AS FÚRIAS INVISÍVEIS DO CORAÇÃO

SINOPSE: Cyril Avery não é um Avery de verdade ou, pelo menos, é o que seus pais adotivos lhe dizem. E ele nunca será. Mas se não é um Avery, então quem é ele? Nascido nos anos 1940, filho de uma jovem solteira expulsa de sua comunidade e criado por uma família rica irlandesa, Cyril passará a vida inteira à mercê da sorte e da coincidência, tentando descobrir de onde veio — e, ao longo de muitos anos, lutará para encontrar uma identidade, uma casa, um país e muito mais. Além das incertezas de sua origem, ele tem de enfrentar outro dilema: é gay numa sociedade que não admite sua orientação sexual. Autor do best-seller O menino do pijama listrado, John Boyne nos apresenta à sua maior empreitada literária até então, construindo uma saga arrebatadora sobre aceitar-se e ser aceito num mundo que pode ser cruelmente hostil. Uma leitura necessária para os dias de hoje, que reitera o poder do amor, da esperança e da tolerância.
AUTOR: John BOYNE
EDITORA: Companhia das Letras
PUBLICAÇÃO: 2017
PÁGINAS: 536
TRADUÇÃO: Luiz A. de ARAÚJO

ALERTA: Este livro aborda temas fortes. Se você estiver deprimido ou passando por algum problema emocional, talvez este livro não deva ser lido por você neste momento.

Há uma teoria, chamada de A Teoria dos Seis Graus de Separação, que foi baseada num estudo científico que indica que são precisos apenas seis laços de amizade para que qualquer par de pessoas no mundo estejam ligadas. A explicação é longa, os exemplos inúmeros, contudo, o que esta tese levanta e confirma, e que traduzo em poucas palavras, é o fato de que o mundo é muito pequeno. Caso tenham ficado curiosos, vocês podem encontrar casos incríveis pela Internet, entretanto não é preciso muito para ver essa teoria tomando vida. As redes sociais e nosso constante ir e vir de relacionamentos mostram isso diariamente.

Esta teoria, o fato de estarmos mais próximos das pessoas do que imaginamos, é impressionante. Mas é impressionante na mesma medida em que é frustrante. É impressionante, pois há, agindo em todos os momentos, essa... imediação desconhecida; dando um exemplo comum, às vezes esperamos eras para encontrar alguém – seja um amigo, um amor, um familiar – que descobrimos, depois, que é primo de um conhecido, que estudou com aquele amigo de longa data, que trabalhou na empresa x, com o vizinho da casa ao lado. E é frustrante, justamente por haver essa imediação desconhecida, por podermos procurar alguém por anos, quando essa pessoa está tão perto, sem nunca percebermos, ou apenas percebermos tarde demais.

AS FÚRIAS INVISÍVEIS DO CORAÇÃO conta a história de Cyril antes mesmo de ele nascer. A narrativa é ambientada na Irlanda extremamente patriarcal, machista e homofóbica de 1945, logo após o encerramento da Segunda Guerra Mundial, e acompanhamos o desenvolvimento de nosso protagonista desde seus primeiros meses na barriga da mãe até os seus últimos dias de vida, décadas depois. Boyne mostra o conceito perturbador que se tinha dos relacionamentos homoafetivos, da AIDs, do pensamento da época quanto às mulheres, e a mudança (ou estagnação) dessas questões ao longo do tempo.

Por esses fatores e a somatória de alguns outros, esta foi uma leitura difícil de se fazer. Eu demorei quase três meses para finalizá-la, isso porque tinha de fazer pausas para conseguir digerir um acontecimento doloroso no livro, e então seguir em frente, seguir para o próximo acontecimento tão doloroso quanto – senão mais. Um dos aspectos mais horríveis – e mais consistentes, já que arquiteta os fatos para tornar a vida de Cyril concreta – nestas páginas, é o conhecimento de que todo o preconceito pontuado, todo o ódio descrito, cada atentado contra as pessoas, principalmente as medidas tomadas contra os homossexuais, ocorreram de verdade no século passado. E pior: que ainda ocorrem. Além disso, não havia um âmbito na vida do protagonista em que houvesse alegria: o contexto familiar dele é, na maior parte do livro, de relacionamentos superficiais; o amoroso é caracterizado por um amor obsessivo e sua impossibilidade de se tornar real e, quando tem uma perspectiva positiva, a supracitada alegria não é duradoura; o sexual é perigoso e abastado de saídas rápidas, homens desconhecidos, carregado com o medo de ser descoberto e punido. O livro não tem nada de leve, e as fúrias invisíveis, sem sombra de dúvidas, assolam o coração de quem lê.

