COM AMOR, SIMON (LIVRO+FILME)

SINOPSE: Simon tem dezesseis anos e é gay, mas ninguém sabe. Sair ou não do armário é um drama que ele prefere deixar para depois. Tudo muda quando Martin, o bobão da escola, descobre uma troca de e-mails entre Simon e um garoto misterioso que se identifica como Blue e que a cada dia faz o coração de Simon bater mais forte. Martin começa a chantageá-lo, e, se Simon não ceder, seu segredo cairá na boca de todos. Pior: sua relação com Blue poderá chegar ao fim, antes mesmo de começar - Becky ALBERTALLI - Editora INTRÍNSECA - 2016 - 272 páginas.

LIVRO

Logo na primeira página, a trama já explode na nossa cara, é literalmente na primeira página mesmo. Vamos fazer igual aqui. Simon está cursando o ensino médio e, assim como os adolescentes nessa fase, ele é cheio de mini-problemas. Sendo um rapaz gay não assumido, Simon se vê em um precipício quando, de repente, começa a ser chantageado por um colega de classe. É na Internet onde os jovens encontram refúgio e também problemas, e com o nosso protagonista acontece exatamente as duas coisas. Simon conversa há meses com um garoto pela Internet anonimamente, única pessoa para o qual consegue se abrir e ser quem realmente é. Porém, depois de deixar seu e-mail acidentalmente aberto no computador da escola, Simon quase entra em colapso. O garoto chantagista pede que Simon o ajude a conquistar uma garota e, em troca, promete nunca divulgar as conversas que ele copiou.

Simon não está pronto para se assumir e sente receio de que caso essas conversas sejam divulgadas num blog da escola, o menino da Internet não queria mais falar com ele. E como se não pudesse piorar, o chantagista quer conquistar uma das melhores amigas de Simon. Como ele poderia ajudar esse escroto a namorar sua amiga? Como falar bem dele? E some isso a todas as inseguranças e medos de um adolescente em fase de descobrimentos, e você terá COM AMOR, SIMON.

O estilo da trama e da escrita lembra obras como SIMPLESMENTE ACONTECE e CIDADES DE PAPEL. Os capítulos são pequenos e alternam entre si: um para a trama principal; e outro para as conversas na Internet com o garoto anônimo. Acompanhamos a vida do protagonista na escola e em casa. No primeiro caso, temos também seu círculo de amizades. São duas meninas e um menino, a trama secundária das meninas disputando um rapaz é pouco interessante e, caso sumisse do livro, não faria muita diferença. Mas, mesmo assim, é apenas uma observação, tal arco não deixa a leitura ruim. O chantagista também recebe um desenvolvimento, tanto que ele age como se não estivesse fazendo nada de errado, ele sente que está apenas pedindo um favor para Simon. Para o leitor, só fica a vontade de dar uns bons tapas na cara desse moleque.

A família do protagonista é bem unida e cheia de manias estranhas, desde ver realitys shows juntos ou fazer uma caça ao tesouro no Facebook alheio. Mesmo tendo pais liberais, Simon não se sente à vontade em se assumir para a família. Ele se questiona a todo o momento, desde atitudes, gostos e desejos. É fácil se identificar com esses dilemas, afinal, como ter certeza de alguma coisa, sendo que você ainda não viveu tal experiência?

Como dito no inicio, o livro se inicia e imediatamente o problema é apresentado para o leitor. Porém depois que a trama é apresentada, quase nada acontece. O livro apenas desenvolve seus personagens e cada arco da historia. É possível sentir que nada está acontecendo, mas a melhor coisa do texto é seu protagonista. Simon é jovem e sabe que é gay, porém vive numa cidade dos Estados Unidos que não é tão amigável com os LGBT. A autora aborda todo esse drama de forma muito real e possível, não querendo aumentar nada e nem dramatizar demais. É possível imaginar tal trama acontecendo com um amigo ou com você mesmo. A historia aborda tudo de forma justa e com muito carinho, não tem nada destacado apenas por ele ser gay, ele é destacado por ser normal, apenas uma pessoa que ama e sente desejos.

Todos nós queremos nos identificar com personagens em filmes, séries e livros, e por isso a representatividade é tão importante. O livro não acerta em cheio apenas com os LGBTs, aborda muito bem os negros. Uma das melhores amigas de Simon, e uma das personagens mais importantes da trama, é uma jovem menina negra e extremamente forte. Quase todos os personagens têm suas peculiaridades e fogem dos padrões impostos pela sociedade. Algo extremamente necessário, já que não somos todos iguais. E tudo isso se encerra num clima muito agradável e otimista. É normal filmes e livros colocarem personagens gays morrendo ou sofrendo no final, mas a conclusão aqui tem a finalidade de nos animar e inspirar. Acima de tudo, acreditar que as coisas podem realmente dar certo.

