UM ARTISTA DO MUNDO FLUTUANTE

SINOPSE: História de um homem e de todas as mudanças que ocorrem em seu país, o Japão, depois da guerra. Masuji Ono, pintor famoso caído em desgraça, venera o passado guerreiro de sua nação e é recheado pelo caos e pela desintegração do presente: o "mundo flutuante" de bares e casas de gueixas.
AUTOR: Kazuo ISHIGURO
EDITORA: Companhia das Letras
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 225
TRADUÇÃO: José Rubens SIQUEIRA

As nossas memórias são um bem precioso que, infelizmente, perdemos com o tempo. Conforme a idade avança, o passado se torna um incômodo constante ao nos lembrarmos de atos, palavras e omissões. É com esse pensamento que Ono, protagonista da pérola UM ARTISTA DO MUNDO FLUTUANTE, vive diariamente.

A trama acompanha Ono, um senhor idoso morador de um Japão arrasado pela Segunda Guerra Mundial. Na juventude, ele foi um bem sucedido pintor e professor, sendo um exemplo para muitos, e grande apoiador do Japão Imperialista, aquele que invadiu diversos países durante a guerra. Vive em uma casa que, por si só, já tem muita história para contar e, ao fazer um passeio por um bairro favorito na juventude, Ono reflete sobre sua própria vida.

O livro é uma grande reflexão, com diálogos introspéctos. O personagem se lembra de algo, e logo vamos para essa memória. Ele vê, ouve ou associa algo com o que viveu no passado e, em seguida, mergulhamos nesse fato antigo. É realmente uma conversa bem realista. Quem nunca começou falando sobre a antiga escola e, do nada, foi parar na descrição da sua primeira namorada (o)? E nisso compreendemos como está a vida de Ono hoje e como era antigamente.

Ono tem duas filhas, e o arco central da trama é o casamento de sua segunda filha, e nisso passamos pelos costumes bizarros de casamentos no Japão dos anos 40. A moça tem 26 anos e já é tachada de velha e o pior é que os preparativos do casamento são basicamente negociações. Os pais do noivo vão investigar a fundo o passado da noiva e de sua família. Caso encontrem algo estranho, cancelam a união na hora. Ono, com receio de que seu passado possa interferir no casório da filha, acaba tendo que visitar à força memórias que gostaria de apagar.

Ono acaba que sendo obrigado moralmente a visitar pessoas com quem não fala há anos para poder pedir que não difamem sua filha injustamente quando o detetive aparecer para a investigação. E essas visitas reservam muitas surpresas, é nelas que passamos a conhecer melhor o antigo Ono. O homem que pagou um preço alto pela guerra, que vive querendo aproveitar seu tempo restante. Tem muitos arrependimentos, mas nada disso o faz parar de viver. Sua filha mais velha tem um filho, e, para Ono, a interação com o neto não tem preço. Os trechos onde ele e a criança brincam, desenham e conversam são o ponto alto da leitura. A juventude e velhice andando de mãos dadas, uma aprendendo com a outra.

Para o Japão, a Segunda Guerra terminou em rendição incondicional, e a leitura passa brevemente por esse momento e em como ele interferiu na vida da população. O país foi invadido pelos americanos e, com eles, veio sua cultura e seu modo de viver, e uma das coisas mais interessantes é notar que a essência do povo japonês não foi prejudicada. Pouco se fala, mas o povo japonês também foi oprimido por seus governantes sádicos e a lavagem cerebral foi tamanha que muitos demoraram anos para conhecer todo o mal que o Japão Imperialista causou na Ásia, principalmente na China, um dos primeiros países a ser invadido pelos japoneses. E a trama não para por aí, ainda passamos por pessoas que apoiaram esse Japão na guerra, mas poucos são aqueles que conhecem toda a verdade a tempo. Quem nunca acreditou em algo e depois se arrependeu? Quem nunca tentou tirar o melhor das coisas ruins? Quem nunca se enganou sobre coisas que pensavam serem boas?

São menos de 230 páginas que poderiam ser o dobro e não fariam nenhum mal. É uma leitura honesta e realista sobre como vemos a vida passar tentando sempre atrasar o relógio. É importante relembrar e se arrepender, ver onde erramos e onde acertamos. O autor Kazuo Ishiguro, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, mostra-se um mestre no estudo humano. Um livro sobre a vida, que poderia muito bem ser sobre a minha ou a sua.

