CORREIO PARA MULHERES

SINOPSE: Nesse CORREIO PARA MULHERES, foram agrupados os textos anteriormente publicados em Correio feminino e Só para mulheres, oferecendo ao leitor uma visão panorâmica do trabalho jornalístico de Clarice Lispector. Aqui e ali, em meio a conselhos diversos e considerações triviais, brilham pequenas pérolas literárias, características do estilo clariceano que nem mesmo os temas banais ou utilitários conseguiram esconder.
AUTORA: Clarice LISPECTOR
EDITORA: Rocco
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 400

CARL

Eu solicitei CORREIO PARA MULHERES à editora quando ele foi lançado, mês passado, se não me engano, porque sou fã de Clarice Lispector. Não apenas da jornalista e autora, mas também pela sua história de vida, pela sua determinação, por sua coragem. Em 1959, ela se separou do marido, um diplomata, por causa das constantes crises de ciúme dele, das viagens e da necessidade de manter uma residência fixa para cuidar do filho esquizofrênico. Nessa época, ela precisava de dinheiro, por isso aceitou escrever os textos que estão neste livro. Quando comecei a ler, não compreendi o que estava lendo. Apesar da qualidade da narrativa, do tom levemente jocoso, eu simplesmente não conseguia enxergar Clarice Lispector. Por quê? Bem, eu pensei que, por ser homem, não deveria ser eu a explicar. Ainda mais com a constante militância de sexistas que existe hoje em dia na Internet. Iam cair matando em cima do que eu iria escrever. Então, desisti da leitura e mandei o livro para a Sara. O resultado é a resenha abaixo. Leiam. Depois, no fim, eu continuo com meu raciocínio.

SARA

Clarice Lispector sempre foi muito reconhecida por suas obras mais famosas, como A HORA DA ESTRELA e A PAIXÃO SEGUNO G.H., mas o que poucos sabem é que ela também escrevia colunas femininas para jornais, nas décadas de 1950 e 1960. Contrariando sua aparência sempre séria, falava sobre o universo feminino de maneira divertida, dando dicas e conselhos às suas leitoras. Aqueles que estão acostumados com seus textos consagrados, verão um lado seu diferente, que se preocupa com estética, casa, família e amigos.

A autora trabalhava como ghostwriter para jornais, fazendo uso de nomes como Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares para assinar seus trabalhos circunstanciais de sobrevivência. Publicava sob seu verdadeiro nome somente suas obras literárias reais. CORREIO PARA MULHERES foi o resultado da união entre as colunas "Correio Feminino" e "Só Para Mulheres", contendo textos de aconselhamento feminino, onde a autora dá dicas de moda, cabelo, maquiagem, perfumes, comportamento, receitas culinárias, dicas para cuidar da casa, educação dos filhos, como agradar o marido...

