CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA NOS LIVROS


Com a estreia da segunda temporada de 13 REASONS WHY, o assunto sobre avisos de alerta de gatilho antes dos episódios, voltou às rodas de conversas nas redes sociais. Mas não é sobre a série que eu quero falar, e, sim, sobre livros que também podem ser gatilhos para pessoas com depressão, mas que não possuem qualquer alerta do perigo que podem representar.

Isso me foi alertado por um dos visitantes de nosso Instagram, que confessou ter passado mal ao final da leitura de POR LUGARES INCRÍVEIS, cujo tema é sobre dois jovens que se conhecem no terraço da escola, quando ambos tentam suicídio. Quem já leu, sabe que o final não é dos mais felizes. Quem passa pelo mesmo, como não existe nenhum aviso no início da história, pode enxergar uma esperança na determinação dos dois personagens em viajarem para conhecer os pontos mais incríveis do estado em que moram, como forma de vencer a depressão. E essa esperança é despedaçada ao final, o que pode agravar o estado em que o leitor se encontra. O mesmo acontece com outros livros, como MIL BEIJOS DE GAROTO, EU ESTIVE AQUI e MENTIROSOS, por exemplo. Todos com histórias depressivas, que não deixam qualquer mensagem de ânimo ou de superação.

Claro que não é culpa dos livros, como não é culpa da série, mas a questão não é sobre julgamento ou acusação, mas sobre um alerta, um simples aviso nas páginas iniciais, ou mesmo na quarta capa, onde o leitor é alertado sobre o peso que a história poderá ter sobre pessoas com depressão. Isso não impedirá ninguém de ler o livro, até mesmo quem está doente, mas, pelo menos, existiria uma chance de a pessoa não precisar chegar ao fim da história e sofrer mais ainda, como aconteceu com esse garoto que me procurou no Instagram.

Eu li muita coisa de pessoas alegando que a série, ou mesmo os livros, não as afetaram, que é importante divulgar o que muitas pessoas passam, que é preciso educar, etc. Bem, essas pessoas não sofrem de depressão, por isso não foram afetadas; e depressão não é algo que seja curado pela educação ou pela informação, depressão é uma doença que só consegue ser combatida à base de remédios fortes e acompanhamento psiquiátrico. Muitas pessoas ainda confundem depressão com capricho, não acreditam que seja uma doença, ou que seja fácil uma pessoa conseguir se curar. Bem, para essas pessoas, só posso dizer que estão sendo ignorantes, que não têm a menor ideia do que é depressão.

Mas não é só livros cujo tema seja a depressão que podem funcionar como gatilho. Recentemente, eu li DANÇANDO SOBRE CACOS DE VIDRO, cuja história, apesar de ser linda, é extremamente triste, depressiva. E muito. Eu, que atualmente sou saudável, fiquei afetado pelo final e passei vários dias pensando e sofrendo pelo que li. Agora, avaliem como uma pessoa doente com depressão poderá se sentir?

Novamente, a responsabilidade do que o leitor faz após uma leitura não é da editora ou do autor, mas, também novamente, qual a dificuldade em se colocar um alerta? Não estaria prejudicando ninguém, em contrapartida, estaria ajudando muitas pessoas. E sem qualquer custo.

Não existe, nos livros, classificação indicativa, embora alguns, os de gênero hot, possuam. Mas uma minoria. Acho que isso faz falta, muita falta. Não creio que seja necessário proibir a compra de livros com indicação para maiores de dezoito anos, por exemplo, mas a classificação ajudaria muito a pessoa a ter uma pequena noção do que irá encontrar nas páginas da obra que está para comprar. Isso sem mencionar os pais, que não têm a menor ideia do que os filhos consomem.

E isso não é algo absurdo de se querer. Quadrinhos possuem classificação indicativa. Basta a história ter algo de sexual ou violento, que vem na capa a idade para qual ela está indicada. Isso impede que se compre nas bancas? Não. E nem deve. Sou contra qualquer tipo de privação de liberdade de consumo. Mas, pelo menos, somos informados para qual público de qual idade se destina o conteúdo da HQ.

