MUNIQUE

SINOPSE: Setembro de 1938, Hitler está desesperado para começar a guerra. Chamberlain quer manter a paz a qualquer custo. O desfecho da disputa acontecerá em Munique, em um dos momentos decisivos que antecederam a Segunda Guerra Mundial - Robert HARRIS - Editora ALFAGUARA - 2018 - 320 páginas.

É de conhecimento geral que a Alemanha invadiu a Polônia e, com isso, iniciou-se a Segunda Guerra Mundial. Mas a guerra já estava nas portas da Europa há muito tempo, e um dos palcos desse prelúdio, foi um país chamado Checoslováquia. MUNIQUE se concentra um ano antes do início da guerra, quando o medo do conflito era grande e suas possíveis soluções diplomáticas pareciam reais.

Para contextualizar, a Alemanha, agora reerguida e super nazista, estava querendo se expandir. Reunir todos os povos germânicos em um único país. Já tinha conseguido incorporar a Áustria de maneira “democrática” e, agora, queria os Sudetos, uma grande região da Checoslováquia, onde viviam muitos alemães. Inicialmente, eles iriam invadir militarmente, mas a França e o Reino Unido não queriam declarar guerra contra a Alemanha, coisa que deveriam fazer para cumprir a promessa que fizeram aos checos anos atrás. Em vez disso, simplesmente decidiram entregar a região dos Sudetos de bandeja para a Alemanha, mesmo contra a vontade do povo checo. Assim, conseguiram acalmar Hitler e não empurrar todo o mundo em um conflito derradeiro.

O livro vai trabalhar em cima da Conferência de Munique, evento real, onde ocorreu a assinatura do acordo de entrega do Sudetos, que teve a presença dos chefes de estado do Reino Unido, França, Itália e Alemanha. A trama se divide em duas partes: a primeira, acompanha um tradutor que trabalha no gabinete do primeiro ministro britânico Neville Chamberlain; e a segunda tem como protagonista, um diplomata alemão membro do partido nazista e também da resistência contra Hitler.

Mesmo se baseando em eventos reais, seus protagonistas são fictícios, igualmente como alguns desvios de trama. É quase como TITANIC, o naufrágio é real, mas não se tem registros de um romance entre passageiros chamados Jack e Rose. Tanto no arco alemão, quanto no inglês, temos uma visão de pessoas buscando desesperadamente uma paz interna como externa. Conforme vão se aproximando, ambos os protagonistas transbordam tensões e receios, já que seu encontro se enquadra como traição.

O livro tem uma narrativa extremamente ágil e viciante se alternando no arco britânico e no arco alemão. Ambos os protagonistas se conhecem de tempos antigos e agora assumem cargos importantes em seus governos. O ápice da trama acontece quando ambos se encontram em Munique, cidade onde os acordos estão sendo assinados. O diplomata alemão buscando cumprir uma missão, deseja passar documentos para os britânicos, com a finalidade de impedir a assinatura desse acordo, já que é de conhecimento geral na resistência alemã de que Hitler vai, sim, iniciar uma guerra, a entrega dos Sudetos não passa de um adiamento em seus planos.

Na primeira parte temos o total panorama do povo inglês no final dos anos 30. Acabavam de se recuperar da Primeira Guerra, que tinha sido finalizada há 20 anos, e viviam com um trauma gigantesco. Muitos ainda passavam fome, e na população mais velha, existia o sentimento de medo, um medo de acontecer tudo aquilo de novo. O próprio Primeiro Ministro britânico, um homem idoso, conduzia seu mandato e todos os seus poderes em busca da paz. Mesmo até hoje, sendo uma figura controversa, é errado dizer que todas as suas escolhas foram ruins, olhando apenas o panorama da época. Quem iria querer ser o responsável por jogar o mundo em outra guerra? Ele errou em fazer as vontades de Hitler? Errou em acreditar que tal lunático entendia de limites? Esse é alguns dos questionamentos que o texto levanta no leitor, todos muito plausíveis e passíveis a debate.

