A MARCHA

SINOPSE: O parlamentar John Lewis é um ícone nos Estados Unidos e uma das principais figuras do movimento pelos direitos civis. Seu comprometimento com a justiça e a não violência o levou de uma pequena fazenda no Alabama para os corredores do Congresso norte-americano; de uma sala de aula segregada para a Marcha em Washington; dos ataques da polícia ao recebimento da Medalha Presidencial da Liberdade pelas mãos do primeiro presidente negro dos Estados Unidos - John LEWIS, Andrew AYDIN e Nate POWEL - Editora NEMO - 2018 - 128 páginas.

John Lewis fez parte do grupo dos Seis Grandes, que era composto por: Martin Luther King, James Farmer, A. Phillip Randolph, Roy Wilkins e Whitney Young. Todos eram presidentes ou fundadores de organizações de direitos civis e ações para terminar com a segregação racial nos Estados Unidos. Foram eles quem organizaram a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, de 1963, que reuniu mais de 250.000 pessoas para discursar e cantar pela justiça social e pelo racismo contra a população negra do país.

Atualmente, John Lewis é deputado federal dos EUA e um ícone no movimento pelos direitos civis. Durante sua vida, ele sofreu diversas agressões físicas, algumas graves, e foi preso mais de quarenta vezes por causa de seu ativismo para a igualdade racial. Um dos momentos mais dramáticos que viveu, ocorreu em 1965, quando ele tinha 25 anos e comandou 600 pessoas m um ato pacífico para a aprovação da Lei do Direito ao Voto para a população negra, e que mais tarde ficou conhecido como o Domingo Sangrento. Quando eles chegaram à ponte Edmund Pettus, sobre o rio Alabama, foram violentamente atacados pela polícia. A repressão brutal e covarde foi transmitida ao vivo pela televisão, comovendo todo o país e sendo responsável pelo início da queda das leis que sustentavam a segregação racial nos EUA.


É exatamente nesse ataque sobre a ponte que se inicia A MARCHA, uma HQ que foi idealizada pelo próprio John Lewis, com desenhos de Nate Powell, cujos traços e cores em preto e branco, com acréscimo de muitas tonalidades em cinza, entregam a dramaticidade necessária para compor a história, mas sem qualquer exagero. Além de conseguir destacar, da mesma maneira comedida, o que cada personagem transmite pelos olhos: desde compaixão, até ódio.

No primeiro de três volumes, acompanhamos o ano de 2009, poucos momentos antes da posse de Barack Obama como presidente, quando Lewis recebe duas crianças em seu escritório, e conta um pouco da sua infância na fazenda do pai, quando começou a compreender as leis racistas que impediam negros de andar nos bancos da frente de ônibus, ou de se sentarem em lanchonetes, ou de votar, ou mesmo de frequentar escolas e universidades de brancos.


Um dos momentos mais tensos da narrativa, acontece quando Lewis, ainda moleque, viaja com seu tio para uma cidade grande. No trajeto, eles atravessam dois estados conhecidos pela intolerância racista, e ele narra o medo de serem abordados no meio da viajem e sofrerem algum tipo de agressão. Eles precisam, até, planejar em quais postos de combustível poderiam parar, ou onde comer e dormir. A descrição de Lewis de como seu tio estava tenso, o ranger dos dentes, as mãos trêmulas e presas ao volante, os músculos que só relaxaram quando eles chegaram em segurança ao destino.

Outro ponto tenso da HQ, é a forte mensagem dos atos pacíficos. Nas escolas, quando eles planejaram as primeiras manifestações, fizeram treinamentos onde uns provocavam fisicamente e agrediam verbalmente aos outros, como treino para manterem a calma, para serem pacientes quando fossem realmente provocados. Eles praticavam para se manterem frios diante daquilo que iriam enfrentar. E nos primeiros atos, quando eles se sentavam nos balcões das lanchonetes para comer, onde só podiam se sentar pessoas brancas, eles se comportavam de forma irrepreensível, apesar de serem empurrados e ofendidos.


A MARCHA é uma obra que demonstra como se manifestar diante das injustiças, como ser ativo sem ser agressivo, como suportar os ataques e manter a cabeça erguida. E é curioso fazer um paralelo com outra HQ resenha recentemente no blog, JEREMIAS: PELE, que também trata do racismo (pode ler, AQUI). Na obra da turma de Maurício de Souza, acompanhamos o jovem Jeremias tendo a mesmas descobertas de John Lewis, mas de uma forma passiva, o que não quer dizer conformada. Nossa geração, ao contrário da geração do deputado americano, não aprendeu a lutar pelos seus direitos, a enfrentar os problemas de frente. Ela está mais interessada em usufruir aquilo que já tem, acha que é suficiente, mas esquece que ainda tem muito para conseguir. Nossa gração luta pelo que a atende de forma direta e individual, não está interessada na coletividade maior. 

