JEREMIAS: PELE

SINOPSE: Jeremias é um garoto feliz e normal que também é o melhor aluno de sua classe. Tudo muda quando ele sofre preconceito por conta da cor de sua pele. Uma história forte, dura, emocionante, na qual Jeremias lidará pela primeira vez com o preconceito. Uma reinterpretação ousada, recheada de dor, superação, aprendizado e preparação para a vida - Rafael CALÇA e Jefferson COSTA - Editora PANINI - 2018 - 96 páginas.

Jeremias foi um dos primeiros personagens criados por Maurício de Souza, lá nos anos de 1960, logo após o Franjinha e o Bidu, e foi o primeiro personagem negro da turminha. Uma curiosidade da época, é que os desenhos tinham um estilo chamado de blackface, cuja origem veio do teatro, onde atores brancos pintavam o rosto de preto para representarem pessoas negras. Aos poucos, essa técnica foi abandonada, uma vez que era exagerada e considerada por muitos como racista. Abaixo, podem ver como o personagem evoluiu com o passar dos anos.


Agora, Jeremias virou a estrela do mais novo lançamento das Graphic MSP, com PELE, e a edição entrega o esperado: uma história sobre racismo, preconceito, segregação, marginalização, injustiça, hostilidade, mas também sobre integração, reconhecimento, paternidade, amizade, aprendizado, superação, amor. Tudo de forma bem clara, direta, sem subterfúgios, para que a mensagem possa ser lida e compreendida por leitores de todas as idades, inclusive os mais novos, os bem mais novos.


Essa clareza é perceptível quando Jeremias sente na pele o preconceito e tem uma discussão com o pai, este último diz em letras grandes e em negrito o que precisa ser dito para que as pessoas compreendam de forma absolutamente inequívoca como é custoso e doloroso bater de frente com o preconceito. A sensação que passa, é a de um grito, para que todos ouçam, para que todos aqueles que acham que podem diminuir alguém por causa de sua cor, raça, religião, ou qualquer outro coisa, o quanto estão sendo ineptos como seres humanos.

Para completar essa sequência, no fim da edição, Jeremias lê em sala de aula uma redação que foi pedida pela professora, e no seu texto, ele contradiz o que foi dito pelo pai naquela discussão. E esse é o ponto alto da história, quando essa contradição faz todo o sentido. Não quero reproduzir o teor do texto, para não estragar a experiência de quem for ler, mas, basicamente, ele trata de que alguém que sofre preconceito não precisa ser mais do que é para se provar, porque não precisa provar nada. Como por exemplo, recentemente, uma pessoa me perguntou se eu tinha amigos negros e gays; eu respondi que não classificava meus amigos. Eu tenho amigos. E ponto.


Pela expressão dos olhos de Jeremias, em diversas situações a que ele é obrigado a viver, fica claro o seu pensamento e indignação: quem você pensa que é para evitar se sentar ao meu lado no ônibus só por causa da cor de minha pele? Quem você pensa que é para achar que tem o direito de escolher minha profissão só por causa da cor de minha pele? Quem você pensa que é para esconder sua bolsa por achar que será assaltada por mim só por causa da cor de minha pele? Quem você pensa que é para me considerar menos inteligente só por causa da cor de minha pele? Quem você pensa que é para achar que eu sou diferente de você só por causa da cor de minha pele?

Enquanto o enredo é limpo e direto, os desenhos são, por vezes, exagerados. Isso poderia ser um pouco confuso para o leitor, mas eles são exagerados dentro de um contexto específico, com o objetivo de reforçar a emoção dos personagens e a importância dos acontecimentos. Por isso, acaba funcionando e transmitindo o desejado, ou seja, os desenhos conseguem passar, além do que está acontecendo, uma amostra da intensidade do que os personagens estão sentindo.

As cores combinam perfeitamente com o desenho e com a mensagem da HQ: elas são, na sua maioria, escuras e foscas, realçando um traço mais grosso e reto, com curvas arredondadas. Gosto especialmente dos fundos de predominância de uma cor, dando um realce maior aos desenhos principais, mesmo quando são outros personagens que estão na paisagem. De certa forma, isso dá um tom sério a toda a trama, sem parecer dramático.


Por toda a edição, existem referências a vários outros personagens de Maurício de Sousa. Alguns aparecem mais, outros menos; também existem detalhes sutis que remetem a edições passadas das Graphic MSPs, o que passa a ideia de que estão a criar uma espécie de universo compartilhado dos personagens adaptados por outros autores (culpa da Marvel, que comprovou que isso funciona nos cinemas, e já estão aproveitando para fazer o mesmo). E algumas coisas são melhores explicadas, como por exemplo o motivo de Jeremias usar um boné. Afinal, racismo podia existir até nas pequenas ideias, e nunca é tarde para se retratar do que foi feito de forma um pouco estranha no passado.