Apesar de gostar muito das obras da autora, não a reconheci nesses textos. Aqui, ela prega muito sobre a importância da mulher estar sempre bela e arrumada, conservando sua feminilidade e delicadeza; afirma que todas se arrumam com o único objetivo de conquistar algum homem, pois considera-os essenciais para sermos completas e felizes; da dicas de comportamentos, enfatizando o quanto são importantes para obtermos respeito e admiração, além de não sermos mal educadas; como a mulher deve se preocupar com o bem-estar alheio o tempo todo, agradando o marido e os amigos sempre; dentre outros "conselhos" puramente machistas que me incomodaram ao extremo.
"Os tempos modernos trouxeram a emancipação da mulher em quase todos os campos. Eis um grande bem. No entanto, muita confusão se faz em torno disto e o que se vê é que muitas representantes do sexo feminino entendem que ser emancipada e ter personalidade marcante é imitar os homens em todas as suas qualidades e seus defeitos. A agressividade, o hábito de tomar atitudes pouco distintas em público e muitas outras coisas vêm prejudicando a beleza da mulher e tirando-lhe o predicado que mais agrada aos homens: sua feminilidade. A faculdade de ser diferente dos homens em atitudes, palavras, mentalidade." (Texto: Qualidades para tornar a mulher mais sedutora).
É claro que devemos considerar a época em que a obra foi escrita, principalmente o contexto social das décadas de 1950 e 1960; porém, atualmente, a leitura pode ser ultrajante. Em algumas partes, Clarice evidencia a força da mulher e sua sabedoria, o que é muito bacana; mas em contrapartida, inferioriza o sexo feminino em vários trechos, propagando ideais machistas que "obrigam" as mulheres a agirem de um jeito ou de outro. Isso me incomodou muito! Confesso que fiquei decepcionada com CORREIO PARA MULHERES, mas não deixo de admirar outros trabalhos da escritora.
"Uma coisa é certa: nós, mulheres, desejamos e temos o dever de agradar aos homens. Ou, pelo menos, ao homem que amamos, não é verdade? Se um homem elogia um penteado nosso, um vestido, um tom de esmalte, é porque esse detalhe realmente nos embelezou, pois, de uma coisa podemos ter certeza: nesse assunto, o homem é sincero, não há despeito nem veneno em elogio seu. Assim sendo, a preferência masculina deve ser levada em consideração sempre que nos vestirmos e enfeitarmos. A título de curiosidade, e também de orientação para algumas inexperientes, dou aqui uma pequena lista de coisas, que muitas de nós usamos ou fazemos, e que um inquérito revelou ser aquilo que os homens detestam: vestido muito justo; pintura excessiva, principalmente nos olhos; modas sofisticadas e complicadas; saltos muito altos; batom exagerado desenhando nova boca e exótica; moça desembaraçada demais; mulher sabichona. (...) Chamar a atenção não é a finalidade de uma mulher elegante e inteligente. Mas sim ser atraente e agradar aos homens. Estou certa?" (Texto: O que os homens não gostam).
De acordo com o próprio livro, "CORREIO PARA MULHERES não apresenta apenas dicas para "mulherzinhas" ou curiosidades "históricas", como datados conselhos para livrar a casa de ratos e baratas; oferece também, aos leitores, pérolas ocultas do mais puro estilo de Clarice Lispector, que surgem aqui e ali de modo inesperado, como matreiras piscadelas da enigmática musa do Leme". Particularmente, não considero o livro ruim, apenas possui um contexto social bem diferente do atual. Pode ser uma boa opção de leitura para os fãs de Clarice Lispector que desejam passar o tempo com uma leitura leve e conhecer outras facetas da autora.

CARL

Como a Sara disse, é necessário levar em consideração a época em que os textos foram escritos. Afinal, nessa mesma época, foram escritas obras consagradas, por outros autores, que tinham seus textos carregados de racismo e preconceito. Entretanto, o que me chocou não foi o que ela escreveu, mas sim ter sido ela a escrever. Quem conhece a vida de Clarice Lispector, e suas obras, claro, sabe que ela foi uma mulher que ultrapassou os limites que eram impostos ao sexo feminino na época. Por isso, pensei muito no que poderia levar alguém, como ela, a escrever textos tão carregados de machismo, de submissão. Não há como saber, pelo menos para quem não a conheceu pessoalmente. Mas eu, como fã, prefiro pensar que foi necessidade. Ela havia se separado, precisava de dinheiro e o que lhe ofereceram, foi escrever para colunas femininas. Se ela colocasse ideias liberais, revolucionárias, de empoderamento feminino, não passaria da primeira publicação. Então, ela escreveu da forma que a sociedade era acostumada a viver, escreveu o que a sociedade queria ler. Se foi isso realmente, alguém pode julgá-la? Eu acho que não. Ou melhor, tenho certeza de que não.

Depois que a Sara entregou a resenha, eu pesquisei na Internet por matérias sobre o livro. Para meu espanto, as únicas informações que encontrei foram sobre a qualidade da narrativa da autora, sua incrível capacidade na elaboração de ideias, na formação de frases, na arte da escrita. Não sei se as pessoas têm medo de discutir o teor machista dos textos por ser a Clarice quem os escreveu. Independentemente de quem ela foi, e principalmente pela época em que vivemos, quando existe uma constante luta entre a igualdade feminina e a inconformidade masculina, é muito importante destacar como era absurdo a posição submissa a que a mulher na época era obrigada a viver. O que podemos tirar desses textos, é o aprendizado de como era o contexto de uma época em que a mulher era um mero objeto de enfeite e de satisfação. E sentir vergonha.

Por isso, CORREIO PARA MULHERES, como a Sara também disse, não é um livro ruim. Pelo contrário. É até necessário que você leia. É importante que leia. A maioria da nossa geração não tem consciência de como a mulher era tratada na época de Clarice. Com textos e depoimentos como os dela, talvez entre na cabeça de muitos o quanto precisamos melhoras como pessoas.


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Sara

Mineira, bookaholic e futura fisioterapeuta. Sou apaixonada pela vida e por tudo que ela nos oferece. Ler, viajar, conversar, dançar, comer e dormir são algumas das coisas que mais amo.

