A ESCOLA DO BEM E DO MAL (TRILOGIA)

SINOPSE: No povoado de Gavaldon, a cada quatro anos, dois adolescentes somem misteriosamente há mais de dois séculos. Os pais trancam e protegem seus filhos, apavorados com o possível sequestro, que acontece segundo uma antiga lenda: os jovens desaparecidos são levados para a Escola do Bem e do Mal, onde estudam para se tornar os heróis e os vilões das histórias. Sophie torce para ser uma das escolhidas e admitida na Escola do Bem. Com seu vestido cor-de-rosa e sapatos de cristal, ela sonha em se tornar uma princesa. Sua melhor amiga, Agatha, porém, não se conforma como uma cidade inteira pode acreditar em tanta baboseira. Ela é o oposto da amiga, que, mesmo assim, é a única que a entende. O destino, no entanto, prega uma peça nas duas, que iniciam uma aventura que dará pistas sobre quem elas realmente são - Soman CHAINANI - Editora GUTENBERG - 2014, 2015 e 2016 - 352, 320 e 416 páginas.

O que me deixava curioso para ler esta série, era o fato de personagens conhecidos dos contos de fadas estarem reunidos em escolas rivais, e como o autor faria para construir suas duas personagens principais: Sophie, uma garota loira e linda; e Agatha, uma garota de cabelos pretos e nem tão bonita. Ou seja, o estereótipo do que é bom e mau, bonito e feio.

Felizmente, não fiquei decepcionado nessa minha expectativa. Fica claro, logo no início, que o que nos define como pessoas de caráter, o que define se somos bons ou maus, não é nossa aparência, mas nossos pensamentos e nossos atos. Embora Sophie seja tudo de belo do lado de fora, ela não o é por dentro. Invejosa e gananciosa, ela é capaz de fazer quase tudo para obter o que deseja. Já Agatha, apesar de ter uma aparência que repele em um primeiro momento, por se vestir de preto, é bondosa, se preocupa com Sophie, mesmo ela não merecendo, e tenta sempre fazer o que é correto, mas que isso signifique algo de ruim para ela própria.

Mas nos três livros que compõem a série, o autor não se limita a essa troca de personalidade que seria imposta pela aparência. Ele vai mais longe: ele demonstra que não existe o bom e o mau, que existe, sim, pessoas que são formadas pela soma de suas experiências na vida, que junto com a essência natural que possuem desde que nasceram, podem cometer ator ruins, mas também podem cometer atos bons. Ou seja, mesmo um príncipe de bom coração, em algum momento, pode fazer algo errado, de que se arrependa mais tarde, que prejudique alguém. E da mesma forma, um vilão não comete apenas atrocidades, ele também pode ter atos de bondade, dependendo do contexto, e levando em conta a vida que levou.

Nós somos máquinas complexas, influenciadas por nossas famílias, pela sociedade, pela educação, por sonhos e desenhos, pela necessidade de sobrevivência. E mesmo em uma série voltada para o público infanto-juvenil, isso é tratado pelo autor de forma complexa, mas direta, claro, para que o leitor mais jovem consiga absorver e compreender.

Em A ESCOLA DO BEM E DO MAL, o primeiro volume, somos apresentados a esse mundo, onde dois jovens são sequestrados de quatro em quatro anos e passam a fazer parte de algum conto de fadas, sendo um deles um dos personagens bons, e o outro, um dos personagens ruins. Quem escreve essa história é uma caneta mágica chamada Storien, mas, com o passar dos volumes, descobrimos que ela não é responsável pelos atos que cada um comete, que ainda existe um livre arbítrio, ela apenas registra o que acontece.

Metade do primeiro volume é gasto na apresentação dos personagens e suas motivações, além da tentativa das duas meninas de provarem que estão nas escolas erradas. A outra metade do livro, acontece a ação propriamente dita, com um final que também não decepciona, porque existe que Agatha faça uma escolha difícil em relação a Sophie.

Essa abnegação de Agatha em sempre ajudar Sophie, é uma das coisas que talvez tenha me incomodado um pouco no princípio, até que eu compreendi qual era o real papel de Sophie. Afinal, ela é uma vilã. Mesmo não sendo totalmente má, mesmo tendo escolhas egoístas e que não medem as consequências em relação aos outros, principalmente em relação a Agatha, essa é a sua natureza e ela possui uma consciência, ela sabe diferenciar o que é certo e o que é errado.

