AMERICANAH

SINOPSE: Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. Principal autora nigeriana de sua geração e uma das mais destacadas da cena literária internacional, Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero. Bem-humorado, sagaz e implacável, Americanah é, além de seu romance mais arrebatador, um épico contemporâneo -Chimamanda Ngozi ADICHIE - Editora COMPANHIA DAS LETRAS - 2014 - 520 páginas.

A experiência de ir ao cabeleireiro é uma das mais comuns que temos. Contudo, é uma das situações mais adversas que possamos passar. Não sei como toda a circunstância se dá com os homens, mas, para mim (e para as mulheres em geral, acredito), é um estado de conflito: o contexto de ir até o salão e escolher um corte, decidir se vai fazer alguma mudança química (como uma tintura, por exemplo, e a escolha de uma cor dentro de dezenas em uma palheta de tons, além do alisamento e afins) e uma hidratação (choque de queratina? Reconstrução capilar? Cauterização?) para finalizar tudo. Fora as milhares de decisões a serem feitas, há também a incessante sequência de perguntas direcionadas a você, perguntas que vão do clima, a questões extremamente pessoais.

Nosso primeiro contato com a protagonista é exatamente assim: ela está indo, de taxi, até um cabeleireiro, já que sua localização não é tão próxima, e durante o caminho, seus pensamentos vão em centenas de direções. Quando começa a fazer seu cabelo, as perguntas das mulheres só potencializam a conturbação de suas indagações. Não há nada de incomum nesta situação. É simples, certo? Exceto que a personagem, Ifemelu, é uma nigeriana independente que se realizara acadêmica ao se mudar para os Estados Unidos, e, conforme atravessa um longo caminho para a um lugar que saiba fazer tranças em seu cabelo afro do modo que ela gosta, Ifem se vê diante da decisão de voltar para sua cidade natal na Nigéria.

Conhecemos a história de Ifemelu enquanto as mãos de uma desconhecida torce as madeixas em sua cabeça, e, para mim, a genialidade de Chimamanda já se mostra aí: ir ao salão é uma situação estressante, o que a protagonista sente (e expressa com seu jeito autêntico e sincero) e causa uma identificação inegável. E, pensando de forma mais descontraída, contar sua história para alguém que você não conhece é como, figurativamente falando, entregar a cabeça nas mãos dessa pessoa. De forma proposital, ou não, a autora nos faz de cabeleireiros, enquanto escavamos o passado da personagem e tentamos encontrar respostas para nossas perguntas.

É importante dizer que nunca li nada da Chimamanda antes, e AMERICANAH fora meu primeiro contato com a autora. De início, tive problemas com o ritmo do livro. Achei os primeiros capítulos lentos demais, e a narrativa intensa e detalhada de Ifem não deixou a adaptação mais fácil. Não é um livro que você dita o ritmo: ele flui conforme os ânimos e pensamentos da protagonista. Houve dias em que não consegui ler mais do que vinte páginas, houve dias em que lia mais de cem. A leitura só rendeu quando entendi que não dava para forçá-la, não dava para engoli-la, goela abaixo, sem antes mastigá-la bem e dar tempo para que as etapas da digestão se iniciassem. A leitura não é leve, e tive que parar de ler diversas vezes, refletir sobre, para só então prosseguir.

Fiquei surpresa – e contentíssima – com o que AMERICANAH me proporcionou. A obra é um romance que vai além dos espectros dos livros no gênero que conhecemos e costumam explodir nas livrarias. Ele aborda mais do que o amor romântico, alcançando os dramas familiares, a depressão, o suicídio de forma estarrecedora, ampla e nada singela.

O livro explora mais do que apenas um vislumbre da mente da protagonista, dando ao leitor uma personagem complexa e largamente caracterizada – Ifem é engraçada, o que por vezes ajuda nos momentos mais tensos do livro; é crítica, dando sua opinião de forma clara (e perigosa, já que não somos muito adeptos a ouvir verdades o tempo todo); é autônoma e trabalhadora, e indo contra os padrões, não é uma mulher magra e muito menos uma beldade. Contudo, o aspecto que me deixou mais apaixonada pela personagem, é que ela está errando constantemente, mas sempre se perdoando e se renovando, sempre se permitindo, mesmo quando os dedos apontam e as vozes gritam que ela é uma mulher, que ela é uma negra, que ela é uma imigrante. A personagem passa por situações perturbadoras que colocam em cheque nossa moral e algumas visões que nos são intrínsecas. Ao longo da leitura, as instabilidades de Ifem se tornaram minhas, e acho que esta é a função e acontecimento principal deste livro: fazer você vestir a carcaça da personagem, fazer você romper distâncias quilométricas com o virar de uma página.