É importante ressaltar que autor equilibra tal angústia constante com doses muito bem-vindas de humor, construindo uma narração irônica, com personagens que temperam ainda mais essa zombaria na contradição do ser, fazer e agir. Cyril é um personagem extremamente inocente, inocência que inspira preocupação e até raiva no leitor (em alguns momentos quis abraçá-lo e protegê-lo do mundo, em outros, quis chacoalhá-lo até que acordasse pra vida e percebesse o quê, de fato, estava acontecendo), e acaba por se meter em situações e conversas que dão certo alívio cômico à história. É dolorosamente engraçado, ou burlescamente doloroso, dependendo do ponto de vista.

A experiência de acompanhar toda a vida do protagonista é muito rica. Não sou muito adepta a livros que narram tanto tempo de história, já que os poucos que li no mesmo estilo, não foram lá grande coisa. A leitura da obra de Boyne fora muito boa, pois a transição de fases – infância, adolescência, vida adulta, meia idade, velhice – de Cyril foi congruente, recheada de fatos históricos, englobando personagens e uma sucessão de acontecimentos que enlaça a história como um todo, mostrando a conexão presente, embora nem sempre evidente, que existe entre os que fazem parte das muitas linhas desta leitura. Eu senti nessa evolução certa intimidade com o protagonista. A visão ampla de estar com um personagem durante todos os seus dias, dá a oportunidade ao leitor de refletir quanto a sua vida, quanto a seus amores, e possibilita observarmos o amadurecimento do protagonista, a resiliência inegável que ele demonstra, o aprendizado e ampliação de empatia e compreensão que ele pode causar em quem o lê.

Eu ri e chorei constantemente entre um capítulo e outro, mas os sentimentos hostis fizeram parte desse envolvimento, o que não facilitou a leitura. Senti raiva pelo protagonista, pelos personagens que lhe faziam mal (que são muitos), pelo desprezo e falta de importância que seus pais lhe davam e pelo desencontro e desconhecimento de Cyril para com alguém tão fundamental e que expressa tão bem quão impressionante e frustrante o mundo é. Portanto, este é um livro que indico para todos, embora não seja um livro que eu indique ser lido a qualquer momento, apenas por ler. É uma obra que requer preparo psicológico (e preparo do coração de quem pretende conhecê-la).

Há, nesta história de edição bonita, com letras grandes e diagramação impecável, uma tristeza desesperadamente esmagadora, embora jovial e com tons brilhantes entre os escuros. Com explanações sobre a passagem do tempo, sobre nossos amores (os bons e os ruins), nossas diversas e incansáveis dores e da ironia presente em nossas vidas, AS FÚRIAS INVISÍVEIS DO CORAÇÃO nos (re)conecta com os alicerces imprescindíveis que existem a nossa volta e em nós mesmos, quebrando a distância que impomos em nossas relações e evidenciando o amor, não importando o nível de separação (seja um, sejam seis), a quilometragem ou nossas preferências.
“– O mundo – comentou ele, algumas semanas depois de conhecê-la – é um lugar terrível e a nossa desgraça foi ter nascido nele.
– Mas está fazendo sol – sorriu ela. Portanto, nós contamos pelo menos com isso.”

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Layla

Estudante de psicologia e da arte de fazer das emoções palavras e das palavras óticas com grau certo pra qualquer um que queira ver as coisas de maneira diferente.

15 COMENTÁRIOS

  1. Oi, Layla.

    O autor foi bastante preciso em abordar e trazer à tona a rigidez e represália, como uma questão como essa, era vista a olhos nus em uma época na qual o livro se passa.

    O personagem é sem dúvidas muito sofrido, por enfrentar muitos conflitos.

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  2. Layla!
    Já gostei porque mostra a ambientação na Irlanda, poucos livros são ambientados por lá.
    Ver que Cyril atravessou parte do século passado e chegou até a atualidade e que o enredo poderia ser real, de alguém que conhecemos, acredita que nos aproxima da leitura.
    Nunca li nada do autor e bem queria ler esse livro.
    “Nunca sei se quero descansar porque estou realmente cansada, ou se quero descansar para desistir. “ (Clarice Lispector)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA JUNHO - 5 GANHADORES
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  3. Realmente parece ser uma leitura longa difícil e tocante.
    John em O Menino massacrou nosso coração! Fúrias de acordo com a resenha segue essa mesma temática.
    Ainda não li nenhum livro que acompanhase um período tão longo de vida de um personagem. Deve ser um misto entre interessante e cansativo m

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  4. Desde que este livro foi lançado, o namoro. Mas ainda não consegui nem ter e nem ler ele. Gosto muito das letras do autor, por esta profundidade que ele sempre aborda. Esse jogar literalmente o leitor na angústia, nos sentimentos dúbios, tipo ir do riso a dor em questão de letras. É fabuloso!
    Realmente deve ser um livro que só deva ser lido quando há necessidade da alma em enfrentar todas as dores do personagem, que não devem ser poucas, mas que talvez, só talvez, sejam necessárias a todos nós!
    Espero sinceramente poder ler o quanto antes!
    Beijo

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  5. Ainda não conhecia o trabalho do autor, mas posso dizer que este livro já mostra o que me espera. Eu amo leituras que encontram uma forma de tocar o leitor. Esta parece tão sensível e ainda assim forte. Mal posso esperar para conhecer a jornada de Cyril.

