação a serem aceitas pelas famílias e amigos, ou a terem coragem para se auto-afirmarem, para se darem a conhecer pelo gênero que elas realmente são, e não pelo que o corpo dita.

Uma curiosidade que achei engraçada, é que Justin tinha como referência masculina, Cary Grant, um ator que realmente foi símbolo de homem modelo nas décadas de 1940 a 1960. Entretanto, ele era homossexual não assumido e teve um caso com Randolph Scott, outro famoso ator da época, com quem viveu por mais de doze anos.


JUSTIN é uma HQ que narra uma história baseada em experiências reais da própria Gauthier. Mais do que bonita, a informação que transmite é necessária nos dias de hoje, principalmente para crianças e jovens que podem, ou não, vivenciarem as mesmas dificuldades, ou possuírem perguntas que não têm coragem de fazer. É o tipo de gibi que deveria ser distribuído nas escolas, ou passado de mão em mão, para disseminar o máximo possível tudo o que ele ensina.

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

15 COMENTÁRIOS

  1. As HQ's e GN que o blog tem trazido sempre tem uma temática importante é que precisa ser discutida mais amplamente.
    Vi hoje Justin em um ig literário mas não tinha detalhes como aqui.
    Gostei que as ilustrações são clean e em P&B.

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  2. Oi, Carl.

    O livro além de abordar um assunto um tanto quanto polêmico, ele é rico em detalhes por justamente relatar esse processo e ser esclarecedor e trazer uma identificação para outras que também sofrem diante da sociedade por não serem aceitas.

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  3. Carl amei!
    O tema escolhido pela autora é perfeito, interessantíssimo abordar um assunto tão delicado e infelizmente vemos acontecer lá fora...
    Adorei, qro conhecer melhor com toda ctz!
    Bjs!

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  4. Sou apaixonada por ilustrações, ainda mais quando elas chegam nessa forma tão doce e com uma lição tão linda, ainda mais nestes tempos de ódio que estamos vivendo!
    Mesmo sendo um gênero que não entendo muito, admiro demais tudo que diz respeito à esta arte.
    E como não conhecia, estou encantada.
    Espero poder ter oportunidade de ler e ter essa obra linda em mãos!!!!
    Beijo

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  5. Carl do céu!
    Eu não conhecia essa HQ, só de ver do que se a trata a história já quero comprar urgente para ler, pois depois que cresci faz muito tempo que não leio HQs e esse é muito lindo que li da sua resenha e trata um assunto que é bastante comentando nos dias atuais. Adoreeeei.

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  6. Gosto de quando um livro ou filme ou série, qualquer coisa do tipo, relata umas questões assim. Hoje em dia é um pouco mais fácil pra quem passa por isso, mesmo ainda tendo tanto preconceito e todas aquelas coisas ruins. Mas ver como é difícil quando nem apoio médico tinham é de entristecer. Bem interessante e atual a autora relatar transexualidade desse jeito e de uma forma mais enxuta, sem tentar sensibilizar muito e informando mais, sem enrolar...achei bom. Que mostre as fases, que fale do bullyng e até da falta de apoio da família e como tudo isso afeta a pessoa é uma coisa que fica com a gente e deixa um aprendizado. Leria fácil.

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  7. Amo HQ's, ainda não conhecia essa. Parece ser uma ótima HQ por abordar um assunto tão polêmico e tão ''comum'' atualmente!! Vou adicionar em minha listinha de desejos haha

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  8. Oi Carl
    Com certeza o HQ nos passa uma bela proposta. Uma ideia que deve ser espalhada pra toda a sociedade. É muito fácil não tentar entender o próximo e seguir em um caminho de ignorância. Livros com essa abordagem devem ser disseminados, para que as crianças não cresçam repleto de preconceitos e as pessoas consigam viver mais em paz.

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  9. Oi Carl.
    Essa graphic novel parece ótima. Aborda um tema bem atual e polêmico, traz informações úteis e gostei bastante dos diálogos.
    As escolas deveriam adotar leituras alternativas, divertidas, para entreter e informar os alunos.
    Fiquei com bastante vontade de ler essa GN.
    Beijos

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  10. Oi!
    Gostei bastante dessa graphic novel, ainda não tinha visto nenhuma graphic novel que falasse sobre esse tema, achei bem interessante a forma que o autora utiliza para falar, pois ele mostra todas as faces até a autoaceitação, quero muito ler esse livro !!

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  11. Assunto polêmico tratado de forma diferente, por meio de uma hq. Não sou de ler quadrinhos, mas gostei dos desenhos da autora e fiquei imaginando como ela colocou a sua própria vida por meio de uma fábula, por assim dizer.

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  12. Oi Carl.
    Achei ótimo o trabalho feito nessa hq, como sou bem leiga no assunto quando comecei a resenha me empolguei porque imaginei que conseguiria entender um pouco mais, mas percebi que na realidade ele mostra algo bem próximo com a realidade que os transexuais vivem em sua dia a dia... Acho que é um livro que todos deveriam ler, é como sempre digo, o seu humano preciso desse choque para entender o outro! Ah, gostei bastante dos traços dos desenhos, só esperava que fossem mais coloridos.
    Beijos

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  13. É um livro interessante com um tema polemico, porém necessàrio para tirar algumas dúvidas. Gostei das ilustrações, bem criativas.

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  14. Amo que temas assim estão conquistando espaço, faz com que o leitor que passa por algo semelhante não se sinta sozinha além de esclarecer dúvidas.

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  15. Oi, Carl!!
    Gostei muito da proposta da HQ, acho muito importante que esse assunto sobre a transexualidade seja abordado de forma de fácil compreensão e realmente as ilustrações são lindas e o texto bem bacana.
    Bjos

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