Isso fica mais evidente no segundo volume, UM MUNDO SEM PRÍNCIPES, que é substancialmente mais emocionante do que o primeiro. Por causa da escolha de Agatha no final do primeiro volume, o que existe agora é uma guerra dos sexos: meninas contra meninos. Nesse ponto, as coisas ficam mais cinzas, as escolhas mais difíceis. É discutido o papel da mulher nos contos de fadas, onde a maioria das histórias são machistas, uma vez que a donzela sempre precisa ser salva pelo príncipe. Em terreno tão delicado, o autor soube equilibrar o que passar para o leitor, ele deixa claro que um gênero não é superior ao outro, mas que precisam andar lado a lado para conseguirem vencer algum obstáculo. Ele coloca a necessidade de meninas e meninos precisam uns dos outros, mas que não dependem uns dos outros.

Como no primeiro volume, aqui, no segundo, também é necessário tomar uma decisão ao final da história, só que desta vez é Sophie quem deve fazer isso. E, novamente, essa decisão influencia o que acontece no terceiro volume, INFELIZES PARA SEMPRE, onde os vilões tomam a vez do que acontece e onde Sophie é uma das professoras.

Como disse lá em cima, a série A ESCOLA DO BEM E DO MAL é voltada para o público infanto-juvenil. Na leitura, você irá encontrar vários personagens conhecidos dos contos de fadas, outros personagens novos que assumem as funções dos conhecidos, criaturas dos mais variados tipos, desde fadas a monstros, além de muita ironia e piadas escatológicas, afinal, o que mais faz rir uma criança do que um peido que afasta princesas?

Mas você encontrará, também, temas sérios e distintos nos três volumes: o primeiro, conversa com o leitor sobre o quanto a aparência é insignificante diante do caráter da pessoa; o segundo, sobre a igualdade, e não a diferença, dos gêneros; e o terceiro, sobre as escolhas que moldam nossa personalidade. Mas os três tocam em assuntos comuns, como consequências, perdão, aceitação, identificação, reconhecimento, o desejo de encontrar seu lugar no mundo. E não é isso que nós todos buscamos na época da escola?

Sobre a narrativa, preciso explicar uma coisa que também me incomodou no início, mas, depois, lembrei de para qual público essa série é direcionada. Principalmente no primeiro e no terceiro volumes, existe uma repetição e extensão de situações que pode parecer desnecessária. Mas, como disse, para mais novinhos, repetição faz parte do aprendizado. Eles gostam, e precisam, de repetição para assimilar o que estão lendo. Acho que não é um defeito do autor, mas algo pensado para quem a leitura se destina. Não é uma desculpa, é uma constatação. Quem já leu, reflita se não é isso.

Bem, A ESCOLHA DO BEM E DO MAL é uma fantasia que correspondeu às minhas expectativas, tanto de conteúdo, quanto de criatividade. Diverte e educa nas doses certas. E se você gosta de contos de fantasia, então é uma leitura obrigatória!


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Carl

Tenho várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamento o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco ;>) -, e não saber desenhar O.O

14 COMENTÁRIOS

  1. Oi, Carl.

    A forma que o autor ampliou a visão de como devemos enxergar os atos bondosos ou não, é bem relevante. Bem como os vários aspectos abordados nos demais livros.

    No entanto, eu não sei se a introdução dos personagens de contos de fadas me agradaria...

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  2. Já tinha visto a trilogia sendo sorteada nas redes sociais da editora mas nunca parei para ler a sinopse ou uma resenha.
    Sua resenha completa e honesta me despertou e muito a vontade de ler.
    Adoro contos de fadas e quando são recriados.