Uma da maiores qualidades da leitura é sua riqueza em detalhes, mostrando muito bem como era viver na Alemanha Nazista antes da guerra. Pouco se comenta, mas muitos alemães não gostavam do nazismo e não apoiavam suas brutalidades. O diplomata alemão participa no texto de um complô dentro do exercito que desejava impedir Hitler de fazer mais mal ao povo alemão. E mesmo a trama não se finalizando com desgraças, o sentimento que fica é de tristeza total, já que conhecemos bem seu desfecho: uma guerra mundial sangrenta, cheia de crimes contra a humanidade, por quase seis anos.

A amizade entre os protagonistas é muito palpável e esconde muitos segredos. A leitura ainda conta com muitos mistérios e problemas a serem resolvidos. O autor Robert Harris se mostra um mestre em desenvolver uma trama sobre essa tão polêmica conferência, onde o destino do mundo foi posto em cheque. Prato cheio para quem gosta de um suspense histórico. Merece muito destaque e enaltecimento.


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Rafael Yagami

Cinéfilo compulsivo, amante de livros e musica. A leitura e os filmes sempre me ensinaram a confiar em mim e ter sonhos grandes e é com isso que me armo todos os dias para lutar pelos meus objetivos.

23 COMENTÁRIOS

  1. São poucos os livros que se passam no período pré guerra.
    Achei interessante pois viver em uma época em que a qualquer momento uma guerra de grande proporção estava prestes a eclodir!

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    1. Deve ter sido uma época horrível né, viver apenas esperando tudo se destruir, um livro incrível que aborda muito bem esse sentimento.

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  2. Gosto bastante dos livros que retratam o período da guerra ou tudo em torno dela. São livros que nos põem de alguma forma na narrativa, para que tenhamos conhecimento ao menos do pouco que ocorreu e eternize esse marco. Parece uma ótima leitura!

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    1. Com certeza, é uma leitura que diverte e enriquece o leitor, cheio de detalhes históricos importantes para nós podermos entendermos melhor essa época tão sombria.

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  3. Oi, Rafael.

    Mesmo o livro sendo essa mistura de ficção e realidade, acho que ele não deixa de ser um livro certeiro, por mostrar esses lados de homens que tinham objetivos diferentes.

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    1. Com certeza, a parte de ficção é uma excelente metáfora para o povo civil que via as coisas acontecerem e quase nada podiam fazer.

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  4. Ando tentando aumentar minha coleção de livros sobre nazismo, Segunda Guerra...mas vou confessar que não tinha visto ou lido nada a respeito do "pré guerra".
    Muito bom ter esse lado da história, ainda mais chegando desta forma, com riqueza de detalhes e claro, fatos reais de verdade.
    Eu acredito que ainda tenha tanto a ser revelado que nunca se chegará de fato ao final do horror daquela época.
    Como não conhecia o livro, já vai para a lista de desejados.
    Beijo

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    1. A tanto a se estudar e aprender realmente, nunca me canso de descobrir coisas novas sobre essa época tão sombria. O livro é uma excelente pedida para entendermos o mundo no pré guerra, vale muito a pena uma conferida.

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  5. Olá Rafael!
    Eu nunca tinha ouvido lar desse livro, já me prendeu pela capa, lendo sua resenha fiquei curiosa pra conhecer, não sou mto de ler o gênero mas a história parece boa, vai para os desejados.
    Adorei essa capa!
    Bjs!

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    1. Também não conhecia o livro previamente antes de embarcar na leitura e foi uma grata surpresa sem dúvidas. Qualquer um que goste do tema vai se surpreender com o texto ágil e inteligente, vale muito a pena!

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  6. Nossa, parece bom demais esse livro. Sou viciada em coisas que falam da segunda guerra e ver toda a história, antes, deve dar um contexto maior pra coisa toda. Achei bem interessante isso dos britânicos na trama. Ver o lado deles, como lidam com a ameaça de uma nova guerra depois da ultima e os traumas e essas coisas me chamaram atenção. Não é um assunto que vi tanto assim, quando leio sobre essa guerra a maioria das histórias são mais centradas na Alemanha, Polônia, França...achei interessante ter mais esse lado de outro lugar pra ver. É sempre bom poder ler livros assim e pegar mais um pouquinho de informação. Acho que iria gostar muito desse.