É ótimo também como o livro não usa o preconceito – e toda a questão étnica – de forma superficial. Ele vai a fundo, descrevendo-o, pontuando-o, correlacionando com conjunturas do nosso cotidiano, evidenciando-o. A história mantém uma linha do tempo muito atraente, acompanhando fatos marcantes (como a candidatura do Obama e como foi a perspectiva de um presidente negro para os negros), cooperando para que se construa (ou se aprofunde) uma ótica mais centrada para a questão das raças. Já li livros que tratavam do preconceito e suas inúmeras facetas, entretanto nenhum o expôs de forma tão intrínseca e visceral como AMERICANAH fez.

Um fator interessante da leitura é que não há os eventos convenientes que surgem em romances comuns para facilitar a vida dos personagens, principalmente quando se observa o viés do casal. Chimamanda nos presenteia com encontros e desencontros, com términos e reatamentos, porém mostra que a vida continua, que a vida do casal em questão não parou de se desenvolver quando eles romperam, e as coisas não deram magicamente certo para que eles ficassem juntos sem que atitudes decisivas tivessem de ser tomadas. Já notei que, em alguns romances, quando um dos integrantes do relacionamento amoroso tem um compromisso com outra pessoa, esse outro alguém se mostra, numa reviravolta, um total mau caráter, ou ainda chega a falecer, e coisas semelhantes que façam com que os protagonistas não tenham de caminhar para uma escolha diretamente. Ifem não teve, em nenhum âmbito de sua vida, perspectivas brandas. E isso a torna mais real, mais feita de carne do que de papel; ela luta suas batalhas, convive com o preconceito, faz morada em estradas abastadas de desafios. Ela é extraordinária em sua ordinariedade, e isso, somada a profundidade que a autora lhe dá, a faz uma personagem única e especial, assim como o livro.

Com representatividade (representatividade esta que se exibe até na capa, com o lindo contorno de uma mulher com os cabelos crespos presos por uma faixa), discussões morais e étnicas, questionamentos sobre o amor, a vida, e qual o real significado do sucesso, AMERICANAH é como ir ao cabeleireiro. Você estará em conflito, será abordado com perguntas por todos os lados, algumas partes suas (cabelos, unhas, sobrancelhas ou peculiaridades mais... metafísicas) que estão ressequidas serão renovadas, algumas outras serão danificadas, pontas quebradiças serão cortadas. E não importa o seu tipo de cabelo, se ele é liso, ondulado, cacheado, crespo, se você não tem cabelo nenhum: AMERICANAH vai ficar na sua cabeça.

Eu, como mulher, como neta de uma cabocla, como cacheada, como pessoa que vive em uma sociedade preconceituosa e já sofreu preconceito, me senti abraçada e encantada com a obra de Chimamanda, e não apenas por me identificar, em diversos momentos, com o que foi narrado por ela, mas também por ver como a autora conseguiu, de modo tão particular e profundo, mostrar como é a vida de Ifem e de tantas outras pessoas. AMERICANAH consegue plantar uma sementinha de mudança em quem o lê e, deste modo, floresce esperança nas Ifemelus (e nos Ifemelus) espalhadas(os) pelo mundo.
“Mas raça não é biologia, raça é sociologia. Raça não é genótipo; é fenótipo. A raça importa por causa do racismo. E o racismo é absurdo porque gira em torno da aparência. Não do sangue que corre nas suas veias. Gira em torno do tom da sua pele, do formato do seu nariz, dos cachos do seu cabelo.”

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Layla

Estudante de psicologia e da arte de fazer das emoções palavras e das palavras óticas com grau certo pra qualquer um que queira ver as coisas de maneira diferente.