Livros estão além desse limite. Não sei o motivo. Talvez, uma HQ seja mais fácil de ser avaliada. Um livro, a pessoa tem que ler para conseguir avaliar. Não sei se isso tem alguma lógica, ou se as editoras fazem alguma pressão para que isso não exista, com medo que afete as vendas. Bobagem, na minha opinião. De qualquer forma, pensem nisso e comentem, compartilhem o que acham!

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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

11 COMENTÁRIOS

  1. Carl, preciso bater palmas para você. Um post que merece todo destaque.
    Às vezes tenho problemas emocionais, e com a última leitura, que foi exatamente Por Lugares Incríveis, fiquei bastante abalada. O livro é lindo, mas é sim um forte gatilho para pessoas com depressão. Se hoje, todos os filmes e séries tem indicação, por que os livros não tem? Afinal, eles também possuem uma história e muitas vezes são bem mais detalhadas do que uma adaptação, como os sentimentos e pensamentos de um personagem, algo que pouco vemos nos filmes.
    Amei o post. Digno de toda admiração e compartilhamento.

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  2. Quando ganhei o livro Cidades de Papel, estava no auge da depressão. Talvez por isso o ache tremendamente sombrio, os personagens egoístas e tolos. A cena de um deles dormindo sozinho em um galpão abandonado me cortou a respiração. Odeio o livro até hoje.
    Mentirosos ganhei no final da doença, e, realmente é tremendamente sofrido. Concordo que os livros deveriam ter um aviso. Faria um bem enorme para pessoas, que como eu, temos essa doença.

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  3. Oi, Carl.

    Nunca tinha visto isso por um outro ângulo. Em como isso, de alguns forma, poderia me afetar.

    Se bem que, ler um livro que aborde a depressão, de uma forma ou de outra, remexe na ferida.

    Concordo plenamente contigo. Se os livros tivessem uma classificação, e o leitor decidisse ir em diante, ele já teria uma base do que viria em seguida. Por ser visto como algo banal, talvez a classificação de tais livros depressivos, não são vistos como algo que precise desse alerta. É preciso entender a gravidade da situação.

    Confesso que, quero muito assistir "13 Reasons Why", mas sempre tive um certo receio, sim, pois vi casos de pessoas depressivas se a gravarem após assistir. Houve até mesmo casos de suicídios. Não é que a culpa tenha sido necessariamente (não totalmente, mas tem uma pequena parcela) da série, mas a mesma afetou.

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  4. Ao terminar a série 13 Reasons(2 temporada) ontem, fiquei me perguntando isso. Comecei a ver já tinha mais de uma semana e tive que parar ela,voltar pra outra série que estava vendo e só ontem consegui dar um fim nela. Não estava em um momento bom, por isso me permiti não ver.
    Mas acho que neste tempo de blogs literários que frequento, nunca tinha visto um post tão pertinente a respeito não de censura, mas sim de um aviso na capa ou contracapa de um livro.
    Por Lugares Incríveis é um livro dolorido demais, inteirinho. Até no início e meio do livro, é possível ver a dor ali e o final, ah, o final...
    Quando eu li Garotas de Vidro fiquei numa angústia sem fim, senti na pele e foram muitos dias após ter terminado a leitura que voltei a viver normal.
    Talvez seja o caso de todos nós, nos juntarmos e começarmos a sim, pedir isso às Editoras!
    Beijo

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  5. Rapaz, mas tá aí uma coisa que não tinha parado pra pensar ainda. Com aquela série e todo bafafá que deu foi compreensível, é uma história pesada e precisa ter um cuidado pra quem for assistir. Agora com livro nunca tinha parado pra pensar. Pra quem tem alguma coisa e pela um livro que é pesado, que aborda temas tristes assim pode não ser nada bom. Série muito legal e responsável se viesse com algum tipo de alerta, como fazem nas séries e filmes. Alguma forma de aviso.

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  6. SIM! As pessoas pensam muito em series e filmes que tem que ter esse aviso inicial, achando que somente imagens podem chocar ou piorar a situação de alguem que esta passando por um problema grave como depressão, mas a verdade é que um lirvo pode tocar tanto quanto. Talvez até mais se você considerar que o que esta sendo descrito não vai possuir uma imagem pronta pra que vc absorva, como numa serie ou num filme, pelo contrario, você vai ter que imaginá-la e a imaginação de alguem que esta sofrendo para uma cena de suicidio é totalmente diferente da imaginação das outras pessoas.