A edição nacional, toda coberta pela cor turquesa, inclusive na sua lombada, é um luxo à parte, que só soma pontos a favor da perfeição desse livro, uma jóia que merece todo o destaque possível.


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Rafael Yagami

Cinéfilo compulsivo, amante de livros e musica. A leitura e os filmes sempre me ensinaram a confiar em mim e ter sonhos grandes e é com isso que me armo todos os dias para lutar pelos meus objetivos.

10 COMENTÁRIOS

  1. Oi, Rafael.

    Embora sendo um pouco relativo, acredito que eu iria gostar do livro, por o mesmo ressaltar minuciosamente o valor do aprendizado através de muitas memórias.

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  2. Realmente a cor da capa do livro é lindíssima.
    E leitura preciosa e rica. Poder conhecer uma cultura tão diversa da nossa especialmente na época em que é narrada.
    Além é claro de poder fazer uma viagem interna e refletir sobre sus própria vida

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  3. As vezes me sinto triste quando olho alguma coisa ou vejo alguém e tipo isso, paro no tempo e fico me recordando de algo que aconteceu há tanto tempo...A idade chegou e não há como negar o peso dela nos ombros já se curvando.
    Talvez por isso, já me apaixonei por Ono e por sua história. Pelas lembranças, pela volta ao passado, tentando mudar um presente, mas não podendo deixar quem se é de lado.
    A capa é realmente linda e já vai para a lista de desejados com certeza.
    Beijo

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  4. Olá Rafael,
    Memórias são assim, de uma vai nos levando a outra ...
    Acho o Japão um local com tantas curiosidades legais, nem imaginava que um casamento era tão burocrático assim, e essa trama que mistura ficção com fatos da realidade me ganhou, acho interessante acompanhar a história do protagonista, e também conhecer um pouco dessa cultura fascinante em uma época que não foi nada fácil!
    Beijos

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  5. Parece uma leitura bonita pela forma como faz refletir e pensar nas coisas assim. Chamou atenção por isso da segunda guerra, gosto de livros que mencionem e ver as consequências disso é sempre interessante. O personagem mais velho e vivido e tudo que pode mostrar também chama atenção. Ver as lembranças dele, ter essa conexão com os acontecimentos assim parece legal. E se for um livro que passa mesmo a sensação de que se tivesse mais páginas não seria problema pode ser bem interessante na hora da leitura. Achei legal.

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  6. Oi Rafael!
    Eu curto mto a cultura do Japão, sempre que vejo algo sobre tenho mta curiosidade e interesse em conhecer, o livro parece ser de uma leitura mto boa, eu ainda não conhecia, já add aqui na listinha e vou torcer pra conseguir ler em breve.
    Bjs

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  7. A capa desse livro é maravilhosa, me apaixonei!
    A história parece ser incrível e o livro em si parece ser maravilhoso, mas não foi algo que me prendeu :(
    Fiquei bem intrigada com as situações de Ono - tanto passadas quanto às que ele vai passar pela filha - e, aparentemente, a junção de Ono com seu neto parece ser um momento maravilhoso, lindo e puro!

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  8. Olá! Não conhecia o livro, acredito que vai ser bem legal conhecer um pouco mais da cultura japonesa e sua história, além disso, mergulhar junto com Ono em suas lembranças. É sempre bom retornar ao passado e reviver algumas lembranças, esse momento nostalgia é sempre muito bem-vindo. A capa está realmente linda e já é um chamativo para a leitura.

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  9. Oi, a cultura japonesa é realmente bem integrante não é mesmo ? Achei interessante o enredo do livro e para ser sincera eu nunca esperava ver esse livro, não lembro nem da divulgação do livro na verdade. Eu vou procurar mais desse livro e vou indicar esse livro também pra uma amiga que acho que vai ficar interessada.

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  10. Rafael!
    Que livro é esse? Fiquei encantada. Gosto muito da cultura japonesa e ver que ela é retrata pelos olhos no passado do protagonista, deve ser fabuloso.
    Sem contar que é um livro mais psicológico e que de certo modo, poderemos nos identificar com ele, já que buscamos sempre lembrar algo já vivido.
    Bom final de semana!
    “A consciência é o melhor livro de moral e o que menos se consulta.” (Blaise Pascal)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA JULHO - 5 GANHADORES - BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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