O antigo título estranho, SIMONS VS A AGENDA HOMO SAPIENS, que a editora alterou por causa do filme, tem seu sentido na trama, e a antiga capa era beleza pura. Um livro delicioso e agradável, perfeito para curar uma ressaca literária.




FILME


Está para nascer um gênero mais manjado do que as comédias românticas. Sejam elas boas, ruins, açucaradas ou azedas, sempre arrastam multidões para os cinemas ou lotam a audiência da Globo quando passam na sessão da tarde. Mas é raro encontrar tais filmes com protagonistas vindo de minorias, como negros, estrangeiros ou LGBTs. COM AMOR, SIMON vem para tentar mudar um pouco esse panorama, já que é um filme de grande porte e alcance, com um gay como protagonista.

A trama adaptada do livro tem praticamente a mesma historia e desfecho, mas seu desenvolvimento nas telonas foi drasticamente mudado. No livro, tínhamos uma estrutura não linear e fragmentada entre a vida de Simon e a vida virtual; já no filme, tudo é feito cronologicamente e apresentado calmamente. Basicamente, tiraram todo o diferencial, pois o livro é realmente familiar e não tem nenhuma grande reviravolta ou desfecho chocante, o atrativo era apenas sua estrutura, e isso, infelizmente, não está no filme. Mas o que torna uma comédia romântica boa? Pessoas bonitas, uma pequena dificuldade que afasta o casal e um final feliz.

Mas será que só isso sustenta todo um filme de quase duas horas? Passagens interessantes e desenvolvimentos mais profundos dos amigos de Simon foram deixados de lado, resultando, assim, em quase um conto de fadas da Disney. Longe de ser ruim, mas um pouco mais de conteúdo não faria mal à produção. O final reserva um momento “vergonha alheia” extremo, em uma sequência envolvendo uma roda gigante. É tão artificial, que se torna fajuto. A trilha sonora é a melhor coisa da produção, contendo clássicos e canções compostas especialmente para o filme. A edição flui bem e o ritmo não é chato, é um filme docinho e agradável de se assistir, mesmo sem muito conteúdo a oferecer.

O protagonista, Nick Robinson, dos filmes TUDO E TODAS AS COISAS e JURASSIC WORLD, demora um pouco até entrar no personagem e trava um pouco em cenas mais intensas, mas num todo, o ator é competente. Katherine Langford, estrela de OS 13 PORQUÊS, tem um desenvolvimento quase nulo, mas tem um dos melhores desempenhos da trama. Seu semblante dramático quase natural ajudam a dar vida a uma jovem triste e com pesados fardos. Alexandra Shipp, a nova Tempestade dos filmes X-Men, emite felicidade e energia, sua personagem é tão legal, que todos queremos ser amigos dela.

É difícil entender os motivos de um roteiro ignorar de forma significativa uma trama que já estava muito bem feita no livro. As novidades criadas para o filme não são muito boas, e o resultado para quem leu pode não ser tão satisfatório. Mas é importante frisar que a essência foi captada e a produção se destaca de muitas outras. É importante para toda uma comunidade, e que isso se torne mais comum, todos queremos nos ver em filmes e em grandes atores. A representatividade está em alta e esperamos que só cresça mais e mais com o tempo.




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Rafael Yagami

Cinéfilo compulsivo, amante de livros e musica. A leitura e os filmes sempre me ensinaram a confiar em mim e ter sonhos grandes e é com isso que me armo todos os dias para lutar pelos meus objetivos.

11 COMENTÁRIOS

  1. Super necessária e importante a discussão levantada com esse livro. Apesar de ainda não ter lido Simon e a Agenda Homo Sapiens só vejo elogios. Gostei muito de saber que as personagens tem suas peculiaridades e fogem dos padrões norte americanos.
    Quanto ao filme sempre tenho uma ressalva quando são baseados em livros, já aceitei que na maioria das vezes não fazem jus ao livro.
    Primeiro quero ler o livro para depois assistir ao filme

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  2. Oi Rafael!
    Eu nem li o livro mas tava querendo muuuuito assistir o filme na expectativa de ser a mesma coisa do livro, mas vendo que eles mudaram o enredo já não tenho tanta certeza se irei ver o filme, acho que só vou ficar no livro mesmo. Acho tão decepcionante quando eles mudam as partes mais importante da história. :/

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  3. Oi, Rafael.

    É um dilema e tanto para o Simon, de repente, possivelmente ter de assumir a sua sexualidade estando não preparado.