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  7. Oi, Carl. Acho isso uma observação muito válida.
    Lembro que no começo do ano de 2016, um pouco antes de eu entrar em um colapso emocional, recebi uma prova de livro de parceria que me foi um dos mais difíceis de escrever. A editora nos passou um release falando de uma história de amor com toques de mitologia, amores impossíveis e tal, e tinha um prazo de 15 a 30 dias para liberar a resenha. O livro tem uma história incrível, é inegável, e uma escrita excelente. Mas também tem uma personagem em uma profunda depressão. Apesar de ter conseguido articular um bom texto em tempo, passei o mês inteiro mal, mal mesmo. Hoje em dia tenho o maior cuidado e receio de pegar um livro, porque não sei o que vou encontrar, ou sei, e tenho essas reservas sobre como ele vai repercutir pra mim. Outros casos também, com gatilhos específicos, tive que conversar com amigos para não me passarem ou indicar livros que tivessem determinadas cenas, elementos, fatos... E aí penso, ninguém é obrigado a saber, mas se faz necessário a gente, como leitores com voz, falarmos desse cuidado. Como quando vamos ao médico e precisamos falar que temos alergia ou gatilhos mesmo. Infelizmente, muitas pessoas não sabem lidar com esse assunto, tanto quem sente, quanto quem recebe a informação. Ainda se tem muita vergonha e medos atrelados. Para quem conhece seus gatilhos, tem com certeza suas maneiras de evitar - só que nem sempre funciona. Tenho, por exemplo, vontade de ler e ver filmes/séries com coisas que são gatilho pra mim, e às vezes arrisco. Alguns dá pra levar (La casa de papel e cenas de violência dá pra passar), outros exigem muito mais da gente (O beijo traiçoeiro tem muita violência explicita e até hoje não consigo falar ou escrever sobre esse livro, porque ele me atingiu forte), mesmo sendo alguma obra maravilhosa. Demorei séculos para ver o filme A culpa é das estrelas, e ainda não vi Como eu era antes de você. Quem já sofreu um colapso emocional sabe como a paz é uma moeda cara e difícil de conquistar, sabe como tudo exige de nós uma energia que não temos; não dá pra se entregar a qualquer coisa. É como aquela frase que roda pela internet - somos um balão de sentimentos em um mundo de espinhos, qualquer coisa pode nos 'espocar'. Claro que não devemos viver uma vida de evitar tudo isso (e obrigada, terapia, por nos ensinar a cuidar de nós mesmos), mas ter um cuidado e apoio à sanidade das pessoas, hoje é essencial. É preciso validar cada vez mais a dor do outro. Umas notinhas de aviso pode real salvar pessoas.

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    1. Oi,Kleris! Obrigado por seu depoimento. Como você disse, um pequeno aviso pode se tornar um grande alento para quem passa por dificuldades. E isso não significa que as pessoas irão deixar de ler o livro, elas podem ler, mas, talvez, em outro momento, quando estiverem mais fortes. Mas as editoras, infelizmente, não ligam para isso. Qualquer coisa que possa significar perda de vendas, elas nem consideram. Acho quase impossível algo assim ser praticado no país. Mas o post não é uma reinvindicação, mas mais uma conversa sobre quem sabe o quanto um alerta faz falta ;)
      Bjos

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  8. Carl parabéns pelo post, me vi agora, leio alguns livros que depois da leitura me deixam tantas recepções, principalmente qdo se trata de assuntos delicados...
    Bjs!

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  9. Acho bem importante frisar na hora de escrever a resenha do livro, pois na sinopse você não encontrará esse tipo de indicação.

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  10. Carl!
    ACHO QUE NÃO CUSTA NADA DEIXAR INDICADO a classificação, inclusive, andei lendo que alguns livros não serão mais indicados nas escolas e para o ENEM, justamente por não serem 'corretos' a leitura para a idade.
    Tem livros que realmente abalam o psicológico das pessoas mais maduras que dirá de jovens imaturos e ainda em formação.
    Muito boa sua matéria.
    Bom feriado!
    “O meu objetivo é colocar no papel aquilo que vejo e aquilo que sinto da mais simples e melhor maneira.. “(Ernest Hemingway)
    cheirinhos
    Rudy

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