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  3. Mesmo já tendo passado da idade um "cadim", adoro sempre poder pegar um livro mais voltado para o público jovem e com isso, me jogar nas aventuras e linguagem desta turma.
    Ainda não tinha visto ou lido nada sobre esta trilogia, mas sem sombra de dúvidas, as capas são lindas e esta lição sobre bem e mal é sempre válida, ainda mais quando junta contos de fadas e normalidade!
    Se tiver oportunidade, quero dar uma conferida sim!
    Beijo

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  4. Fiquei doida pra ler esses livros quando foram saindo porque adoro um bom conto de fadas e histórias que brincam com essa ideia. Parece bem legal. Gostei disso de falar das aparências e do caráter, de conseguir passar alguma mensagem legal em cada livro. A coisa do gênero, como isso influencia nos contos e como a visão é tão limitada quando a gente para pra pensar. As escolhas que fazemos, o bem e o mal em cada um e tudo isso que dá pra tirar lendo os livros. Adoro quando esse tipo de coisa acontece, que fique uma leitura que consiga passar algum ensinamento, seja clichê ou não. Esses livros tem bem aquele jeito de que dá pra ler em qualquer idade, se a pessoa gostar de coisas do gênero. Gostaria de conferir.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Eu amo quando os autores trazem uma nova forma de enxergarmos os contos de fadas, emendando ensinamentos que podem ser levados para a realidade. Já tinha interesse na leitura e o recheio do(s) livro(s) parece tão diversificado, tão criativo. Amei.

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  7. Carl!
    Não li ainda nenhum dos livros da série, mas achei fantática a ideia da mudança de personalidade e como é mostrado o quanto somos formados por nossas experiÊncias e como elas vão definir quem somos de verdade.
    Desejo uma semana repleta de realizações!
    “O que eu sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se entendesse.” (Clarice Lispector)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA JUNHO - 5 GANHADORES
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  8. Olá Carl,
    Primeira resenha que leio dos livros e tenho que confessar como me surpreendi. Primeiro porque não esperava que houvessem personagens já conhecidos do público, segundo por conta dos temas que o autor trabalhou... Acredito que todos nós temos o lado bom e o ruim, a escolha é nossa de qual deles deve prevalecer, e pelo que vi foi exatamente isso que o autor mostrou, as escolhas são nossas, é como dizem né, você não é totalmente influenciado, no fim a escolha foi inteiramente sua.
    Sobre o segundo livro, bem, o que ele mostrou deveria ser óbvio para todo mundo, mas deve ser divertido acompanhar essa guerra entre os dois lados.
    Enfim, eu gostei de toda a história apresentada, faz tempo que não leio livros voltados para o público juvenil que me conquistem!
    Beijos

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  9. Carl, me deixou com muitas expectativas. A série além de educativa e criativa também tem o gráfico da animação (de acordo com as capas) muito lindo. Fiquei curiosas sobre as atitudes da Sophie com relação à Agatha. Achei bem legal a história mostrar que entre o bem e o mal não são impostos a ninguém, e sim escolhidos; dependente de fatores externos e internos. Outro ponto que tbm é ser infanto-juvenil, uma boa escolha para eu fazer minha irmã caçula ler.

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  10. Se não fosse pelo blog eu nunca teria conhecimento dessa trilogia. Fiquei um pouco na dúvida se leria esses livros ou não, mas em todo caso, a resenha me deixou com grandes expectativas. Não sou muito ligada em fantasias (ainda), mas é uma trilogia ótima para ter na lista e incentivar a leitura dos mais novos. Ótima opção para presentear os pré-adolescentes :)

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  11. Oii Carl!
    Acompanhei algumas resenhas sobre a trilogia e fiquei mega interessada em conhecer ainda mais pq curto mto o gênero, as capas e sinopses me chamaram atenção, espero conseguir ler em breve.
    Bjs!!

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  12. Olá! Confesso que não conhecia essa trilogia e apesar de ser para o público mais adolescente, tem elementos no enredo que eu gosto bastante na hora da leitura, por isso, fiquei com aquela vontade de saber mais sobre a história e o seu desfecho, além disso, amo livros de fantasia.

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  13. Olá!

    Eu ainda não conhecia a trilogia, ao ler a resenha me interessei em ler haha Adoro livros do gênero!

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  14. Oi, Carl!!
    Gosto bastante de livros de fantasia e achei bem interessante essa trilogia. E bem interessante como o autor colocar essa "guerra" do bem x o mal nessa história. E mesmo sendo um livro mais adolescente fiquei bem curiosa para fazer a leitura desses livros.
    Bjos

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