E é esse muito que falta, que você irá encontrar na luta de John Lewis em A MARCHA e nos próximos dois volumes que serão lançados. É uma luta nos EUA, mas nem por isso é uma luta só deles. É uma luta de todos, brancos e negros, até que se deixe de dizer brancos e negros, e passe a se dizer: pessoas. Sem diferenciar a cor da pele.


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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

13 COMENTÁRIOS

  1. Que interessante contar a bela história e dura luta de John Lewis por meio de uma HQ! Que torna mais leve os fatos narrados.

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  2. Oi, Carl.

    Acredito que essa, é uma história bastante importante e que nos deixa a par do que realmente o autor lutou.

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  3. John Lewis marcou toda uma geração e é quase impossível não ver ou ler o nome dele em algum filme, documentário ou livro sobre essa fase escrota da segregação racial. Até hoje,ele ainda é um batalhador e isso é maravilhoso, apesar de acreditar piamente que nada disso teria que existir, já que somos todos iguais. Essas "separações" sempre mexeram comigo de uma forma ruim, por ver as pessoas ainda pregando o ódio, racismo e preconceitos idiotas.
    Adorei a forma como a história chegou, uma Hq tão bem construída, com ilustrações que trouxeram bem o medo e os sentimentos da época vivida.
    Como não conhecia, já quero muito poder ter e ler!
    Beijo

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  4. Interessante plantar a luta do John em uma HQ. Adorei o estilo das ilustrações, embora não esteja acostumada a ler temas assim.

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  5. Olá Carl!
    Vi esse livro ontem, gostei bastante, apesar de não ler mto livros do gênero este me chamou bastante atenção pelos assuntos abordados, gostei tbm das ilustrações, já está nos desejados.
    Bjs!

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  6. Achei incrivel! Quero muito ler, ainda mais agora que descobri que a historia é mostrada a partir de quadrinhos, o que deixa a leitura mais fluida e intensa recorrendo as imagens. Infelizmente é bem verdade isso dos jovens atualmente apesar de se manifestarem em movimentos e etc (movimento negro por exemplo), não lutam de fato pelos seus direitos, apenas se unem em grupos para falar de suas insatisfações, isso é muito positivo é claro, ja que desperta entre eles mesmos a sensação de se encaixar, de ter uma luta, e se conseguirem visibilidade em algum projeto, mudar ate a cabeça de algumas pessoas. Não tinha conhecimento desses Seis Grandes, so conhecia Martin Luther King, assumo, isso me deixou ainda mais interessada pela historia. É muito triste que nós n aprendamos a historia negra nas escolas (tirando a escravidão, que apesar de ser "africana" é vista devido a um contexto totalmente europeu), basicamente só aprendemos a historia do colonizador e a do nosso país.

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  7. Interessante essa forma de contar uma história e uma luta por meio de hq e de coisas que acontecerem com o homem, coisas que ele viu e presenciou. Aquela história do Domingo Sangrento é uma que já vi muitas vezes falar e sempre me dá uma tristeza pensar no que essas pessoas passaram...Pra gente hoje em dia, pensar nessas coisas horríveis que eles tinham de enfrentar, de tipo não poder sentar num banco de ônibus, de ter o "lugar deles"....cara, isso me deixa desanimada, triste.
    Parece uma hq forte, que mostra muito da injustiça e de como tentam melhorar isso sem partir pra agressão física que nunca adianta em nada. Muito boa essa ideia de mostrar a história assim.

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  8. Assim como o HQ a pele, A marcha deve ser uma dessas leituras incríveis que você certas coisas com um nó na garganta. Quero muito, mas muito ler o livro. E ler essa luta contra injustiças.

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  9. Oi, Carl!!
    Gostei muito dessa HQ A marca que assim como Jeremias: Pele falam sobre o preconceito e como eles enfrentam tal violência. Acho importante mas histórias como essa serem lançadas. Amei a indicação.
    Bjos

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  10. Olá! Mais uma HQ muito interessante e intensa e acima de tudo de leitura obrigatória. Muito enriquecedor saber um pouco mais sobre a história de pessoas que lutaram contra a injustiça e porque não tomar como exemplo e tentar fazer algo melhor na sociedade atual.

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  11. Olá, essa obra é um tesouro que precisa ser lido por todos. Aqui o leitor se inspira para não se abaixar frente as injustiças que até podem nos abalar, mas não são suficientes para nos quebrar. Beijos.

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  12. Olá!!

    Eu não conhecia esta HQ ainda, porém me interessei ao ler a resenha. Adoro HQ's haha!! Parece ser bem interessante...

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  13. Carl!
    Apesar e ser um HQ é daquelas bem pesadas e tornam a leitura tensa e densa, porque são assuntos impostantes de serem lidos porque envolve a justiça e suas ações, bacana!
    Bom feriado!
    “O meu objetivo é colocar no papel aquilo que vejo e aquilo que sinto da mais simples e melhor maneira.. “(Ernest Hemingway)
    cheirinhos
    Rudy

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