    Acho que às vezes, as mudanças nas adaptações dos livros é essencial, mas também pode ser prejudicial.

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  4. Tanto o livro quanto o filme já estão na minha listinha interminável de coisas a serem vistas e lidas. Mas ainda não consegui colocar isso em ordem.
    Apesar de ter sempre um pé atrás com o tema, por já ter lido algumas coisas que não me agradaram, tipo Will e Will, este livro/filme já deu muito o que falar desde seu lançamento.
    Só é ruim saber mais uma vez, que pegam um roteiro bacana na literatura e estragam na adaptação(novidade né?rs)
    Mas ao menos é um filme/livro onde não é o foco só na sexualidade,mas em quem também está ali, à volta.
    Espero poder ler e ver em breve.
    Beijo

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  5. Oi Rafael!
    Pensei que assim como alguns filmes que são adaptados para o cinema este seria um igual ao livro como deveria ser né...Mas que bom saber, agora preciso correr pra ler o livro antes de conferir o filme.
    Bjs!

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  6. Oi Rafael!

    O Simon fisicamente se parece com um amigo meu haha!! Estou muito afim de ver o filme e muito ansiosa para ler o livro. O tema é simplesmente ótimo, este tema é bem polêmico e é muito importante falar dele!! Beijos...

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  7. Ahh esse livro. É bem legal, gostei muito quando li e acompanhar todos esses dramas adolescentes e as descobertas, como o Simon tem que lidar com as coisas da vida dele e esse medo da exposição do chantagista foi de deixar curioso pra ver como terminava. Tá bom que confesso que o livro não é daqueles que te deixa morrendo de ansiedade pra ler, com muitas reviravoltas, mas é um ritmo bom e me passou uma ideia de vida real que gostei bastante. Aquele moleque deu nos nervos mesmo, queria dar uns bons tapas nele pelo que tava fazendo com o Simon. Que atitude! E amei a família dele e até aquele jogo do facebook foi tão doido que adorei xD Um dos detalhes que gostei, uma coisinha estranha e unica. Os amigos e os pequenos dramas, uma coisa que poderia até ter mais desenvolvimento, mas que achei legal o pouco que mostrou. De novo, me passou a sensação de algo de verdade, uma história que consigo ver acontecendo e pessoas que consigo ver existindo. Ainda não vi o filme, mas já vi falar das coisas que mudaram mesmo e olha, até achei a ideia boa. É filme, tem que mudar. Se pegarem a essência da coisa toda e não fazerem algo absurdo de longe do livro fica legal. Tô curiosa com a tal cena de vergonha alheia porque já vi tanta gente falando de uma cena muito estranha ali que acho que vou ver o filme todo esperando por ela xD
    No geral parece bom. É uma história bacana.

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  8. Oi Rafael.
    Eu li o livro faz pouco tempo e achei a história ok.
    Como você disse, o problema é apresentado e depois daquilo parece que nada acontece, além de conhecermos melhor os personagens.
    Adorei os capítulos alternados entre a trama e as mensagens. Foi um diferencial bem interessante e deixou a leitura bem dinâmica.
    Ainda não vi o filme e confesso que não tenho vontade. A história parece um pouco mais do mesmo que vemos por aí, mas com o diferencial da representatividade.
    Beijos

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  9. Assisti o filme e como um filme de comedia romantica pra quem não leu o livro, é lindo, e depois dessa resenha é obvio que lerei o livro.

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  10. Rafael!
    Geralmente os livros são mesmo melhores que o filme.
    Seguinte, como sou bem contra a qualquer tipo de preconceito, achei que o filme abordou o dilema de um adolescente que não se assumiu gay ainda, tudo bem que como falou ele é branco, classe média alta, etc...mas pelo que entendi, se apaixona por um negro, certo? Fato é que, mesmo que de forma até 'romantizada', acho importante que tragam filmes LGBT, para que todos tenham consciência de que amar, independe se xo, raça, idade ou qualquer 'norma' social, é apenas amor...
    Não li o livro ainda, mas bem quero. Acredito que o livro seja mais aprofundado.
    “A sabedoria superior tolera, a inferior julga; a superior perdoa, a inferior condena.” (Augusto Cury)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA ABRIL – ANIVERSÁRIO DO BLOG: 5 livros + vários kits, 7 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  11. Olá Rafael,
    Não tem jeito: o filme sempre será melhor que o livro.
    Me interessei por ele por conta da repercussão e de nunca ter lido uma história em que o protagonista era gay, achei um ponto muito legal a autora ter trabalhado de forma real os dilemas que Simon estava vivendo, e como colocou a importância da amizade e família! Uma pena a adaptação ter deixado coisas do enredo original de lado!
    Beijos

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