30 COMENTÁRIOS

  1. Clarice maravilhosa Lispector.
    Concordo com vocês, a época em que foi escrita a obra deve ser levada em consideração assim como o papel exercido pela mulher nessa época.
    Mesmo assim, esse livro acaba de entrar para minha Wishlist uma vez que sou grande fã da Clarice

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    1. Oi, Chelle. Também sou grande fã de Clarice, mas confesso que depois dessa leitura fiquei bem decepcionada hahaha. Espero que tenha uma experiência de leitura bacana. Beijos.

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  2. Por o livro ter um conceito um tanto quanto incerto, por enfatizar, de forma meio relativa dois conceitos opostos, não sei se eu iria gostar da leitura. É visível que a Clarice tentou atingir objetivos distintos.

    No entanto, concordo, é muito fácil julgar sem saber das circunstâncias exatas e reais da autora.




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    1. Oi, Daiane. Esta é uma leitura que devemos fazer com a mente aberta e tentar não julgar tanto ahhahaha. Em alguns momentos, fiquei bem desanimada com o conteúdo que era apresentado, mas tentei manter em mente a época em que a obra foi produzida. Beijos.

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  3. Eu acredito que todo autor ou autora que traçou seu caminho ou ainda traça baseado em histórias, poemas, estórias, relatos e afins, deve no mínimo, ser fiel a si próprio!
    Não conhecia este livro e não sei ao certo o que pensar. Nesta época que estamos vivendo, onde as mulheres estão cada vez mais deixando a submissão de lado e investindo em si mesmas, não para "caçar" homens, mas sim, para caçar a si próprias, é algo que incomoda de ser lido, pelo que entendi.
    Ainda mais para já teve o prazer de ler alguma linha da verdadeira Clarice.
    Outros tempos? Falta de dinheiro? Recomeço?
    Não se justifica, mas...
    Beijo

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    1. Olá. Concordo plenamente com seu ponto de vista, principalmente porque eu sempre fui fã de Clarice. Esperava muito mais dessa obra, infelizmente, me decepcionei bastante com a autora por não ter sido fiel ao seu estilo de escrita, mas imagino que a situação da mesma na época não era nada fácil... Beijos.

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  4. Apesar de ser fã da Clarice e de qualquer coisa que venha dela, sendo sincera, não tenho certeza se leria este. Fujo de qualquer conteúdo inclinado ao machismo. Embora muito provavelmente a autora tenha apenas revelado a forma como via a época e é até importante mostrar isso, mas, particularmente, não sei se leria.

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    1. Oi, Alice. Quando escolhi o livro para ler, não imaginava que envolveria assuntos tão complicados que divergem com minha opinião; então, quando comecei a ler, percebi que não era nada do que eu esperava kkkkkk Para os fãs que querem ler tudo que Clarice escreveu, pode ser uma boa opção, mas não é uma obra na linha literária de Lispector... Beijos.

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  5. Não tenho gosto pelas obras da Clarice, mas uma coisa posso dizer: dá pra contar nos dedos as pessoas que conhecem essas publicações feitas por ela.
    Concordo muito em relação à opinião de vocês, a época deve ser considerada e também penso que ela deve ter feito isso por necessidade. Não há uma pessoa no mundo que possa jugar ela por isso; quando a necessidade de sobrevivência nos vem à tona somos capazes de fazer variadas coisas, como pode ter sido o caso dela (e de tantas outras que podem ter passado - e ainda passam - por algo assim ou pior).

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    1. Oi, Giovana. Sim, concordo com você. Nos momentos de necessidade fazemos de tudo... Beijos.

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  6. É gente, já vi muita coisa boa de outras obras dela, mas não leria essa tão fácil e nem tenho estomago pra isso. Considerando a época até quase dá pra relevar, mas cara, sério? Essa ideia de ter que ser tão feminina quanto puder, sempre gentil e atenciosa pra conseguir um homem? Se a ideia fosse ser assim pra se sentir bem ou algo do tipo até dava pra entender, mas só por essa ideia de ter que conquistar um padrão pra "conseguir um marido" já me dá é asco. Credo, não, passo. Não consigo ler uns trens desses assim não hoje em dia não. Seria bem difícil.