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  6. Nunca li nada desse autor, mas esse foi um livro dele que me chamou atenção quando vi logo de cara. A trama parece forte mesmo e gostei dele tratando desse tema sobre sexualidade e todas as coisas horríveis da época. Se na nossa a gente vê coisas que deixam de coração partido imagina ter uma noção disso antigamente? Já soube de coisas que me deixaram chorando e sem acreditar, do que faziam...
    Dá pra perceber que tem muita cena forte e o jeito como ele lida com o amor e essas coisas parece pesado, sensível e complicado. Só lendo pra entender tudo, mas é um livro que acho que iria gostar muito. Adoraria ler umas coisas desse autor e esse entrou pra lista.

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  7. Olá Layla!
    Sou uma leitora bem teimosa e bastante curiosa então preciso ler esse livro pra ontem...Gostei pq o autora aborda temas fortes e dessa forma faz com que o enredo seja mais rico em informações tbm, gostei de conhecer o livro.
    Bjs!

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  8. Layla, quero te parabenizar por uma das resenhas mais lindas que já li em minha vida, fiquei impressionada e senti na pele os sentimentos que você tentou expressar a cada linha. Me apaixonei pelo livro exatamente por sua resenha!!

    Adoro histórias que destroem nosso psicológico, principalmente histórias que, mesmo escrita de forma fictícia sabemos que é tão real que chega a machucar. Fiquei muito mexida e já estou ansiosa pela leitura.

    Arrasou!!

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  9. Oii Layla. O contexto histórico do livro me lembrou um filme bastante doloroso também: the normal heart.
    Eu já conhecia esse livro pela capa mas não sabia profundamente da historia dele e me impressionei com tudo. Apesar de profundo e doloroso é um dos livros que estou muito ansiosa para ler. Quero conhecer mais sobre Cyril e seu mundo ao redor, cheio de oposição e dor mas ao mesmo tempo numa família rica embora ele não pertença de verdade nesse ambiente.

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  10. Olá! Se eu já desidratei com O menino do pijama listrado, imagina agora com esse livro que parece carregar uma gama de sentimentos fortes e mexer bastante com as minhas emoções, caixa de lencinhos já esta preparada. Que vontade de abraçar o Cyril, triste saber que tais fatos por mais que fazem parte da história, tem um fundo de verdade, é lamentável saber que há muitos Cyril que passam ou passaram por situações parecidas.

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  11. Oi, Layla!!
    Também acho que para fazer essa leitura procura-se de um preparo psicológico, pois o John Boyne trás uma obra gigantesca com temas fortes que mexem com o leitor. É sem duvida um livro que devemos digerir as poucos por causa do turbilhão de sentimos agregados a história.
    Bjoss

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  12. Adoro os livros desse autor e já li várias obras dele com certeza me interessei em ver ele principalmente por abordar questões tão necessárias e eu nunca vi livros no ambiental dos na Irlanda Achei bem interessante essa proposta

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  13. Uauuu!!

    Eu ainda não conhecia este livro, acabei de conhecer e já considero pacas haha! Com certeza vai para minha lista de desejados, criei um enorme interesse por ele, e uma curiosidade enorme para saber mais sobre o Cyril!

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  14. Interessante o que o livro apresenta, tida a diferença e o preconceito de uma època. É difícil abordar o tema, principalmente nos anos 40, onde as preferências não podiam ser dito abertamente. Quero ler esse livro, e ver o que acontece com o personagem.

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  15. Oi Layla,
    eu adoro os livros do John Boyne, mas esse acabei não acompanhando o lançamento.
    Li ontem uma resenha também muito boa sobre ele e agora a sua, e amei as duas.
    Preciso muito desse livro!
    Achei o máximo o Boyne tocar em assuntos tão tocantes, tristes e necessários, como a guerra, preconceito, homossexualidade e etc.
    Parece ser realmente uma obra incrível.
    Mas como você disse que têm bastante passagens tristes, confesso que agora estou com medo, rsrsrs
    bjs

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