JEREMIAS: PELE é uma obra que poderia ter vindo mais cedo, bem mais cedo, mas que nem por isso chegou tarde. Assim como PANTERA NEGRA nos cinemas, a HQ trata de assuntos ainda necessários no mundo em que vivemos, infelizmente. Ela não irá mudar o comportamento de quem é racista, porque esse tipo de pessoa se sente ameaçada pelo que não é igual a ela, e o medo é algo difícil de vencer, ainda mais por quem não enxerga suas próprias deficiências. Entretanto, ela poderá ensinar às pequenas pessoas, que ainda estão em formação de caráter, a compreenderem que não existe diferença na pele; existe diferença, apenas, na mente.


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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

11 COMENTÁRIOS

  1. Deveria ser leitura obrigatória nas escolas!
    Como fã incondicional da Turma da Mônica tenho um carinho especial por todos os personagens.
    Lembro do Jeremias!
    Com certeza irei ler

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  2. Oi, Carl.

    Apesar de ser um livro infantil, eu acho muito enriquecedor, pois é um livro que tem muito a falar.

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  3. Mesmo não sendo um gênero que aprecie muito, é impossível não ser apaixonada pelo trabalho do Maurício de Souza! Cada personagem, cada história.
    E fiquei realmente feliz em ver o quadrinho acima, que não é apenas mais um quadrinho de diversão, risadas e sim, um tapaço na cara de todos nós.
    Jeremias nunca foi visto na turminha. Tenho certeza que muitos de nós quando viu o personagem, nem o associou ao autor e isso é lamentável.
    Também acredito que não há gêneros entre pessoas. Não há diferenças, exceto em personalidade. Mas é duro saber que enquanto houver essa separação seja por cor, religião, peso, conta bancária, o mundo não terá solução.
    Espero sinceramente poder ler essa obra e com isso, me deliciar nas ilustrações e engolir cada palavrinha!
    Beijo

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  4. Tão lindas as ilustrações, adorei que Jeremias ganhou um espacinho pra dele.
    A obra traz um assunto tão importante, acho lindo que o incluam nos livros infantis. Maurício de Souza fez grande parte da minha infância, sei bem o quanto seus livros trazem boa companhia e aprendizado. Gostei bastante da tua resenha.

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  5. Nossa Carl amei conhecer esse HQ, vai para a minha listinha, com toda ctz deveria ter vindo mto antes, amei as ilustrações, preciso pra ontem!
    Bjs!

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  6. Nossa, mas que bonito e importante os temas dessa história dele. Falar de racismo e preconceito e tudo isso, como a pessoa é tratada diferente em diversas situações e como fica claro que é horrível pra ela e para todos que passam pelo mesmo...nossa, mas acertou em cheio ao falar disso. Faz a pessoa pensar, simpatizar e refletir sobre as atitudes que pode ter e nem percebe. São pequenas coisas para alguns mas enormes para outros. Abre uma ideia pra discussão e ainda apresenta tudo de uma forma que a gente consiga entender bem todas as injustiças com o personagem. É um tema complicado mas que precisa ser discutido sempre. Parece ótima essa hq.

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  7. Carl!
    Jeremias é mais velho que eu...kkkk
    Bacana ver que fizeram uma HQ só para ele e aborda tema preconceito, importante que seja discutido com intensidade.
    Desejo um ótimo final de semana e um feliz dia da mães abençoado!
    “Moral é o que te faz sentir bem depois de tê-lo feito, e imoral o que te faz sentir mal.” (Ernest Hemingway)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MAIO – 4 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  8. Olá, essa é uma obra mais do que necessária tanto para adultos como para crianças, uma vez que o leitor tem a oportunidade de refletir sobre preconceito e rótulos, esses últimos um dos maiores estereótipos de devem ser combatidos para a valorização do interior e não do exterior. Beijos.

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  9. Olá! Acredito que essa é uma história de leitura obrigatória. E como dizem por aí, antes tarde do que nunca, muito bom que Jeremias ganhou sua vez, e ainda trouxe temas tão fortes que, infelizmente, ainda precisam ser discutidos e esclarecidos no mundo todo.

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  10. Repito o comentário acima, seria uma leitura obrigatória ler essa livro. Tanto pelo assunto abordado nele quanto para as pessoas sentirem como Jeremias se sentiu. Achei muito legal a relevância de mostrar a desnecessidade de classificação das pessoas, gays, negros, brancos, pardos, heteros, etc. Somos apenas pessoas, o respeito entre nós se faz necessário.
    Quero muito ler Jeremias. Tanto pela história, personagem, traços lindos do HQ e abordagem trazida por ele.

    :D

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  11. Parece ser uma história emocionante, triste e dura. Como pode existir pessoais tão cruéis no mundo? Não entendo onde veem tanta diferença entre as pessoas. É uma leitura necessária tanto para crianças quanto para jovens e adultos!!

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