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    1. Oi, Cristiane. Os textos que propagavam essas ideias de supostos padrões femininos me incomodaram muito durante a leitura, porque eles incentivam a mulher a deixar de ser quem ela é para ser uma "boneca" obediente. Isso é horrível! Mas, infelizmente, isso fazia parte da cultura da época. Nunca saberemos se Clarice realmente pensava assim... Beijos.

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  7. Olá! Não acompanho muito o trabalho da Claricee, mas do pouco que li, gostei bastante, mas o que mais me assusta nesses textos é que apesar de terem sidos publicados em uma época em que a mulher era tida como um objeto, eu sinceramente ainda vejo (escuto) muito disso hoje em dia, o que é muito triste. Acho que a leitura é muito válida para entender melhor aquela época e fazer tudo diferente do que está escrito (#soudessas).

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    1. Oi, Elizete. É muito triste mesmo, existem pessoas que propagam ideias tão antiquadas como essas até hoje... =/ Acredito que quem for ler "Correio para Mulheres" deve manter a mente aberta e não julgar tanto a autora. Beijos.

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  8. Oi, Sara!!
    Gostei muito da resenha do livro Correio para mulheres. Mesmo sendo um livro tão diferente do estilo da Clarice normalmente. Mas fiquei curiosa para conhecer um pouco mais sobre esse livro mesmo sabendo que vou encontrar em vários momentos palpites muitas vezes machistas.
    Bjos

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    1. Oi, Marta. Fico feliz que tenha gostado da resenha! =) Se for ler a obra, espero que tenha uma experiência boa, mantenha a mente aberta. Beijos.

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  9. Sara/Carl!
    Difícil não reconhecer a forma tão característica da autora na maneira de escrever, nesse livro.
    Como gosto muito, leria mesmo assim, porque sempre traz os conceitos sexistas em seus textos.
    Boa semana!
    “.Aquilo que eu não sei é a minha melhor parte! “ (Clarice Lispector)
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Oi, Rudynalva. É uma leitura indicada para fãs de Clarice que desejam conhecer todas as obras dela, aqui vão conhecer um outro lado da escritora que ela não mostra em suas obras literárias. Obrigada, boa semana para você também. Beijos.

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  10. Olá Carl e Sara!
    Só trazendo Clarice na capa eu já me interessei em ler, fiquei doida pra conhecer, já vai para os meus desejados é claro!
    Bjs!

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    1. Oi, Aline. Espero que goste da leitura. Beijos.

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  11. Ainda não consegui entender muito bem o contexto do livro com esse Focus em lados opostos Mas enfim acho que só por ser voltado a Clarice acho que vou pensar em ler

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    1. Oi, Carolina. O livro foi escrito por Clarice numa época bem complicado de sua vida pessoal, então, o foco da escrita muda né... De obra literária para textos que atraiam leitoras para um jornal. Se for ler, espero que goste. Beijos.

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  12. Olá!

    Não leio muito Clarice Lispector, o pouco que li gostei. Eu ainda não conhecia este livro, e achei bem interessante a proposta dele. Não é um livro que necessitarei ler, mas quem sabe né?! Se houver alguma oportunidade, só para matar a curiosidade em ler mesmo...

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    1. Oi, Maria Eduarda. Se tiver a oportunidade de ler o livro, espero que tenha uma boa experiência. Beijos.

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  13. Tem tantos anos que não leio um livro da Clarice Lispector, o último que li foi A hora da estrela. Por ser uma escritora que sempre me agradou, gostaria de ler esse livro.

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    1. Oi, Ana Paula. "A hora da estrela" foi meu primeiro contato com a autora e fez eu me apaixonar por ela haahaha. O último livro que li acho foi "A via crucis do corpo". Espero que faça uma boa leitura. Beijos.

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  14. Talvez seria mais compreendido se fosse lido no mesmo contexto histórico do livro, talvez(?) Pois é claro que recentemente tudo que ela aborda várias pessoas podem não gostar por conta do papel da mulher sem levar em consideração a época. Eu amo os contos da Clarice. Porém esse livro não me ganhou interesse.

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    1. Oi, Ludmila. Acredito que sim, e claro que não podemos julgá-la sem entender seus motivos. Também adoro os contos da autora. =) Beijos.

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  15. Gosto bastante das crônicas da Clarice, e ainda não conhecia esse livro.
    Não fiquei com vontade de ler, achei bem machista também.
    Mas é como vocês disseram,era outra época e ela precisava sobreviver, é compreensível, porém, não acho que o livro seja muito bom, então não lerei.
    bjs

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    1. Oi, Ana. Entendo seu ponto de vista. Beijos.

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