26 COMENTÁRIOS

  1. Chimamanda é simplesmente fantástica!
    Seus livros não são leituras fluidas e fáceis mas sim aqueles que despertam em nós vários sentimentos! Além de fazer refletir e enxergar a vida como ela é realmente.
    Ainda não li Americanah mas só de ser da Chi já está na lista.

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    1. Ela é sensacional mesmo. O meu primeiro contato com a autora foi incrível, não vejo a hora de conhecer mais de suas obras e de sua carreira.

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  2. Oi, Layla.

    Um dos pontos importantes do livro, e que não passa despercebido, é essa identificação por vezes, gerada.

    O livro me parece ser bem estruturado, abordando de forma simples (para muitos) questões importantes e vivenciada em nossa sociedade... Passando para o leitor, até mesmo sentimentos internos e sentidos.

    Nunca li nada da autora, mas sempre é colocado em tese, a forma como a autora desenvolve seus livros, e isso, é o que mais me chama atenção.

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    1. Ela é uma entre milhões mesmo, Dai! A mulher sabe o que faz. Indico muito Americanah!

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  3. Mesmo sem conhecer o trabalho da autora, já li e reli o nome dela em muitos blogs por onde passo e todos são unânimes em afirmar o quanto a autora é maravilhosa em tudo que faz.
    Não conhecia este livro e o que a princípio parecia ser algo chato e enfadonho, se tornou uma espécie de grito de alerta. Um chamado a liberdade e não apenas uma ida ao salão.
    Metáforas!Eu as amo e com certeza, o livro vai para a lista de desejados.
    Beijo

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    1. É exatamente isso, um grito de alerta. Eu não conseguiria colocar em palavras melhores, e espero realmente que você tenha a chance de conhecer a autora e os livros dela.
      E metáforas... dá pra viver sem? Bom demais!
      Beijoooo

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  4. Já tinha visto falar muito bem desse livro dela e é interessante tudo isso que ele faz pensar, como a autora conta e as diferenças, as dificuldades da personagem e tudo isso. Achei legal essa ideia de ir ao cabeleireiro e tudo que ela foi fazendo a partir disso, a forma como a personagem começa a pensar e dá forma pra história. Vi falando que podia ser um pouco demorado pra embalar, que não é desses livros que a gente lê rápido mesmo. Mas parece que vale a pena por tudo que aborda e como a autora mexe com a gente. Achei legal.

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    1. Ele é meio lento mesmo, mas vale a pena de verdade. Quando você embala, pega o ritmo de vez, e a leitura flui muito bem. Acho que, por não ser um livro leve, ele precisa desse tempo pra estancar na gente. Fico feliz que você tenha gostado, C!

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  5. Gosto bastante de livros que puxam temas delicados: depressão, suicídio e etc. Porque isto não o torna apenas um livro, mas um pedacinho da realidade. Ainda não li nada da autora, mas gostei do que me esperaria nesta obra.

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    1. É de fato um pedacinho da realidade, mas consegue ser melhor, porque as dores da realidade repelem a gente, e o livro consegue... aproximar, desmitificar. É sensacional. Se tiver a chance de ler, me diga, ia amar saber o que achou.

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  6. Olá, gosto dos múltiplos assuntos que são abordados na obra, que não se foca somente num contexto e entrega ao leitor uma trama com muito para refletir. O preconceito realmente precisa ser discuto e aqui encontramos uma crítica mais aprofundada que julgo somente ser de todo compreendida por aqueles que sentiram na pele algo semelhante. Beijos.

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    1. É exatamente isso, A, temos uma visão de dentro de tudo o que realmente acontece e é sentido, o que agrega muito no livro e em nossas vidas. Beijoooo

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Layla!

      Muito bom quando um livro nos incomoda e nos faz pensar sobre determinados temas, como aqui: o racismo.
      Infelizmente em pleno século XXI ainda existe tanto preconceito e de várias formas, não apenas racismo...
      E o pior (ou o melhor) é o livro mostrar o racismo em sua terra natal, já que ela tornou-se quase uma americana.
      Deve ser um livro maravilhoso de degustar cada uma das 400 páginas.
      Maravilhosa semana!
      “Eu gosto de escutar. Eu aprendi muito escutando cuidadosamente. A maioria das pessoas nunca escuta. “(Ernest Hemingway)
      cheirinhos
      Rudy
      TOP COMENTARISTA MAIO BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  8. Ual Layla que resenha, amei, nunca tinha ouvido flar desse livro, eu adorei conhecer, achei super diferente, vai os meus desejados com toda ctz, essa capa á linda e parece ter um enredo maravilhoso.
    Bjs!