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    1. Com certeza, o Reino Unido e a própria Checoslováquia são raramente citados em livros sobre a guerra, mas felizmente aqui eles ganham destaque e temos um panorama maior de todo o conflito, vale muito a pena!

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  7. Sua resenha vai me dar impulso para retomar a leitura, Rafael... Comecei a ler, mas não me prendeu de cara e acabei deixando um pouco de lado. Vou reembarcar nele...

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    1. O começo pode ser um pouco pesado e é necessário um pouco de conhecimento histórico para poder embarcar 100% no texto. Não desista que muita coisa ainda vai acontecer, eu garanto!

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  8. Rafael!
    Gosto demais de livros com detalhes, principalmente quando vem com um cenário histórico real e personagens ficcionais, mostra a criatividae do autor e ainda traz uma aula de histária.
    Fascinante.
    “Eu gosto de escutar. Eu aprendi muito escutando cuidadosamente. A maioria das pessoas nunca escuta. “(Ernest Hemingway)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA MAIO – 4 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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    1. Sem dúvidas, o autor arrasou ao ligar fatos históricos com personagens fictícios, daria um bom filme esse livro.

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  9. Conheci o livro agora. Me interessei muito pela tema abordado, polêmico mas necessário. Os detalhes que são dispostos nele deve ser incrível e com poder de mexer com o leitor tanto para saber como era antes da 2º guerra mundial quanto para conhecer historias de quem estava lá.

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    1. Mexe com certeza, saber que tudo poderia ser evitado e mesmo assim não dando em nada no final, é um período muito triste da nossa historia que nunca deve ser esquecido.

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  10. Olá, gosto muito quando um autor incorpora fatos históricos verídicos dentro do contexto da trama criada, e essa artimanha funcionada muito bem aqui, com uma profundidade que faz o leitor pensar que está lendo uma reprodução escrita de algo realmente acontecido. Simplesmente fiquei muito animado para ler a obra, que ainda conta com uma capa maravilhosa. Beijos.

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  11. Olá! Gosto muito desse tipo de leitura que nos leva a essa realidade tão cruel que foi a segunda guerra. É sempre bom conhecer um pouco mais sobre os fatos que culminaram num desfecho tão triste, apesar de já conhecer o final, acredito que a leitura será muito proveitosa e enriquecedora.

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  12. Olá.

    Eu ainda não conhecia este livro mas me interessei bastante nele. Simplesmente amo livros que falam sobre guerra. Essas histórias sempre nos surpreendem.

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  13. Oi, Rafael!!
    O livro parece ser bem interessante por ser uma mistura de realidade e ficção. Gosto de livros que tenham como assunto retratado a Segunda Guerra mundial, fique bem entusiasmada com esse livro.
    Bjos

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  14. Mds Rafael,
    Uau! Fiquei muito encantada com a historia (e com a resenha rs). Desde que aprendi sobre Segunda Guerra na escola, sempre tive um grande interesse nisso, e por isso sou viciada em livros e filmes que falam sobre o assunto (O menino do pijama listrado, A menina que roubava livros, O menino da lista de Shindler, A chave de Sarah, A vida é bela etc). Adorei essa coisa do autor nesse livro querer mostrar os dois lados da moeda (alemã e britânica) dessa época atraves da amizade dos personagens principais, e achei novidade uma história que fala sobre o tal do Tratado de Munique, fiquei muito interessada. Acho incrivel como existem tantas historias que ja conhecemos que são recontadas com personagens e caracteristicas ficticias a mais, cada uma com sua lição diferente abordando o mesmo assunto, isso é uma das coisas que amo em arte. Munique com certeza entrou na minha lista!
    Bjs, Ana C.

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