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    1. Aline, fico feliz que você tenha gostado! O livro é realmente uma bomba, mas vale a pena cada pedacinho de explosão. Espero que a oportunidade para lê-lo surja em breve! Um beijo grande

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  9. Olá! Uau, a história parece ser enriquecedora. Muito bacana trazer uma protagonista que erra, mais real, pois durante a leitura podemos nos identificar com algumas situações. O tema do livro é muito forte e merece destaque. Realmente é um livro para ser lido aos poucos, para que possamos absorver o que ele quer passar.

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    1. Isso aí, você pegou bem a essencia do livro, E! É uma história muito enriquecedora e que fica com o leitor bem depois de finalizada a ultima página.

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  10. INDO PROCURAR ESSE LIVRO AGORA MESMO!!!!!!!!!!!!!!
    Que resenha incrível, não quis parar de ler, imagina o livro.
    Deve ser fantástico. A história, a personagem, seus pensamentos e principalmente os temas abordados nele. Tudo!
    Obrigada @gettub mais uma vez pela recomendação.

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    1. Obrigaaaadaaaaa, Lud! Você é uma linda e fico extremamente feliz que tenha gostado da resenha, não foi fácil fazê-la.
      É realmente fantástico e tô na torcida para que você leia e ame como eu amei!
      Beijos e a gente da equipe é que agradece, L!

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  11. Uau, uau e... uau!!!

    Adorei a resenha, mal conheço o livro e já fiquei encantada. Gostaria de poder ler, eu ainda não conhecia ele! Parece ser uma livro tão incrível...

    Beijos

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    1. Fico muito, muito feliz que tenha gostado, M! Também espero que você leia, porque é um livro que vale muito a pena. De todo o coração, você vai amar.
      Beijos e muito obrigada.

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  12. Oi, Layla!!
    Ainda não li nada da Chimamanda. Gostei de conhecer um pouco sobre esse livro é quero muito ler essa história incrível!!
    Bjos

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    1. Ela é uma autora incrível, M! Espero que você possa conhecê-la.
      Beijos!

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  13. Oi Layla,
    Desde que eu aprendi sobre essa autora na escola e fui apresentada a especificamente esse livro tenho muita vontade de ler as obras de Chimamanda. Não sabia que o livro começava com um cabeleireiro, achei isso simplesmente GENIAL, ainda mais se você considerar a questão da identidade que ela budca naquele salão atraves de suas tranças (isso além dos aspectos que você mostrou). Achei incrivel como um livro que começa de uma maneiratão "singela" como ir ao cabeleireiro desenvolva tantos temas dificeis como o suicidio, racismo, preconceito contra imigrantes, relacionamentos etc, ja tinha MUITO interesse por esse livro agora mais ainda. Fico sempre muito mais encantada com historias onde a protagonista é real, comete erros, evolui etc, faz a historia parecer muito mais palpável, e como você disse, sair do papel, é isso que faz o leitor (pelo menos pra mim), de fato viver aquela historia. Sou da filosofia que uma historia ficticia pode nos fazer refletir, pensar e evoluir muitas vezes bem mais do que num livro aleatório de auto ajuda. Otima resenha!
    Abraços, Ana C.

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    1. Ana, fico muito contente em ler seu comentário. Obrigada pela linda opinião. Acho que o sucesso da autora, e de muitos outros, é trazer questões de âmbitos mais distintos (como o preconceito, que não é vivido por todos, assim como o suicidio, e tantas outras mais) para situações rotineiras. Dá um impacto no leitor, ver como alguns passam por aqueles situações, entender por comparação como há essa diversidade de pessoas e tratamentos.
      E fico encantada por indicarem esse livro na escola! Queria eu ter um contato com ele antes hahaha. Espero de verdade que você leia e goste, Ana. Obrigada!

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